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A ambivalência do poder explica porque na distribuição das punições a serpente – que transfigurou o conflito, engendrando o pecado – não é simplesmente destruída ou tirada de cena. A queda implica em que Deus não poderá mais conviver com o homem, e que o homem terá de conviver com a serpente, sendo que a eliminação do adversário comum serviria para resolver num único golpe os dois problemas.
A serpente, no entanto, é infinitamente esquiva, e imortal. Não pode ser destruída enquanto o homem compartilhar de alguma parcela de autonomia, porque a serpente é ela mesmo um aspecto e uma possibilidade dessa autonomia. Na porção da imagem divina atribuída ao homem (isto é, na operação da transgressão divina) veio embutido esse terrível risco, e o preço que o homem deve pagar pela dádiva de ser autônomo sem ser Deus é a capacidade de ouvir a voz da serpente.
A autonomia é a possibilidade do bem e do mal, e isto Deus conhece; a serpente é o processo de efetivação da morte, e isto o homem conhece. Como explicam Girard e, ainda melhor, esta mesma narrativa de Gênesis, Satanás é menos uma pessoa do que um mecanismo. Dar ouvidos à serpente é desejar de um modo que resulte na destruição do objeto desejado; é transformar amizade em rivalidade e autonomia em disputa de poder; é alienar e eliminar o Outro pelo recurso da acusação, gerando a fermentação da morte onde poderia ter brotado a vitalidade do relacionamento e do amor.
Esse câncer da autonomia não é, e por essa mesma razão, menos real e menos onipresente do que o Satanás da tradição. A serpente anda ao redor, rugindo como um leão, querendo devorar os mais santos e bem-intencionados, porque sua voz está embutida na própria malha da condição humana. A serpente não pode ser destruída sem que sejamos nós mesmos destruídos, porque o mecanismo de Satanás está gravado a fogo em cada fibra do nosso ser.
É por isso que a serpente é “o mais astuto dos animais que Deus fez” (ou seja, sua existência está associada à iniciativa divina) e ao mesmo tempo seu maior adversário (ou seja, sua conduta está totalmente dissociada dele).
É por isso que no momento tudo que Deus pode prometer é que a descendência da mulher irá pisar a cabeça da serpente, mas esta, por sua vez, não cessará de picar-lhe o calcanhar. Essa imagem, que lembra o símbolo alquímico da serpente que morde a própria cauda, é emblema da luta mais arriscada de todas e do nó aparentemente mais impossível de desatar: para eliminar definitivamente a serpente seria necessário eliminar o homem.

Nasce um homem
- Era uma vez
- Adão era
- A teoria literária
- Para mim
- Se havia improvável graça
- O conflito que anima uma história
- A primeira blasfêmia
- Eu sentia ser minha obrigação
- Como demonstrado exemplarmente por Jesus
- De todos os detalhes
- A distinção mais antiga
- O homem em pé no centro
- Quando levantei-me do lugar
- Ele tinha o mundo natural aos seus pés
- Dois ou três personagens não bastam
- A proibição extrai seu poder
- Para caracterizar uma tragédia
- Pisei no andar térreo
- Você pode comer
- Um professor errante depara-se com um homem cego
- Nenhum outro elemento da trama
- Toda história sobre transgressão
- De todos os sonhos de que me recordo
- Não devemos deixar
- A chave, obviamente
- É curioso notar
- Para começar
- Neste ponto
- Com a entrada da serpente
- Dos enigmas da serpente
- Porém quando percebo
- A serpente é astuta
- A narrativa é límpida
- A serpente permanece um enigma
- Quando olho tempo suficiente
- O silêncio da história
- Outro resultado
- Individuação
- É o momento decisivo
- A ausência divina
- É uma pista falsa
- Não se trata
- Uma donzela encontra na floresta uma perigosa serpente
- A hora é agora
- Porque – e ignoro quantas vezes terei de voltar
- Alcançar a individuação
- Eva recua
- Deus sabe
- O motor do conflito
- A grande revelação
- Transgredir
- A obra da serpente
- Onde está a maldade
- O que me faz lembrar
- A transfiguração do conflito
- Que são a imitação e o jogo de espelhos
- O que esta história existe para mostrar
- É por isso
- É o último momento
- Quando volto à recordação
- O efeito imediato
- Como numa comédia de erros
- Minha primeira transgressão
- É só do lado de cá
- A esse princípio
- Não nos deverá
- A coisa boa
- Se o conflito é a graça
- A transgressão original
- Transgredir é escolher
- No espaço recém-aberto da minha transgressão
- Em si mesmo nada há de terrível
- O conceito teológico
- Bastaria a morte
- A ambivalência do poder
- A maldição do pó
- Há algo de terrível na autodeterminação
- Minha disciplina pessoal mais antiga
- Essa crueza
- Não é completa
- Essas histórias
- Na noite de ontem para hoje
- O outro símbolo universal
- A serpente é mentirosa
- O primeiro desdobramento
- Foi mais ou menos nessa época
- Todas as lendas
- Minha convicção

