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Essa crueza parece estar totalmente ausente do relato da criação em Gênesis. Não se encontram aqui as mortes, decapitações, violência sexual e derramamento de sangue que recebem destaque nos mitos originais de muitas culturas. A criação em Gênesis 1 e 2, em comparação, aparenta ser um processo disciplinado e austero, orientado por uma rigorosa assepsia.
A violência criativa persiste, no entanto, mesmo nos recintos sanitizados de Gênesis. Se não a vemos é porque em parte a agressão reside sob a superfície; em parte porque aprendemos a fechar os olhos para ela.
Em Gênesis a iniciativa divina da criação é regida por duas atitudes que se alternam, a criação e a organização – ambas arbitrárias e, cada uma a seu modo, inerentemente violentas. Extrair existência do que não existe é uma agressão contra a suficiência do nada e de Deus; organizar o que foi criado em categorias é uma agressão contra a legitimidade do caos pré-existente e da relação divina com ele.
Em especial, a narrativa bíblica investe na noção de que para criar é preciso promover sem pausa a separação. Qualquer que sejam os termos originais ou as escolhas da tradução, a criação bíblica é caracterizado por verbos inerentemente agressivos: dividir, fender, separar, extrair – sejam seus objetos terra ou mar, luz ou trevas, céu ou terra, dia ou noite, homem ou mulher.
A criação da mulher talvez seja o melhor exemplo da tentativa da narrativa de minimizar o caráter agressivo da criação, mas o fato do homem estar anestesiado durante a operação não altera a natureza violenta da cirurgia.
A grande agressão, no entanto, é reservada para o modo como Adão foi arrancado de modo não natural da terra com que foi moldado. Estrelas, peixes e pássaros surgiram reluzindo do éter e da palavra divina, mas o homem foi “tomado”, praticamente subtraído, do solo pela mão divina. Quando lembra que essa sua estátua deverá voltar fatalmente ao pó – porque não passa de pó – Deus reduz a vida humana a um terrível débito que a criatura terá de pagar contra a violência do criador, sua infração de ter arrancado do solo uma ilegítima porção.
Os reflexos dessas transgressões divinas aparecem claramente no modo como Deus distribui consequências para a transgressão humana. No veredito de Deus a criação e a geração de vida deverão permanecer para o ser humano processos tão violentos quanto foram para ele. A fim de extrair fertilidade do solo, o homem deverá derramar do seu suor e agredir perpetuamente o solo com o arado; a fim de dar a luz e presentear o mundo com a vida, a mulher terá de sofrer e aceitar agressão contra si mesma.
Também para o autor de Gênesis todo ato criativo é um ato de violência, e há algo de terrível na autodeterminação. Haverá algum modo legítimo de se exercer o poder? O conflito que resta, e do qual se ocuparão todas as páginas restantes da Bíblia, está em se, e de que modo, a autonomia e a potência podem ser administradas.

Nasce um homem
- Era uma vez
- Adão era
- A teoria literária
- Para mim
- Se havia improvável graça
- O conflito que anima uma história
- A primeira blasfêmia
- Eu sentia ser minha obrigação
- Como demonstrado exemplarmente por Jesus
- De todos os detalhes
- A distinção mais antiga
- O homem em pé no centro
- Quando levantei-me do lugar
- Ele tinha o mundo natural aos seus pés
- Dois ou três personagens não bastam
- A proibição extrai seu poder
- Para caracterizar uma tragédia
- Pisei no andar térreo
- Você pode comer
- Um professor errante depara-se com um homem cego
- Nenhum outro elemento da trama
- Toda história sobre transgressão
- De todos os sonhos de que me recordo
- Não devemos deixar
- A chave, obviamente
- É curioso notar
- Para começar
- Neste ponto
- Com a entrada da serpente
- Dos enigmas da serpente
- Porém quando percebo
- A serpente é astuta
- A narrativa é límpida
- A serpente permanece um enigma
- Quando olho tempo suficiente
- O silêncio da história
- Outro resultado
- Individuação
- É o momento decisivo
- A ausência divina
- É uma pista falsa
- Não se trata
- Uma donzela encontra na floresta uma perigosa serpente
- A hora é agora
- Porque – e ignoro quantas vezes terei de voltar
- Alcançar a individuação
- Eva recua
- Deus sabe
- O motor do conflito
- A grande revelação
- Transgredir
- A obra da serpente
- Onde está a maldade
- O que me faz lembrar
- A transfiguração do conflito
- Que são a imitação e o jogo de espelhos
- O que esta história existe para mostrar
- É por isso
- É o último momento
- Quando volto à recordação
- O efeito imediato
- Como numa comédia de erros
- Minha primeira transgressão
- É só do lado de cá
- A esse princípio
- Não nos deverá
- A coisa boa
- Se o conflito é a graça
- A transgressão original
- Transgredir é escolher
- No espaço recém-aberto da minha transgressão
- Em si mesmo nada há de terrível
- O conceito teológico
- Bastaria a morte
- A ambivalência do poder
- A maldição do pó
- Há algo de terrível na autodeterminação
- Minha disciplina pessoal mais antiga
- Essa crueza
- Não é completa
- Essas histórias
- Na noite de ontem para hoje
- O outro símbolo universal
- A serpente é mentirosa
- O primeiro desdobramento
- Foi mais ou menos nessa época
- Todas as lendas
- Minha convicção




