À primeira vista a segunda porção do discurso de Pedro parece ser essencialmente apologética — no sentido de tentar argumentar de todas as maneiras em favor da supremacia de Cristo. O próprio Pedro, no entanto, recusa-se a endossar a nossa crença de que seus argumentos são mais importantes do que suas conclusões. Quando analisado a partir de suas próprias ênfases, esta parte do discurso demonstra ser perfeita ressonância e desconcertante complemento da primeira.
No que diz respeito à sua defesa, Pedro faz duas coisas: primeiro, traz à lembrança da multidão a pessoa extraordinária Jesus foi enquanto viveu (“homem aprovado através dos milagres, prodígios e sinais miraculosos que Deus realizou entre vocês por intermédio dele”). Segundo, e de forma mais extensa, argumenta que a ressurreição de Jesus (“da qual todos nós somos testemunhas”) é cumprimento de uma profecia que Davi (de quem Jesus era descendente) teria deixado mais ou menos oculta (até agora) no texto de seus salmos.
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– Homens de Israel, ouçam o que eu estou dizendo: Jesus de Nazaré, como vocês mesmo sabem, foi um homem aprovado por Deus diante de vocês, através dos milagres, prodígios e sinais miraculosos que Deus realizou entre vocês por intermédio dele. Esse Jesus, depois de ter sido entregue segundo o plano determinado e com o conhecimento prévio de Deus, vocês prenderam, crucificaram pelas mãos de homens corrompidos, e mataram. Mas Deus o ressuscitou, livrando-o das dores da morte, porque não era possível que ele fosse retido por ela. Porque é a respeito dele que Davi está falando quando diz: “Eu via o Senhor sempre diante de mim: ele está à minha direita, para que nada possa me abalar. Por isso o meu coração está feliz e a minha língua canta de alegria, e não apenas isso: a minha carne/corpo físico também irá repousar com esperança. Porque o senhor não deixará a minha vida na sepultura, nem permitirá que o seu escolhido sofra decomposição. O senhor me fez conhecer os caminhos da vida, e com a sua presença me encherá de alegria”. Homens irmãos, posso dizer-lhes sem constrangimento acerca do patriarca Davi que ele morreu, foi sepultado e sua sepultura está conosco até o dia de hoje. Mas Davi era profeta e sabia que Deus havia lhe jurado solenemente que da sua descendência, no que diz respeito à carne, faria surgir o Messias para ocupar o seu trono. Tendo visto de antemão, Davi estava falando da ressurreição do Messias quando disse que a sua vida não seria deixada na sepultura, e que sua carne não sofreria decomposição. A esse Jesus Deus ressuscitou, do que todos nós somos testemunhas. De modo que, elevado à posição de honra à direita de Deus, e tendo recebido do Pai o Espírito Santo prometido, ele derramou isso que vocês agora estão vendo e ouvindo. Porque Davi não subiu ao céu, mas ele diz: “O Senhor disse ao meu Senhor: ’sente-se à minha direita, até que eu tenha feito dos seus inimigos um estrado para os seus pés’.” Saiba então com toda a certeza, povo todo de Israel, que a esse Jesus que vocês crucificaram Deus o fez Senhor e Messias. Atos 2:22-36 |
De especial interesse para nós que buscamos traços do Jesus dos evangelhos no rastro dos apóstolos está em que, falando assim, Pedro parece estar sugerindo que a faceta mais digna de admiração do ministério de Jesus foram seus milagres — e não, por exemplo, seu caráter, seu ensino e sua originalidade. Essa ênfase soará sem qualquer dúvida estranha a nossos ouvidos sofisticados, a nós que sabemos pelos evangelhos que Jesus concedia importância quando muito secundária a seus próprios milagres, e tinha por preferência evitá-los ou mantê-los em segredo. Por que Pedro, que conheceu de perto a singularidade mais essencial do homem que está defendendo, imprimiria importância mais do que transversal aos milagres e prodígios que o perseguiram?
Para entender essa contradição é preciso despir o discurso de Pedro de sua veste apologética, de modo a encontrar a pérola que cintila por trás dos argumentos. A elaborada argumentação (“quando Davi disse isso, falava na verdade disso, como fica comprovado através de etc”) pode ser com segurança ignorada, porque sua função é meramente cumulativa e seu caráter midráshico, quase estilizado. O fato é que os ouvintes do discurso (bem como nós mesmos) não precisavam acreditar na consistência dos argumentos para serem impactados pela sua atordoante conclusão.
A chave do texto, a indicação da sua verdadeira ênfase, encontra-se nas bordas. A formidável revelação que Pedro quer apresentar está encapsulada na dupla referência “vocês mataram” (v.23) e “vocês crucificaram”(v. 36).
Ao contrário do que possa parecer, a intenção de Pedro com essas qualificações não é fazer com que seu público se sinta culpado. Sua intenção é fazer com que seus olhos se abram para o mecanismo ao qual René Girard dá o nome de vitimização. Pedro quer que seus ouvintes sejam capazes de reconhecer que, na ânsia de aplacar as tensões que se haviam despertado na sociedade durante e através do ministério de Jesus, tinham acusado, condenado e eliminado uma vítima inocente.
Como observa Girard, o mecanismo de encontrar e eliminar uma vítima inocente e unânime — um bode expiatório — na tentativa de aplacar as tensões de uma comunidade é tão antigo quanto a própria humanidade. O que o Novo Testamento faz de modo espetacular é denunciar com clareza tanto os mecanismos desse método quanto a perversidade dessa solução. Ao contrário do que normalmente acontece quando o mecanismo de vitimização é acionado numa sociedade, na Bíblia (e em especial no Novo Testamento) as vítimas não são convenientemente silenciadas pela morte. O sangue de Abel clama por justiça do seio da terra, e a mão e a voz de Jesus — efetivamente seu espírito — sobem do túmulo para dar testemunho da inocência de todas as vítimas.
É por isso que os argumentos de Pedro enfatizam, logo de início, a inocência de Jesus. É por isso que ele deve lembrar que Jesus demonstrara sem qualquer dúvida ser “aprovado por Deus” através de seus milagres. O que está sendo denunciado aqui não é a culpa individual, mas a perversidade do mecanismo de vitimização, a formidável cegueira coletiva que leva uma multidão a eliminar uma vítima que todos sabem inocente e não tem qualquer relação com os crimes de que está sendo acusada. Este mecanismo, propõe Girard, é a ferramenta de Satanás e é o próprio Satanás — cujo nome quer dizer, significativamente, “acusador”.
A surpresa que Pedro reserva para o final está em que, graças a Jesus, nada mais será o que era. As vítimas nunca mais serão eliminadas impunemente e a humanidade não terá mais como ceder ao mecanismo de vitimização coletiva sem saber o que está fazendo, porque em Jesus Deus denunciou Satanás e fez dele um estrado para os seus pés. O espetacular na vida e na obra de Jesus está em que a vítima foi eliminada mas o próprio Deus interviu de modo a comprovar sem equívoco a sua inocência. “O Jesus que vocês mataram Deus o fez Senhor e Messias” — e nisto está o mistério e a reviravolta diante da qual daqui a um minuto estarão se dobrando os ouvintes deste discurso.
A vítima, revela Pedro, é o próprio Deus.
Em Jesus, Deus se coloca do lado das vítimas. Em Jesus, a vítima é o Escolhido, o Ungido, o Messias. Em Jesus, Deus fala através das vítimas: uma vez que assume o lugar de honra à direita de Deus, a Vítima derrama “isso que vocês estão agora vendo e ouvindo”, isto é, seu Espírito, isto é, Deus falando através de mulheres de segunda classe e pescadores ignorantes.
É por isso Pedro pode dar a entender, sem incorrer em erro, que todos os seus ouvintes, mesmo os que acabaram de chegar a Jerusalém, são testemunhas da ressurreição de Jesus (“do que todos nós somos testemenhas”). Sem qualquer incorreção, exagero ou metáfora, Jesus está presente por inteiro no Pentecostes, falando em várias línguas, abraçando em várias vozes, suas mãos inteiramente preparadas para lançarem-se em defesa de todas as vítimas.

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