Estão todos devidamente subjugados quando Pedro alça diante da multidão sua portentosa conclusão (“Não tenham dúvida de que, esse mesmo Jesus, Deus o fez Senhor e Cristo”), mas a minuciosa coreografia deste que é o mais portentoso dos momentos está longe de terminar.
Porque agora há dois grupos antagonistas ocupando o centro do palco, suspensos no ar como bailarinos que aguardam um acorde de resolução, todos iluminados por uma luz que a uns poucos absolve e aos demais condena.
Era este o momento que aguardaram por eras todos os anjos, todos os profetas e as galáxias mais distantes. A reviravolta estava escancarada, a máscara divina caíra, e a apoteose revelava que o menor era na verdade, escandalosamente, o maior; o último era na verdade o primeiro; o descartado marginal era na verdade o aguardado messias; o despretensioso Filho do Homem, o vertiginoso Senhor. O articulado Acusador quedava inerte pela primeira vez na história, e todos se rendiam ao brilho irresistível da silenciosa Vítima.
Dos dois lados congelados da cena, separados pela muralha da boa nova, o maior grupo não é dos que transbordam do espírito daquele que não está ali e ao mesmo tempo nunca os deixou. Ao contrário, os mais numerosos e mais paralisados são aqueles que Pedro afirma muito sem rodeios serem responsáveis pela sua rejeição e execução: “esse Jesus que vocês mataram.”
Esse mesmo Jesus, Deus o fez Senhor e Cristo.
Então, inteiramente esmagados por esse irresistível descerramento da realidade, os romeiros do Pentecostes ousam balbuciar “a Pedro e aos demais apóstolos”“E agora, irmãos? O que devemos fazer?” a terrível pergunta, a pergunta que gerações de cristandades de todas as tradições tentaram responder por eles.
“E agora, o que devo fazer?”, embora não tenha sido feita a nós, é a pergunta que todo cristão espera merecer de um ouvinte compungido depois da sua pregação. É a pergunta de ouro, que escrevemos mil manuais para responder. É a pergunta que cada ramo da herança cristã responderá de modo diverso, tendo em comum apenas a prontidão em refutar os que ousarem apresentar outra resposta.
E agora, no palco diante de nós, os protagonistas ocupam-se precisamente dela. O que deve fazer alguém que se depara com a singularidade de Jesus? O que deve fazer quem encontra a notícia ao mesmo tempo boa e terrível embutida na mensagem do cristianismo?
Por me saberem cristão especialmente digno de imitação, e não ignorando minha proverbial desconfiança para com a igreja institucional (estando nisso, evidentemente, apenas metade certos), algumas pessoas de vez em quando me escrevem perguntando a respeito de um “formato mínimo” da experiência cristã. Diagnosticaram alguma medida de dependência da igreja e gostariam de arejar-se dela, mas sentem-se absolutamente constrangidos pelo conforto de suas exigências. Não há no caminho do seguidor de Jesus, perguntam-me esses, alguns ritos e procedimentos absolutamente inescapáveis, coisas como o batismo e a ceia/eucaristia, sem os quais estaríamos sendo menos do que seguidores daquele que os prescreveu? Será possível em alguma medida abraçar o “cristianismo sem religião” augurado por Bonhoeffer? O que é minimamente necessário para caracterizar a vida cristã?
O que devemos fazer?
Embora não seja a primeira, esta é a pergunta mais exemplar do livro de Atos, obra de resto repleta de Perguntas e Respostas Exemplares. Essa mesma questão estilizada será articulada em diferentes variações, por diferentes públicos, ao longo do texto; as respostas, embora não sempre evasivas, serão sempre um pouco o que não esperamos que sejam.
Porque, dos objetivos que não desconhecemos do livro de Atos, este me parece ser o maior: demarcar diante do perplexo leitor o formato mínimo da experiência cristã para públicos de diversas culturas, gente munida de diferentes ferramentas cognitivas e, portanto, diferentes expectativas e visões de mundo. Quando a mensagem escoar além de Jerusalém, transbordar por Samaria e derramar-se irresistivelmente dos confins da terra, o que representará na extremidade oposta ser seguidor de Jesus? O que representará ter sido tocado por ele?
É em parte o que os peregrinos de Pentecostes querem agora saber. E o que Pedro diz é “arrependam-se, e cada um de vocês seja batizado no nome de Jesus Cristo para remissão dos seus pecados, e receberão o dom do Espírito Santo; porque a promessa pertence a vocês, a seus filhos e a todos os que estão longe: a todos que o Senhor nosso Deus chamar.”
O que quer que ele estivesse querendo dizer com isso.
Rastros dos apóstolos
- Como perder Jesus de vista no livro de Atos
- Ascensão sem trégua das testemunhas
- A escassez seletiva: selecionar é interpretar
- O Jesus terreno e o Cristo extraterrestre
- Com as mulheres
- Como reconhecer, entre dois discípulos, um apóstolo
- A plenitude dos tempos
- A verdadeira mensagem
- A lucidez profética
- A vexação de Satanás
- A volta ao que poderia ter sido
- A fermentação da morte
- A incubação do espírito
- Formato mínimo
- O que se diz é o que não se diz
- A linhagem do batismo
- As transgressões do céu
- Um mundo além do perdão
- Breve história do arrependimento
- Arrepender-se é mudar o mundo
- As possibilidades do futuro
- Pecar é omitir-se
- O escândalo da hospitalidade
- A invenção do não-condicionado
- O fim do mundo
- Os recursos necessários
- O que havia sido usurpado
- O fim de todos os governos
- A mesa universal e as redentoras transgressões
- Os discursos ausentes: céu e inferno
- Os discursos ausentes: Jesus morreu em seu lugar [1]
- Os discursos ausentes: Jesus morreu em seu lugar [2]
- Os discursos ausentes: Jesus vai voltar
- Os discursos ausentes: prosperidade
- Os discursos ausentes: Jesus te ama
- A Palavra presente
- A disciplina da inclusão
- O acaso e o herói
- A divina soltura
- A graça dos vasos comunicantes
- A invenção da gentileza




