Nenhum autor da Reforma abraça retórica mais mesquinha do que Martinho Lutero – e é certamente por essa razão que com nenhum outro me identifico mais. Lutero é em muitos sentidos meu freio; não fosse a repugnância que causam-me os seus, meus próprios textos rebaixariam-se a indignidade ainda maior.
Thomas More, Calvino e Erasmo não desconheciam o uso do insulto e a ironia, e nisso abraçavam o espírito e a retórica do humanismo que os gerara. Lutero, no entanto, não se contentava com menos do que o sarcasmo. Muitas vezes corrosivo, muitas vezes violento, ocasionalmente grosseiro e chulo, Lutero gostava (como costumo fazer) de dar a impressão de ser duro consigo mesmo, mas era invariavelmente mais duro com os outros.
Eu poderia começar por virtualmente qualquer página sua, mas talvez seja mais instrutivo pensar na disputa entre Lutero e Erasmo de Roterdã sobre a questão do livre-arbítrio. Erasmo era avesso por princípio e por propensão a abordar teologia e doutrina de forma direta; porém, incomodado diante dos furores categóricos de Lutero sobre a soberania divina, publicou em setembro de 1524 a reflexão Diatribe sobre o livre-arbítrio (De libero arbitrio diatribe).
O que se seguiu não foi uma disputa de idéias, verdades ou ortodoxias, mas um conflito de mentalidades, uma peleja de retóricas.
Na Diatribe Erasmo não defende pessoalmente a idéia do livre-arbítrio. O holandês detestava a dissensão e intuía que todos os radicalismos eram arbitrários; numa palavra, era sofisticado demais para rebaixar-se à execração categórica de Lutero. O que ele faz é apresentar ambos os lados da argumentação de forma que julga suficientemente imparcial. Sua conclusão é que a Escritura e o bom senso dão evidência tanto do livre-arbítrio humano quanto de um rigoroso controle de Deus sobre as coisas – pelo que ninguém pode ser condenado por sustentar como verdade uma coisa ou outra.
Para Lutero, que não suportava meios-termos, a conclusão aberta de Erasmo era abominação. O que Erasmo tinha de cauteloso e conciliador, Lutero tinha de inflexível e opinioso. Apelava sem rodeios à autoridade e não tinha qualquer paciência para com quem abordava os dois lados da questão. Quem não estava com ele estava contra ele; quem não estava com Deus estava com o Diabo.
Em dezembro do ano seguinte, em resposta à Diatribe, Lutero deu ao mundo O arbítrio como escravo (De servo arbitrio), e o mundo não teve dúvidas sobre quem havia vencido a disputa. O livre-arbítrio encontrara o seu algoz.
Lutero encontrou na moderação de Erasmo o terreno perfeito para espojar-se em sua retórica de renitência. Erasmo era fraco, ele era forte; Erasmo era hesitante, ele era categórico. Para Lutero, essa diferença de tonalidade e de espírito dizia tudo sobre a verdade inenerente às convicões de ambos. Tudo que ele precisava fazer era deixar isso claro, e não era homem de meias medidas.
O que aprendi com os parágrafos que seguem (os primeiros da obra de Lutero), e que pode ser acrescentado às 38 maneiras de se vencer uma argumentação?
1. Transforme o que poderia ser encarado como uma desvantagem estratégica (neste caso, a demora de Lutero em responder as objeções de Erasmo) num argumento em favor da fraqueza do seu oponente.
2. Cometa elogios que não demorem a explicar-se como insultos.
3. Recorra à compaixão como máscara da superioridade.
Tendo em vista a natureza da controvérsia, devo reconhecer que a ressalva “seja por sorte, acidente ou destino” é toque especialmente inclemente e bem executado.
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Como demorei tanto a responder a sua Diatribe sobre o livre-arbítrio, meu venerável Erasmo, [. . .] alguns podem talvez ter se mostrado prontos a perguntar-se se [. . .] “então esse Macabeu, esse assertor inflexível, encontrou finalmente um antagonista digno, alguém contra quem não ousa abrir a sua boca.”
Não tenho como culpar esses homens, porque estou pronto eu mesmo a dar-lhe a mão à palmatória, como jamais fiz com homem algum. Admito não apenas o quanto você me excede em eloquência e genialidade; admito também que foi bem-sucedido em desarmar o meu espírito e minha inclinação em respondê-lo, tendo me deixado sem qualquer ânimo para a batalha. E isso você fez de duas formas: primeiro, pela sua arte de defender a sua causa do começo ao fim com tão admiráveis controle e moderação, que tornou impossível para mim ficar furioso com você; e, em segundo lugar, por ter, seja por sorte, acidente ou destino, conseguido não dizer coisa alguma sobre esse importante assunto que já não tenha sido dito antes.
Na verdade, você diz tão pouco de novidade em favor do livre-arbítrio, em relação ao que os sofistas já fizeram antes de você, que pareceu-me inteiramente desnecessário responder os argumentos que eu mesmo já refutei tantas vezes e que já foram pisoteados e reduzidos a átomos pelo invencível Lugares Comuns de Philip Melanchton. Na minha opinião essa obra merece ser não apenas imortalizada, mas canonizada. Tão mesquinha e sem valor pareceu-me a sua, comparada àquela, que enchi-me de sincera compaixão por você, por ter poluído sua dicção engenhosa e elegante com argumento tão indecoroso; indignei-me sobremaneira com a imundícia do seu assunto, por ser apresentado numa sorte de eloquência tão ricamente ornamentada. É como se a sujeira da casa ou do estábulo fosse carregada nos ombros de homens em vasos de ouro e prata.



