Logo que o Principe Regente Nosso Senhor com a sua Real Presença felicitou a grande e abençoada terra do Brazil, e nella estabelecêo o seu Throno, este Paiz deixou de facto de ser Colonia, por cujo motivo, ainda bem não tinha sua Alteza Real chegado ao termo da sua jornada, quando na Cidade da Bahia se apressa a quebrar as cadêas, que prendião o commercio, e a industria dos Brazileiros, abrindo os portos deste vastissimo Continente a todas as Nações amigas, e concedendo aos habitantes do Brazil a franquesa do commercio: e nesta Cidade do Rio de Janeiro, onde fixou sua Côrte, passou não só a crear todos os estabelecimentos públicos, indispensaveis ao decoro e magestade da sua Corôa, mas tambem os necessarios, e uteis para o bem, e prosperidade dos seus Vassallos nesta parte do novo Mundo. Assim, além dos arranjos da sua Real Casa, e Familia, e da erecção de huma Capella tão magnifica, e devota, Sua Alteza Real Creou os Regios Tribunaes do Desembargo do Paço, da Mesa da Consciencia, e Ordens, do Conselho da Fazenda, do Supremo Conselho Militar, e de Justiça; creou mais a Casa da Supplicação do Brazil, a Juncta do Commercio e outras Junctas Administrativas, como a do Arsenal Real do Exercito, da Academia Militar, etc.; creou tambem o Erario Regio, a Relação do Maranhão, novas Comarcas, e novas Villas; fundou o Banco do Brazil; mandou abrir estradas pelo interior do Certão até ao Pará, explorar a navegação dos rios, aldear, e civilizar os Indios barbaros e ferozes; promulgou muitas, e saudaveis leis analogas ao liberal Systema Politico, que adoptara, para favorecer, animar, e dar toda a extensão possivel ao commercio, á agricultura, á industria, ás artes, e ás sciencias; mandou estabelecer fabricas de ferro, de polvora e outras de diversos generos; concedêo a Typographia, creou a Academia Militar, e a Escóla Medico-Cirurgica; promovêo a população, já permittindo aos Estrangeiros estabelecimentos ao Brazil, recebendo com affabilidade os que se distinguem pelos seus conhecimentos uteis em quaesquer das artes liberaes, e mechanicas, sem preferencia de Nação, ou de Religião; e concedendo liberalmente sesmarias aos que se propõem exercer a lavoura; já mandando vir dos Açores por diferentes vezes muitos casaes de Ilheos, aos quais benignamente mandou prestar todos os meios de subsistencia, e além disto terras, gado, intrumentos de agricultura, privilegios, isenções; e não havendo hum só ramo de publica prosperidade, que não sentisse os beneficos efeitos da sollicitude de Sua Alteza Real para engrandecer, e fazer prosperar este Estado, como temos visto na primeira parte destas Memorias, com tudo, o seu Generoso, e Magnanimo Coração não se dava ainda por satisfeito. Aliquid maius, et excelsius a Principle postulatur. Sim, o Principe Regente Nosso Senhor desde muito conhecia, que o Brazil exigia da Sua Real Munificencia, e Grandeza cousa maior, e mais relevante: isto he, que ao Brazil faltava ser de Direito hum Reino, por tal conhecido, e havido entre as Nações.
Memorias para servir a’ historia do Brazil
Escriptas na Corte do Rio de Janeiro no anno de 1821
e offerecidas a S. Magestade Elrei Nosso Senhor
o Senhor D. João VI pelo
Padre Luiz Gonçalves dos Sanctos


