20 de Maio de 2009

Formato mínimo

Incorporado por   Paulo Brabo

 

Estocado em Manuscritos

Estão todos devidamente subjugados quando Pedro alça diante da multidão sua portentosa conclusão (“Não tenham dúvida de que, esse mesmo Jesus, Deus o fez Senhor e Cristo”), mas a minuciosa coreografia deste que é o mais portentoso dos momentos está longe de terminar.

Porque agora há dois grupos antagonistas ocupando o centro do palco, suspensos no ar como bailarinos que aguardam um acorde de resolução, todos iluminados por uma luz que a uns poucos absolve e aos demais condena.

Era este o momento que aguardaram por eras todos os anjos, todos os profetas e as galáxias mais distantes. A reviravolta estava escancarada, a máscara divina caíra, e a apoteose revelava que o menor era na verdade, escandalosamente, o maior; o último era na verdade o primeiro; o descartado marginal era na verdade o aguardado messias; o despretensioso Filho do Homem, o vertiginoso Senhor. O articulado Acusador quedava inerte pela primeira vez na história, e todos se rendiam ao brilho irresistível da silenciosa Vítima.

Dos dois lados congelados da cena, separados pela muralha da boa nova, o maior grupo não é dos que transbordam do espírito daquele que não está ali e ao mesmo tempo nunca os deixou. Ao contrário, os mais numerosos e mais paralisados são aqueles que Pedro afirma muito sem rodeios serem responsáveis pela sua rejeição e execução: “esse Jesus que vocês mataram.”

Esse mesmo Jesus, Deus o fez Senhor e Cristo.

Então, inteiramente esmagados por esse irresistível descerramento da realidade, os romeiros do Pentecostes ousam balbuciar “a Pedro e aos demais apóstolos”“E agora, irmãos? O que devemos fazer?” a terrível pergunta, a pergunta que gerações de cristandades de todas as tradições tentaram responder por eles.

“E agora, o que devo fazer?”, embora não tenha sido feita a nós, é a pergunta que todo cristão espera merecer de um ouvinte compungido depois da sua pregação. É a pergunta de ouro, que escrevemos mil manuais para responder. É a pergunta que cada ramo da herança cristã responderá de modo diverso, tendo em comum apenas a prontidão em refutar os que ousarem apresentar outra resposta.

E agora, no palco diante de nós, os protagonistas ocupam-se precisamente dela. O que deve fazer alguém que se depara com a singularidade de Jesus? O que deve fazer quem encontra a notícia ao mesmo tempo boa e terrível embutida na mensagem do cristianismo?

Por me saberem cristão especialmente digno de imitação, e não ignorando minha proverbial desconfiança para com a igreja institucional (estando nisso, evidentemente, apenas metade certos), algumas pessoas de vez em quando me escrevem perguntando a respeito de um “formato mínimo” da experiência cristã. Diagnosticaram alguma medida de dependência da igreja e gostariam de arejar-se dela, mas sentem-se absolutamente constrangidos pelo conforto de suas exigências. Não há no caminho do seguidor de Jesus, perguntam-me esses, alguns ritos e procedimentos absolutamente inescapáveis, coisas como o batismo e a ceia/eucaristia, sem os quais estaríamos sendo menos do que seguidores daquele que os prescreveu? Será possível em alguma medida abraçar o “cristianismo sem religião” augurado por Bonhoeffer? O que é minimamente necessário para caracterizar a vida cristã?

O que devemos fazer?

Embora não seja a primeira, esta é a pergunta mais exemplar do livro de Atos, obra de resto repleta de Perguntas e Respostas Exemplares. Essa mesma questão estilizada será articulada em diferentes variações, por diferentes públicos, ao longo do texto; as respostas, embora não sempre evasivas, serão sempre um pouco o que não esperamos que sejam.

Porque, dos objetivos que não desconhecemos do livro de Atos, este me parece ser o maior: demarcar diante do perplexo leitor o formato mínimo da experiência cristã para públicos de diversas culturas, gente munida de diferentes ferramentas cognitivas e, portanto, diferentes expectativas e visões de mundo. Quando a mensagem escoar além de Jerusalém, transbordar por Samaria e derramar-se irresistivelmente dos confins da terra, o que representará na extremidade oposta ser seguidor de Jesus? O que representará ter sido tocado por ele?

É em parte o que os peregrinos de Pentecostes querem agora saber. E o que Pedro diz é “arrependam-se, e cada um de vocês seja batizado no nome de Jesus Cristo para remissão dos seus pecados, e receberão o dom do Espírito Santo; porque a promessa pertence a vocês, a seus filhos e a todos os que estão longe: a todos que o Senhor nosso Deus chamar.”

O que quer que ele estivesse querendo dizer com isso.



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Versões digitais dos manuscritos da Biblioteca do Monastério de São Brabo, nas Índias Ocidentais.
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