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Há algo de terrível na autodeterminação, e as histórias existem para fornecer ferramentas que nos capacitem a enfrentar e nos conciliarmos com esse terror.
É vertigem da autodeterminação que levará Joãozinho e Maria à floresta, Teseu ao labirinto e Otelo ao quarto de Desdêmona. A autonomia é a causa de todos os problemas do protagonista, e apenas em alguns casos será capaz de apontar-lhe alguma saída. O que heróis vitoriosos e trágicos têm em comum é que, uma vez desencadeado o conflito, deverão em algum momento experimentar a morte, seja essa literal, figurada ou vivida vicariamente na morte de um antagonista.
Mesmo quando acontecer de sair em alguma medida vivo no final, o herói terá provado o sabor indelével da anulação e do abandono. Sobreviver à autonomia é uma transação dolorosa e cruenta, pelo que as narrativas – mesmo as mais ligeiras comédias – encontram invariavelmente um modo de ilustrar a separação, o desmembramento e a morte do protagonista. A dois passos do caldeirão Joãozinho estenderá para a bruxa o pé de galinha, e Sam estará sozinho na escuridão diante do hálito do Monstro e do vulto inerte de Frodo. A sombra de Teseu se misturará à do Minotauro em pelo menos um instante fatal.
Na maior parte das culturas os próprios relatos da criação representam de forma muito explícita os horrores da potência e da autonomia. Em muitas tradições antigas o universo e a humanidade são o resultado de assassinatos, abortos, desmembramentos, crânios partidos, estupros e traições por parte dos homens primais ou de deuses mais antigos do que a memória. Essas histórias associam a origem e a natureza mais essencial do mundo a tripas entornadas e sangue derramado, e qualquer ser humano deverá ser capaz de intuir que são baseadas em fatos reais.
O motivo dessa aspereza está em que a função primeira dos relatos da criação não é explicar como o mundo veio a existir, mas ilustrar que todo ato criativo é um ato de violência.

Nasce um homem
- Era uma vez
- Adão era
- A teoria literária
- Para mim
- Se havia improvável graça
- O conflito que anima uma história
- A primeira blasfêmia
- Eu sentia ser minha obrigação
- Como demonstrado exemplarmente por Jesus
- De todos os detalhes
- A distinção mais antiga
- O homem em pé no centro
- Quando levantei-me do lugar
- Ele tinha o mundo natural aos seus pés
- Dois ou três personagens não bastam
- A proibição extrai seu poder
- Para caracterizar uma tragédia
- Pisei no andar térreo
- Você pode comer
- Um professor errante depara-se com um homem cego
- Nenhum outro elemento da trama
- Toda história sobre transgressão
- De todos os sonhos de que me recordo
- Não devemos deixar
- A chave, obviamente
- É curioso notar
- Para começar
- Neste ponto
- Com a entrada da serpente
- Dos enigmas da serpente
- Porém quando percebo
- A serpente é astuta
- A narrativa é límpida
- A serpente permanece um enigma
- Quando olho tempo suficiente
- O silêncio da história
- Outro resultado
- Individuação
- É o momento decisivo
- A ausência divina
- É uma pista falsa
- Não se trata
- Uma donzela encontra na floresta uma perigosa serpente
- A hora é agora
- Porque – e ignoro quantas vezes terei de voltar
- Alcançar a individuação
- Eva recua
- Deus sabe
- O motor do conflito
- A grande revelação
- Transgredir
- A obra da serpente
- Onde está a maldade
- O que me faz lembrar
- A transfiguração do conflito
- Que são a imitação e o jogo de espelhos
- O que esta história existe para mostrar
- É por isso
- É o último momento
- Quando volto à recordação
- O efeito imediato
- Como numa comédia de erros
- Minha primeira transgressão
- É só do lado de cá
- A esse princípio
- Não nos deverá
- A coisa boa
- Se o conflito é a graça
- A transgressão original
- Transgredir é escolher
- No espaço recém-aberto da minha transgressão
- Em si mesmo nada há de terrível
- O conceito teológico
- Bastaria a morte
- A ambivalência do poder
- A maldição do pó
- Há algo de terrível na autodeterminação
- Minha disciplina pessoal mais antiga
- Essa crueza
- Não é completa
- Essas histórias
- Na noite de ontem para hoje
- O outro símbolo universal
- A serpente é mentirosa
- O primeiro desdobramento
- Foi mais ou menos nessa época
- Todas as lendas
- Minha convicção




