Não é por acaso que em seu discurso Pedro recapitula o mecanismo da vitimização, que levou ao assassinato de um inocente (“Jesus, aprovado por Deus . . . a quem vocês prenderam, crucificaram pelas mãos de homens corrompidos, e mataram”), antes de apresentar Jesus como a fonte do transtorno do Espírito (“tendo recebido do Pai o Espírito Santo prometido, ele derramou isso que vocês agora estão vendo e ouvindo”). Sua idéia não é apenas constrastar a perversidade do processo de vitimização com a santidade do transbordar do Espírito. Seu discurso está construído de forma a contrapor geometricamente uma coisa à outra; sua sacada está em demonstrar que tratam-se de dois processos semelhantes mas inversos. Foi o preciso reverso do processo da vitimização que possibilitou a incubação do Espírito.
Para falar dessas mesmas coisas com um vocabulário contemporâneo será necessário mais uma vez recorrer a Girard, cuja obra lança luz precisamente sobre o mecanismo de vitimização, pelo qual as comunidades resolvem suas tensões internas através da condenação unânime e eliminação de um bode expiatório.
O mecanismo da conciliação de uma comunidade através da morte violenta de uma vítima arbitrária é conhecido desde a Antiguidade. Ele é virtualmente expresso com todas as letras no verso cinquenta do décimo capítulo de João: “É melhor que um único homem morra pelo povo do que a nação inteira seja destruída.” A contribuição de Girard está em apontar que tanto a solução da catarse violenta quanto as tensões internas que tornaram necessária a catarse originam-se na mesma fonte: a irreversível tendência do ser humano à imitação.
Para Girard, a imitação – o desejo de ser como o outro – é a menor partícula da antropologia, o átomo da humanidade. De uma ponta à outra a Bíblia reconhece essa inclinação humana à imitação – muitas vezes explicitamente, como na redação dos dez mandamentos. Girard nota que os mandamentos não proíbem apenas a apropriação indébita, o que deveria bastar (“não se aproprie do que não é seu”), mas proíbem expressamente o desejo (“não cobice o que pertence ao outro”).
PILATOS
E HERODES
PASSARAM A
SER AMIGOS
Nessa escolha de palavras a Bíblia reconhece que a raiz de todas as rivalidades, a raiz de todas as tensões e antagonismos, está no desejo de ser como o outro. Todo desejo é mimético, isto é, imitativo. Nisto está a antropologia da Bíblia, e em grande parte a sua psicologia: não desejamos as coisas por si mesmas, desejamos as coisas porque pertencem à outra pessoa. Inconscientemente refletimos que, se as coisas pertencem ao próximo, o próximo deve, ele mesmo, desejá-las. É dessa forma que passamos a cobiçar o que não nos pertence: porque queremos ser como o outro. Não cobiçamos as coisas porque nos pareçam particularmente satisfatórias, mas porque o outro nos parece satisfatório, e ser como ele inteiramente desejável. “No momento em que comerem esse fruto vocês serão como Deus”. O acesso ao que não temos é mera ferramenta transversal no nosso projeto de dominação – isto é, de imitação – completa.
Todo antagonismo é portanto uma espécide torta de admiração, porque nosso projeto mais secreto é desejar o que o outro deseja, isto é, imitá-lo até o fim na tentativa de encontrarmos nossa própria satisfação. Os irmãos invejam o casaco de José porque querem ser como ele; odeiam-no porque admiram-no. Isso explica porque via de regra acabamos nos transformando na imagem precisa daquilo que mais odiamos e perseguimos.
É tudo um jogo de espelhos.
Num universo de necessária escassez, como o nosso, nem todos podem ter tudo; a inclinação humana à imitação acaba gerando toda espécie de rivalidades e antagonismos em todos os níveis da sociedade. Grupos antagonistas disputam o poder, estapeando-se para gerenciar a abundância, e suas diferenças vão se aferrando ao ponto do insustentável. Quando as tensões internas de uma comunidade chegam ao ápice, num ponto em que a completa desordem e a guerra de todos contra todos parece ser a alternativa, uma solução brota de forma secreta e inconsciente: os antagonistas apagam suas diferenças e reencontram a ordem na demonização e na eliminação de um bode expiatório. José, o desejado indesejado, é jogado unanimemente no poço e vendido aos egípcios.
Se o bode expiatório é culpado das coisas que seus perseguidores o acusam, isso não diz em nada respeito à eficácia ou à natureza do processo. Antes de ser eliminada, na verdade, a vítima é tacitamente acusada de ser responsável por todos os males que recaem sobre a comunidade; só dessa forma a sua eliminação é capaz de restabelecer a ordem e aplacar as tensões geradas pelas rivalidades internas ao grupo.
Dessa forma, na condenação de alguma vítima inocente e arbitrária, os grupos antagonistas reencontram a harmonia perdida na rivalidade, e encontram-na numa forma sublimada e comunitária de imitação, a imitação do ódio pela vítima escolhida. A imitação, que gerara as tensões comunitárias em primeiro lugar, acaba resolvendo-as, ao preço da eliminação de uma única vítima; fica parecendo de fato vantajoso “que um único homem morra (pelo processo de vitimização) para que a nação inteira não seja destruída (pela exacerbação de suas rivalidades internas)”.
Pedro não deixa de notar que foi um processo exemplar de vitimização, a demonização e a eliminação de uma vítima inocente, que levou Jesus à morte e à cruz. É somente a surreal peculiaridade do mecanismo de vitimização que pode explicar a colaboração de facções antagonistas – saduceus e fariseus, ricos e pobres, soldados e paisanos, judeus e romanos – na súbita demonização e eliminação de Jesus, o bode expiatório último. A luz que Girard lança sobre o procedimento explica uma unanimidade que seria de outra forma incompreensível. Uma vez colocado em andamento, o processo de vitimização produz uma espécie de inteligência subterrânea e perversa, que transformará inimigos em aliados pelo recrutamento de um terceiro antagonista que possa ser executado sem maiores problemas no altar da reconciliação.
O primeiro resultado do assassinato de Jesus foi, portanto, a restauração imediata da ordem social. Imitando o ódio de todos por Jesus, todos reconciliaram-se das tensões geradas pelas rivalidades usuais. Lucas percebe expressamente que “Pilatos e Herodes, que antes disso viviam em inimizade um com o outro, nesse mesmo dia [da execução de Jesus] passaram a ser amigos (23:12)”.
Tudo isso observa Girard, e observa ainda que este mecanismo é a única ferramenta de Satanás. A acusação é sua própria essência, é sua própria pessoa.
A vitimização de Jesus, segundo Girard, é exemplar; é reflexo perfeito e figura da condenação e eliminação de todas as vítimas inocentes, de Abel a José a Sócrates aos judeus na Alemanha nazista. Para Girard, o que o evangelho tem de peculiar está em sua habilidade de denunciar pontualmente cada aspecto do processo, de modo a “expor” o mecanismo – isto é, expor Satanás – de forma completa e definitiva. Depois de Jesus, Satanás não terá mais como “funcionar” de modo encoberto, porque o Filho do Homem exibiu publicamente as entranhas de seu maior segredo.
Enquanto via-o caminhar para a cruz, Satanás cria que Jesus estava caindo, como planejado, na sua armadilha mais antiga; o evangelho, como iluminado ainda por Pedro e Paulo, assegura que Jesus estava na verdade anulando para sempre a sua eficácia.
Os próprios discípulos foram participantes do processo que vitimizou o homem de Nazaré; também eles aderiram à súbita e irresistível febre de demonização de Jesus. A maioria abandonou-o sem qualquer intervalo ou escrúpulo, e Pedro imitou irresistivelmente seus perseguidores, negando-o publicamente.
Para Girard, aquilo que abriu finalmente os olhos dos discípulos, levando-os a compreender rematadamente o processo e capacitando-os a escapar para sempre de sua atração circular, foi a ressurreição. O que parece ter escapado a Girard, até agora, é que Satanás encontrou seu algoz e seu remédio não na esperada ressurreição, mas no imprevisto desabrochar do Espírito.

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