A condição moral do povo [brasileiro] até a chegada do Príncipe Regente de Portugal era deploravelmente corrupta e degradada, e suas circunstâncias políticas destituídas e desfavoráveis. Tudo que é sublime na natureza inanimada, em contraste com tudo que é repugnante na natureza humana, estava abrangido no aspecto e no caráter desta porção do Novo Mundo.
“Não retinham nem ao menos aquela sombra da virtude, a hipocrisia.”
“As cidades pelas quais Abraão intercedeu, Chipre, Cartago, Creta e Esparta, somavam-se”, afirma um viajante contemporâneo, “no período em que comecei a conhecer o país, na formação da ordem social do Rio de Janeiro”. Tampouco os costumes da capital ultrapassavam muito em torpeza os das demais cidades. “A devassidão”, acrescenta ele, “não era ali redimida por nenhuma qualidade nacional de natureza sólida, ou sequer pavonesca. De modo geral, não era tido como necessário reter nem ao menos aquela sombra da virtude, a hipocrisia. Os vícios que em outros lugares os homens procuram diligentemente ocultar eram vistos avançando a passos largos de um modo tão público e desavergonhado que satisfaria o anseio do maior dos devassos. Não eram apenas os negros e o populacho a contemplá-los com apatia; o sentimento e o gosto moral dos de estirpe mais elevada partilhavam de tal modo da mácula comum que, quando mencionávamos com horror o mais condenável dos crimes, o qual éramos obrigados a testemunhar, eles frequentemente apresentavam alguma coisa em sua defesa, além de parecerem muitos surpresos diante de nosso modo de pensar, como se tivéssemos proposto uma nova religião ou introduzido nas antigas algum escrupuloso capricho. A vida de um cidadão comum não valia dois dólares; por menos do que isso qualquer covarde podia contratar um valentão para eliminá-lo”.
A mais profunda ignorância e a mais extrema falta de higiene completavam o quadro. As cerimônias da religião católica eram enquanto isso pontualmente celebradas e, como nas cidades européias, à superstição mesclava-se a mais flagrante licenciosidade. Os monges, “corja ignorante e depravada”, ao mesmo tempo preguiçosos e libertinos, abarrotavam cada rua.
Tal era e, até certo ponto ainda é, o Brasil – terra de maravilhas, cujos rios fluem sobre leitos de ouro, onde as rochas brilham com topázios e a areia cintila com diamantes.

The Modern Traveller, volume 1 – Brazil and Buenos Aires,
Londres, James Duncan, 1825

