09 de Janeiro de 2009

A grande revelação

Entregue em consignação por   Paulo Brabo

 

Estocado em Manuscritos

50

A grande revelação, a tremenda e desconcertante reviravolta, é precisamente esta. Pois a serpente denuncia ainda a chave que tenho até este ponto propositalmente omitido, a chave que tudo explica e tudo transforma: “Deus sabe que no momento em que comerem desse fruto os olhos de vocês se abrirão, e vocês serão como Deus, conhecendo o bem e o mal”.

Está, finalmente, tudo aqui.

É aqui que compreendemos que, ao falar sobre o homem e para o homem, Deus está falando sobre si mesmo; ao falar da transgressão de Adão, a história quer transparecer a transgressão de Deus.

Pois neste ponto o leitor de Gênesis (que já conhece os dez mandamentos, a que foi invariavelmente apresentado antes) intui duas coisas. Primeiro, que o verdadeiro terror da sedução da serpente reside neste “vocês serão como Deus”. O leitor sabe que ninguém pode ser como Deus, ninguém deve almejar ser como Deus, porque o Mandamento o expressamente o proíbe: não terás outros deuses diante de mim; não farás para ti imagem esculpida, nem figura alguma do que há em cima no céu, nem em baixo na terra, nem nas águas debaixo da terra; não te encurvarás diante delas, nem as servirás.

Ele então treme com um medo que Adão e Eva desconhecem, porque a única interdição que os dois entendem é a do fruto da árvore do meio do jardim. Como numa tomada de suspense de Alfred Hitchcock, o espectador estremece porque compreende mais do que os protagonistas sobre o correm o risco que correm.

Mas há um segundo vislumbre, menos consciente do que o primeiro, e é nele que reside toda a reviravolta. Pois, ao trazer à lembrança que absolutamente nada deve ser manufaturado à partir da imagem de Deus ou moldado à sua semelhança, o leitor é imediatamente remetido ao que foi dito duas páginas antes, no momento da criação do ser humano.

A narrativa finalmente explicita, para o leitor que conhece a Lei (e todo leitor da Bíblia conhece a Lei), que ao criar o homem Deus transgredira, ele mesmo, seus mais temíveis mandamentos, aqueles que proíbem a acolhida de outros deuses e a manufatura de imagens de deuses subalternos. Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança, e domine [. . .] E moldou o Senhor Deus o homem do pó da terra [. . .] Criou, pois, Deus o homem à sua imagem; à imagem de Deus o criou.

Fica demonstrado que a serpente não está mentindo, ainda que não tenha permissão para falar. “Deus sabe que no momento em que comerem desse fruto (isto é, no momento em que transgredirem) vocês serão como Deus” – porque, mostra-se finalmente claro, Deus transgredira primeiro. O homem é a transgressão de Deus.

O homem é a transgressão de Deus.

A transgressão de Adão e Eva será reflexo rigoroso dessa transgressão divina, e a narrativa explica-se subitamente por essa recapitulação. Como na sequência final de O Sexto Sentido, a trama fica clara quando todas as cenas se sobrepõem.

A fim de produzir uma imagem sua, uma estátua animada que seria como um filho e como um reflexo no espelho, retendo seus atributos de independência e autodeterminação, Deus teve de transgredir da forma mais espetacular a sua própria suficiência, o insondável “eu-me-basto” da divindade. Ninguém o tomara pela mão e o obrigara ordenar o caos e soprar o espírito sobre a massa de terra. A mera possibilidade – a mera tentação – de criar o homem a partir da imagem divina deve ter representado o mais formidável transtorno na bem-aventurança sem mácula de um Deus suficiente. O Protagonista não precisava de nada, até que entrou em cena o Conflito.

Ao transgredir sua suficiência Deus se prova, paradoxalmente, independente e admirável, porque demonstra para si mesmo que é grande o bastante para abrir mão até mesmo da sua suficiência. A transgressão é sempre manifestação de poder. Deus deseja fazer o homem à sua imagem; ele que fazer o homem é algo bom e desejável, e o faz porque pode. Criar o ser humano é uma violação, mas é também uma jogada de virilidade, autodeterminação e poder.

Porém, como o homem que criou é ele mesmo livre, Deus conhece imediatamente o bem e o mal – afinal, está aqui no palco com ele um personagem que pode fugir ao seu controle. A resolução de um conflito gera imediatamente outro, e o homem que era backup de Deus se mostrará daqui a duas linhas seu antagonista.

A narrativa só avança quando o conflito é satisfeito, o conflito só se satisfaz com a transgressão, e a transgressão é movida pelo brilho do poder. O mistério está em que a transgressão é também o primeiro passo para a individuação, e na perspectiva da narrativa bíblica a história do homem é secretamente a história de Deus buscando a individuação.

Nasce um homem

  1. Era uma vez
  2. Adão era
  3. A teoria literária
  4. Para mim
  5. Se havia improvável graça
  6. O conflito que anima uma história
  7. A primeira blasfêmia
  8. Eu sentia ser minha obrigação
  9. Como demonstrado exemplarmente por Jesus
  10. De todos os detalhes
  11. A distinção mais antiga
  12. O homem em pé no centro
  13. Quando levantei-me do lugar
  14. Ele tinha o mundo natural aos seus pés
  15. Dois ou três personagens não bastam
  16. A proibição extrai seu poder
  17. Para caracterizar uma tragédia
  18. Pisei no andar térreo
  19. Você pode comer
  20. Um professor errante depara-se com um homem cego
  21. Nenhum outro elemento da trama
  22. Toda história sobre transgressão
  23. De todos os sonhos de que me recordo
  24. Não devemos deixar
  25. A chave, obviamente
  26. É curioso notar
  27. Para começar
  28. Neste ponto
  29. Com a entrada da serpente
  30. Dos enigmas da serpente
  31. Porém quando percebo
  32. A serpente é astuta
  33. A narrativa é límpida
  34. A serpente permanece um enigma
  35. Quando olho tempo suficiente
  36. O silêncio da história
  37. Outro resultado
  38. Individuação
  39. É o momento decisivo
  40. A ausência divina
  41. É uma pista falsa
  42. Não se trata
  43. Uma donzela encontra na floresta uma perigosa serpente
  44. A hora é agora
  45. Porque – e ignoro quantas vezes terei de voltar
  46. Alcançar a individuação
  47. Eva recua
  48. Deus sabe
  49. O motor do conflito
  50. A grande revelação
  51. Transgredir
  52. A obra da serpente
  53. Onde está a maldade
  54. O que me faz lembrar
  55. A transfiguração do conflito
  56. Que são a imitação e o jogo de espelhos
  57. O que esta história existe para mostrar
  58. É por isso
  59. É o último momento
  60. Quando volto à recordação
  61. O efeito imediato
  62. Como numa comédia de erros
  63. Minha primeira transgressão
  64. É só do lado de cá
  65. A esse princípio
  66. Não nos deverá
  67. A coisa boa
  68. Se o conflito é a graça
  69. A transgressão original
  70. Transgredir é escolher
  71. No espaço recém-aberto da minha transgressão
  72. Em si mesmo nada há de terrível
  73. O conceito teológico
  74. Bastaria a morte
  75. A ambivalência do poder
  76. A maldição do pó
  77. Há algo de terrível na autodeterminação
  78. Minha disciplina pessoal mais antiga
  79. Essa crueza
  80. Não é completa
  81. Essas histórias
  82. Na noite de ontem para hoje
  83. O outro símbolo universal
  84. A serpente é mentirosa
  85. O primeiro desdobramento
  86. Foi mais ou menos nessa época
  87. Todas as lendas
  88. Minha convicção


Inquisição


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Versões digitais dos manuscritos da Biblioteca do Monastério de São Brabo, nas Índias Ocidentais.
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