10 de Julho de 2009

Bastaria a morte

Por   Paulo Brabo

 

Estocado em Manuscritos

74

Bastaria a morte e tudo estaria resolvido, mas Deus escolhe uma solução mais complicada e exigente. Na expulsão do Paraíso o Protagonista ao mesmo tempo adia a resolução do conflito e o reconhece, porém permanece impulsionado por ele.

O protagonista não precisava de nada, mas agora precisa conviver com o conflito. A fim de ao mesmo tempo proteger-se dele e mantê-lo heroicamente diante dos seus olhos, Deus transforma seu conflito numa instituição.

A expulsão significa que Deus não quer mais mostrar a sua glória, porque a transgressão humana, reflexo da divina, deixou inteiramente manifestas as complicações da autonomia. Em regime paralelo, o homem terá de ocultar sua própria glória, até que encontre um modo de administrar a sua autonomia.

O problema com o poder é que ele tem duas faces; uma é ensolarada e generosa e boa, outra é mesquinha e cruel e perversa. Diante da abundância da escolha, Deus escolhe algo criativo e bom; diante da abundância da escolha, o Homem escolhe algo injusto e prejudicial. Porém o nó está em que a liberdade humana permanece fruto rigoroso da liberdade divina: no devido tempo, em três parágrafos ou trinta anos, o poder acaba gerando a morte e a esterilidade. Isso deve-se menos às escolhas que fazemos do que à natureza corruptora do poder em si; é por isso que a glória deve ser escondida de imediato, em regime de absoluta emergência.

Na raiz mais essencial desta história, então, está o pressuposto de que toda manifestação de poder, todo exercício de autonomia, por mais bem intencionado que seja e mesmo que parta do mais iluminado dos empreendedores, envolve perigos terríveis e aparentemente incontornáveis. O poder torna-se motivo de embaraço tanto para quem faz escolhas generosas quanto para quem as faz perversas.

O coração do problema não está na diferença entre escolhas, mas na natureza ambivalente do poder.

Nasce um homem

  1. Era uma vez
  2. Adão era
  3. A teoria literária
  4. Para mim
  5. Se havia improvável graça
  6. O conflito que anima uma história
  7. A primeira blasfêmia
  8. Eu sentia ser minha obrigação
  9. Como demonstrado exemplarmente por Jesus
  10. De todos os detalhes
  11. A distinção mais antiga
  12. O homem em pé no centro
  13. Quando levantei-me do lugar
  14. Ele tinha o mundo natural aos seus pés
  15. Dois ou três personagens não bastam
  16. A proibição extrai seu poder
  17. Para caracterizar uma tragédia
  18. Pisei no andar térreo
  19. Você pode comer
  20. Um professor errante depara-se com um homem cego
  21. Nenhum outro elemento da trama
  22. Toda história sobre transgressão
  23. De todos os sonhos de que me recordo
  24. Não devemos deixar
  25. A chave, obviamente
  26. É curioso notar
  27. Para começar
  28. Neste ponto
  29. Com a entrada da serpente
  30. Dos enigmas da serpente
  31. Porém quando percebo
  32. A serpente é astuta
  33. A narrativa é límpida
  34. A serpente permanece um enigma
  35. Quando olho tempo suficiente
  36. O silêncio da história
  37. Outro resultado
  38. Individuação
  39. É o momento decisivo
  40. A ausência divina
  41. É uma pista falsa
  42. Não se trata
  43. Uma donzela encontra na floresta uma perigosa serpente
  44. A hora é agora
  45. Porque – e ignoro quantas vezes terei de voltar
  46. Alcançar a individuação
  47. Eva recua
  48. Deus sabe
  49. O motor do conflito
  50. A grande revelação
  51. Transgredir
  52. A obra da serpente
  53. Onde está a maldade
  54. O que me faz lembrar
  55. A transfiguração do conflito
  56. Que são a imitação e o jogo de espelhos
  57. O que esta história existe para mostrar
  58. É por isso
  59. É o último momento
  60. Quando volto à recordação
  61. O efeito imediato
  62. Como numa comédia de erros
  63. Minha primeira transgressão
  64. É só do lado de cá
  65. A esse princípio
  66. Não nos deverá
  67. A coisa boa
  68. Se o conflito é a graça
  69. A transgressão original
  70. Transgredir é escolher
  71. No espaço recém-aberto da minha transgressão
  72. Em si mesmo nada há de terrível
  73. O conceito teológico
  74. Bastaria a morte
  75. A ambivalência do poder
  76. A maldição do pó
  77. Há algo de terrível na autodeterminação
  78. Minha disciplina pessoal mais antiga
  79. Essa crueza
  80. Não é completa
  81. Essas histórias
  82. Na noite de ontem para hoje
  83. O outro símbolo universal
  84. A serpente é mentirosa
  85. O primeiro desdobramento
  86. Foi mais ou menos nessa época
  87. Todas as lendas
  88. Minha convicção

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Versões digitais dos manuscritos da Biblioteca do Monastério de São Brabo, nas Índias Ocidentais.
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