01 de Agosto de 2009

Há algo de terrível na autodeterminação

Auditado por   Paulo Brabo

 

Estocado em Manuscritos

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Há algo de terrível na autodeterminação, e as histórias existem para fornecer ferramentas que nos capacitem a enfrentar e nos conciliarmos com esse terror.

É vertigem da autodeterminação que levará Joãozinho e Maria à floresta, Teseu ao labirinto e Otelo ao quarto de Desdêmona. A autonomia é a causa de todos os problemas do protagonista, e apenas em alguns casos será capaz de apontar-lhe alguma saída. O que heróis vitoriosos e trágicos têm em comum é que, uma vez desencadeado o conflito, deverão em algum momento experimentar a morte, seja essa literal, figurada ou vivida vicariamente na morte de um antagonista.

Mesmo quando acontecer de sair em alguma medida vivo no final, o herói terá provado o sabor indelével da anulação e do abandono. Sobreviver à autonomia é uma transação dolorosa e cruenta, pelo que as narrativas – mesmo as mais ligeiras comédias – encontram invariavelmente um modo de ilustrar a separação, o desmembramento e a morte do protagonista. A dois passos do caldeirão Joãozinho estenderá para a bruxa o pé de galinha, e Sam estará sozinho na escuridão diante do hálito do Monstro e do vulto inerte de Frodo. A sombra de Teseu se misturará à do Minotauro em pelo menos um instante fatal.

Na maior parte das culturas os próprios relatos da criação representam de forma muito explícita os horrores da potência e da autonomia. Em muitas tradições antigas o universo e a humanidade são o resultado de assassinatos, abortos, desmembramentos, crânios partidos, estupros e traições por parte dos homens primais ou de deuses mais antigos do que a memória. Essas histórias associam a origem e a natureza mais essencial do mundo a tripas entornadas e sangue derramado, e qualquer ser humano deverá ser capaz de intuir que são baseadas em fatos reais.

O motivo dessa aspereza está em que a função primeira dos relatos da criação não é explicar como o mundo veio a existir, mas ilustrar que todo ato criativo é um ato de violência.

Nasce um homem

  1. Era uma vez
  2. Adão era
  3. A teoria literária
  4. Para mim
  5. Se havia improvável graça
  6. O conflito que anima uma história
  7. A primeira blasfêmia
  8. Eu sentia ser minha obrigação
  9. Como demonstrado exemplarmente por Jesus
  10. De todos os detalhes
  11. A distinção mais antiga
  12. O homem em pé no centro
  13. Quando levantei-me do lugar
  14. Ele tinha o mundo natural aos seus pés
  15. Dois ou três personagens não bastam
  16. A proibição extrai seu poder
  17. Para caracterizar uma tragédia
  18. Pisei no andar térreo
  19. Você pode comer
  20. Um professor errante depara-se com um homem cego
  21. Nenhum outro elemento da trama
  22. Toda história sobre transgressão
  23. De todos os sonhos de que me recordo
  24. Não devemos deixar
  25. A chave, obviamente
  26. É curioso notar
  27. Para começar
  28. Neste ponto
  29. Com a entrada da serpente
  30. Dos enigmas da serpente
  31. Porém quando percebo
  32. A serpente é astuta
  33. A narrativa é límpida
  34. A serpente permanece um enigma
  35. Quando olho tempo suficiente
  36. O silêncio da história
  37. Outro resultado
  38. Individuação
  39. É o momento decisivo
  40. A ausência divina
  41. É uma pista falsa
  42. Não se trata
  43. Uma donzela encontra na floresta uma perigosa serpente
  44. A hora é agora
  45. Porque – e ignoro quantas vezes terei de voltar
  46. Alcançar a individuação
  47. Eva recua
  48. Deus sabe
  49. O motor do conflito
  50. A grande revelação
  51. Transgredir
  52. A obra da serpente
  53. Onde está a maldade
  54. O que me faz lembrar
  55. A transfiguração do conflito
  56. Que são a imitação e o jogo de espelhos
  57. O que esta história existe para mostrar
  58. É por isso
  59. É o último momento
  60. Quando volto à recordação
  61. O efeito imediato
  62. Como numa comédia de erros
  63. Minha primeira transgressão
  64. É só do lado de cá
  65. A esse princípio
  66. Não nos deverá
  67. A coisa boa
  68. Se o conflito é a graça
  69. A transgressão original
  70. Transgredir é escolher
  71. No espaço recém-aberto da minha transgressão
  72. Em si mesmo nada há de terrível
  73. O conceito teológico
  74. Bastaria a morte
  75. A ambivalência do poder
  76. A maldição do pó
  77. Há algo de terrível na autodeterminação
  78. Minha disciplina pessoal mais antiga
  79. Essa crueza
  80. Não é completa
  81. Essas histórias
  82. Na noite de ontem para hoje
  83. O outro símbolo universal
  84. A serpente é mentirosa
  85. O primeiro desdobramento
  86. Foi mais ou menos nessa época
  87. Todas as lendas
  88. Minha convicção


Inquisição


Arquivos


Versões digitais dos manuscritos da Biblioteca do Monastério de São Brabo, nas Índias Ocidentais.
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