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A transgressão original é portanto divina, no que Deus violou sua própria Suficiência ao criar o homem “à sua imagem e semelhança” – isto é, tomando a si mesmo como modelo. Porém toda a atenção que o artista concedeu à reprodução do original, toda a diligência com que Deus gravou suas próprias características na carne virgem do primeiro homem adulto, não bastaram para garantir uma identidade imediata, uma relação verdadeira de correspondência, entre o ser humano e a divindade.
Ao concluir a estátua humana Deus julgou que tudo que fizera era “muito bom”, mas teve que esperar o instante posterior à transgressão para proferir um definitivo “tornou-se como um de nós”.
Ao produzir uma primeira iteração de si mesmo, uma entidade potente e independente como o modelo do qual fora formado, Deus colocara em cena um formidável Outro que deveria idealmente corresponder a ele mesmo. Paradoxalmente, só depois da trangressão humana (que é necessariamente reflexo da divina) a obra estava completa, mas o algoritmo da criação/transgressão estava agora livre para produzir novas e impensáveis iterações.
O protagonista não precisava de nada até que entrou em cena o conflito – e o protagonista desta história, deve ficar muito claro, é o próprio Deus. É seu o dilema, é seu o conflito. Deus não precisava de nada, mas o homem é sua transgressão. A Bíblia é sua confissão.
E este, diante do fruto meio comido lançado no chão e dos amigos que não respondem ao seu chamado, é o seu primeiro momento verdadeiramente dramático. É o seu instante “criei um monstro”, em que Deus experimenta todas as consequências do conceito de reprodução.
O protagonista fora exemplarmente imitado em sua potência e não estava mais sozinho. Um conflito gera outro, e a mais bem-intencionada transgressão não permanece impune em termos narrativos, porque qualquer um que está conosco no palco – mesmo nosso pai, mesmo nosso filho – é nosso antagonista.
Ao criar um Outro, Deus se tornara – talvez para sempre – o mais inconcebível Outro para a nova instância de si mesmo que criara.
Nasce um homem
- Era uma vez
- Adão era
- A teoria literária
- Para mim
- Se havia improvável graça
- O conflito que anima uma história
- A primeira blasfêmia
- Eu sentia ser minha obrigação
- Como demonstrado exemplarmente por Jesus
- De todos os detalhes
- A distinção mais antiga
- O homem em pé no centro
- Quando levantei-me do lugar
- Ele tinha o mundo natural aos seus pés
- Dois ou três personagens não bastam
- A proibição extrai seu poder
- Para caracterizar uma tragédia
- Pisei no andar térreo
- Você pode comer
- Um professor errante depara-se com um homem cego
- Nenhum outro elemento da trama
- Toda história sobre transgressão
- De todos os sonhos de que me recordo
- Não devemos deixar
- A chave, obviamente
- É curioso notar
- Para começar
- Neste ponto
- Com a entrada da serpente
- Dos enigmas da serpente
- Porém quando percebo
- A serpente é astuta
- A narrativa é límpida
- A serpente permanece um enigma
- Quando olho tempo suficiente
- O silêncio da história
- Outro resultado
- Individuação
- É o momento decisivo
- A ausência divina
- É uma pista falsa
- Não se trata
- Uma donzela encontra na floresta uma perigosa serpente
- A hora é agora
- Porque – e ignoro quantas vezes terei de voltar
- Alcançar a individuação
- Eva recua
- Deus sabe
- O motor do conflito
- A grande revelação
- Transgredir
- A obra da serpente
- Onde está a maldade
- O que me faz lembrar
- A transfiguração do conflito
- Que são a imitação e o jogo de espelhos
- O que esta história existe para mostrar
- É por isso
- É o último momento
- Quando volto à recordação
- O efeito imediato
- Como numa comédia de erros
- Minha primeira transgressão
- É só do lado de cá
- A esse princípio
- Não nos deverá
- A coisa boa
- Se o conflito é a graça
- A transgressão original
- Transgredir é escolher
- No espaço recém-aberto da minha transgressão
- Em si mesmo nada há de terrível
- O conceito teológico
- Bastaria a morte
- A ambivalência do poder
- A maldição do pó
- Há algo de terrível na autodeterminação
- Minha disciplina pessoal mais antiga
- Essa crueza
- Não é completa
- Essas histórias
- Na noite de ontem para hoje
- O outro símbolo universal
- A serpente é mentirosa
- O primeiro desdobramento
- Foi mais ou menos nessa época
- Todas as lendas
- Minha convicção




