Manuscritos estocados em Novembro do Anno 2009 de Nosso Senhor
30 de Novembro de 2009

A Reforma e a psicotização da experiência: materialistas, graças a Deus

Fé e Crença, Sociedade

Foi meu amigo psicologando Ivan quem primeiro expôs-me a noção de que uma das marcas que definem a condição de psicose é a incapacidade de compreender o mundo em termos simbólicos. No mundo do psicótico não existe metáfora, parábola, representação, poesia, associação ou alusão. Não há jogo de significações. Seu pensamento, que equivale à sua experiência, é rigorosamente concreto e literalista. Um neurótico – isto é, uma pessoa normal – enxerga uma palavra cercada por uma aura sempre cambiante de sentidos, interpretações, alusões, metáforas e ambivalências. Para o psicótico, não existe dúvida nem ambivalência: significante e significado são uma mesma e implacável coisa. Para o psicótico, um domínio da experiência não é refletido ou mapeado por outro. Nada remete:É graças à Reforma que somos todos materialistas. a representação é ela mesma a coisa, e tudo que existe é o literal.

As peculiaridades dessa condição tornam o psicótico em grande parte impermeável à psicanálise – que requer, por definição, a resignificação de elementos simbólicos e a reelaboração de mitos e metáforas. Como para o psicótico não existem mitos nem metáforas, tudo tudo é duramente pé-da-letra, seu espírito está condenado a vagar em regime perene pela concretude, sem ser jamais capaz de enxergar a luz e adentrá-la.

Neurótico como sou, não pude deixar de encontrar espreitando nessa noção sua própria e necessária metáfora. Bastará voltar, como devemos sempre fazer, àquele que talvez seja o documento mais importante jamais armazenado nesta Bacia: O holocausto da alma, que consiste essenciamente na tradução de um artigo de Peter Harrisson.

Ali está escrito que a Reforma Protestante, com sua ênfase no sentido literal da Escritura (“literalismo implica em que apenas palavras referem; coisas da natureza não”), não apenas trabalhou no sentido de expurgar da experiência cristã qualquer manifestação simbólica, de poesia, metáfora ou transversalidade (coisas que ainda permeiam, por exemplo, a vivência do catolicismo); esse modo “concreto” e “literalista” de enxergar a existência acabou contaminando ainda toda a cosmovisão ocidental, mesmo para os que vivem fora do alcance dos telhados eclesiásticos.

Os reformadores apostaram todas as suas cartas na suficiência do literal; isso implicava em atestar a supremacia de uma leitura científica “realista” em detrimento de abordagens mais simbólicas, alegóricas e literárias do texto. A Bíblia era para ser entendida como testemunho literal de uma realidade “concreta”, e nisso deveria confirmar os crivos empíricos da ciência e ser confirmada por eles. Com o arrastar dos séculos, no entanto, a ênfase no literal acabou voltando-se contra a própria Bíblia: a ciência finamente desvalidou a própria literalidade da Bíblia – via Darwin, por exemplo.

A ciência vencera e hoje reina suprema. Os elementos da natureza foram esvaziados de seu valor simbólico e a Bíblia de sua essência metafórica e mítica. Depois de insistirem por séculos que o cerne vital da Bíblia jazia na sua literalidade, os herdeiros do protestantismo ficaram sem graça de mudar o seu discurso e apontar que sua verdadeira e transformadora relevância é metafórica. Ridicularizamos por tanto tempo as parábolas que perdemos a capacidade de levá-las a sério – isto é, de lê-las como parábolas. E, quando, começamos, já era tarde demais: é graças à Reforma que somos todos materialistas.

Somos hoje em dia todos psicóticos funcionais, sem verdadeiro acesso à poesia e à metáfora. E os cristãos sequer se contentaram em limitar sua obra a seus próprios arraiais. Psicotizamos a própria experiência.

Leia também:
O holocausto da alma
Porque os evangélicos são tão crentes mas tão feios
A segunda encarnação do Verbo
Pequenas narrativas parciais

26 de Novembro de 2009

Um corredor de kart

Ilustração

25 de Novembro de 2009

Nenhum motivo e nenhuma recompensa

Goiabas Roubadas

Ainda Wells, sobre Jesus:

E não era meramente uma revolução moral e social que Jesus proclamava: fica claro por um grande número de indicações que seu ensino tinha uma inclinação política muito manifesta. É verdade que ele disse que seu reino não era deste mundo, e situava-se no coração dos homens e não sobre um trono; porém fica igualmente claro que em todo o lugar e na medida em que seu reino se estabelecesse no coração dos homens, o mundo exterior seria naquela mesma medida revolucionado e renovado.

O que quer que a cegueira e a surdez dos seus ouvintes tenham deixado de captar das suas palavras, é muito evidente que não deixaram de captar sua firme resolução de revolucionar o mundo. Todo o método da oposição levantada contra ele, bem como as circunstâncias de seu julgamento e execução, demonstram claramente que para seus contemporâneos ele parecia estar propondo sem rodeios, e de fato propôs sem rodeios, alterar e fundir e alargar toda a vida humana.

Em vista das coisas que Jesus disse claramente, será de espantar que todos que eram ricos e prósperos tenham intuído um horror de coisas insólitas, o naufrágio iminente de seu mundo diante do seu ensino? Ele estava arrastando todas as pequenas reservas que eles haviam levantado contra o serviço social e trazendo-as para fora, para luz de uma vida religiosa universal. Ele era como um terrível caçador moral que forçava a humanidade para fora das cômodas tocas nas quais tinham vivido até aquele momento. No esplendor branco do reino dele não deveria haver propriedade alguma, privilégio algum, nenhum orgulho e nenhuma preferência; nenhum motivo e nenhuma recompensa que não fosse o amor. Será de espantar que os homens se tenham ofuscado e cegado e clamado contra ele? Mesmo seus discípulos clamavam em protesto quando ele não os poupava da luz. Será de espantar que os sacerdotes tenham percebido que entre este homem e eles mesmos não havia outra escolha, senão que ele ou o sacerdócio teriam de perecer? Será de espantar que os soldados romanos, confrontados e estupefatos diante de algo que se alçava muito além da sua compreensão e ameaçava todas as suas disciplinas, tenham buscado refúgio na risada selvagem, tenham-no coroado de espinhos e vestido de púrpura e feito dele uma versão de César da qual pudessem caçoar? Pois levá-lo a sério era adentrar uma vida estranha e intimidadora; era abandonar hábitos, controlar instintos e impulsos, era ensaiar uma incrível felicidade.

H. G. Wells, Breve História do Mundo (1922)

Wells encontra Jesus

  1. Uma ousada e intransigente demanda
  2. Mapeando o Deus que não faz barganhas
  3. Nenhum motivo e nenhuma recompensa
23 de Novembro de 2009

O verdadeiro crente

Goiabas Roubadas

ABRAÃO: O verdadeiro crente

Certa vez Abraão entrou no templo dos ídolos da casa de seu pai, a fim de trazer-lhes sacrifícios, e encontrou um deles, chamado Marumate e feito de pedra lavrada, prostrado no chão diante do deus de ferro de Naor. O ídolo era pesado demais para alguém erguê-lo do chão sem ajuda, pelo que Abraão chamou seu pai para ajudar a colocar Marumate de volta no lugar. Enquanto moviam a estátua a cabeça se soltou; Tera pegou então uma pedra e lavrou com cinzel um outro Marumate, fixando a cabeça do primeiro no novo corpo que fizera. Depois continuou e fez mais cinco deuses, todos os quais entregou a Abraão, mandando que os vendesse nas ruas da cidade.

Abraão selou sua mula e foi até a hospedaria onde os mercadores de Fandana, na Síria, paravam em seu caminho para o Egito. Quando chegou à hospedaria um dos camelos que pertencia aos mercadores baliu, e o som assustou sua mula de tal forma que ela saiu correndo desabalada, quebrando três dos ídolos. «Foi ele que atirou-se ao fogo para que sua refeição pudesse ser preparada.»Os mercadores não apenas compraram os ídolos em bom estado que ele trazia, mas deram-lhe ainda dinheiro pelos quebrados, pois Abraão contou-lhes o quanto estava receoso de aparecer diante do pai com menos dinheiro do que esperava reveber pelo trabalho das suas mãos.

Esse incidente levou Abraão a refletir sobre a inutilidade dos ídolos. “O que essas coisa perversas fizeram ao meu pai?” ele disse a si mesmo. “Então ele não é o deus dos seus deuses? Não é devido ao lavor, esforço e planejamento dele que eles chegam a existir? Não seria mais apropriado que eles prestassem adoração e meu pai do que ele a eles, considerando-se que são obra das suas mãos?”

Pensando nessas coisas ele chegou à casa do pai, entrou e entregou-lhe o dinheiro pelas cinco imagens. Tera encheu-se de júbilo e disse:

– Meus deuses o abençoem, porque me trouxe o preço pelos meus ídolos, e meu trabalho não foi em vão.

Mas Abraão retrucou:

– Ouça, Tera, meu pai: são os seus deuses os abençoados pelo senhor, pois o senhor é o deus deles! O senhor os moldou; a benção deles é destruição, e seu auxílio vaidade. Eles são incapazes de ajudar a si mesmos; como poderão ajudar o senhor ou abençoar a mim?

Tera ficou furioso com Abraão, por ter proferido esse discurso contra os seus deuses. Abraão, refletindo sobre a ira do pai, deixou-o e saiu da casa, porém Tera chamou-o de volta e disse:

– Junte os cavacos de carvalho que sobraram das imagens que fiz antes de você voltar, e prepara-me o jantar.

Abraão dispôs-se prontamente a cumprir a ordem do pai, e enquanto juntava as lascas de madeira encontrou um pequeno deus entre eles, cuja testa trazia a inscrição “Deus Barisate”.

Abraão atirou os cavacos no fogo e colocou Barisate junto dele.

– Atenção, Barisate! – disse ele. – Cuide para que o fogo não apague até eu voltar. Se começar a apagar, sopre sobre as brasas e a chama será atiçada novamente.

Falando assim, foi embora. Quando voltou, Abraão encontrou Barisate caído de costas, gravemente queimado. Sorrindo, disse a si mesmo:

– É, Barisate, você não é capaz nem de manter um fogo aceso e preparar comida.

E, enquanto ele falava, o ídolo foi consumido em cinzas.

Abraão levou os pratos ao pai, que comeu e bebeu, ficou satisfeito e agradeceu a seu deus Marumate. Mas Abraão disse ao pai:

– Não agradeça Marumate, agradeça a seu deus Barisate, pois foi ele, pelo seu grande amor pelo senhor, que atirou-se no fogo para que sua refeição pudesse ser preparada.

– Onde está ele agora? – exclamou Tera.

– Converteu-se em cinza pela força do fogo – respondeu Abraão.

– Grande é o poder de Barisate! – disse Tera. – Vou fazer-me outro hoje mesmo, e amanhã ele me preparará comida.

Essas palavras de seu pai fizeram com que Abraão risse consigo mesmo, mas ao mesmo tempo sua alma entristecia-se diante da obstinação de Tera. Ele não hesitou em deixar clara sua posição sobre os ídolos:

– Pai – disse ele, – não importa qual dos dois deuses o senhor bendiga. Não há sentido no seu comportamento, pois as imagens que estão no santo templo são mais dignas de oração do que as suas. Zuqueu, deus de meu irmão Naor, é mais venerável do que Marumate, pois é feito de ouro: quando ficar velho poderá ser moldado novamente. Já quando Marumate ficar frágil ou partir-se em pedaços não poderá ser refeito, pois é de pedra. O deus Jouave, que está acima dos outros deuses ao lado de Zuqueu, é mais venerável do que Barisate, que é de madeira, pois foi malhado de prata e habilidosamente lavrado pelos homens de modo a mostrar a sua magnificência. Já o seu Barisate, antes que o senhor o moldasse em deus com seu machado, estava enraizado na terra, erguendo-se ali grande e tremendo, na glória de seus ramos e flores. Agora está seco e sua seiva esvaiu-se. De sua elevada posição Marumate caiu à terra; do esplendor reduziu-se a mesquinhez. Sua face empalideceu-se, e ele mesmo foi queimado pelo fogo e consumido até as cinzas: não existe mais. E agora o senhor diz “Vou fazer-me outro hoje mesmo, e amanhã ele me preparará comida”. Pai, o fogo é mais digno de adoração do que seus deuses de ouro e prata e madeira e pedra, porque pode consumi-los. Mas tampouco o fogo chamo de deus, porque o fogo sujeita-se à água, que o apaga. A água também não considero um deus, pois é tragada pela terra; digo que a terra é mais venerável, porque vence a água. Porém a terra também não chamo de deus, pois é ressecada pelo sol; digo que o sol é mais venerável do que a terra, porque ilumina o mundo todo com seus raios. Porém o sol também não chamo de deus, porque sua luz é obscurecida quando chega a escuridão. A lua e as estrelas não chamo ainda de deuses, porque sua luz também se extingue quando passa sua hora de brilhar. Mas ouça o que vou lhe dizer, meu pai, Tera: o Deus que criou todas as coisas, ele é o verdadeiro Deus. Ele tingiu os céus e dourou o sol, e deu esplendor à lua e também às estrelas; secou a terra de entre as muitas águas, e também colocou o senhor sobre a terra e, quanto a mim, buscou-me a despeito da confusão dos meus pensamentos.

* * *

Lendas dos Judeus é uma compilação de lendas judaicas recolhidas das fontes originais do midrash (particularmente o Talmude) pelo talmudista lituano Louis Ginzberg (1873-1953). Lendas foi publicado em 6 volumes (sendo dois volumes de notas) entre 1909 e 1928.

Photo: Tim Caynes

20 de Novembro de 2009

A bacia das almas, o livro

Pormenor

É novamente aquela época do ano, quando os monges saem descalços do Monastério em busca do verdadeiro sentido do Natal – e acabam invariavelmente procurando num shopping center. Marque então esta data, pois este dia viverá na infâmia: o lançamento oficial do livro da Bacia é dia 9 de dezembro deste de ano, na capital de São Paulo.

Você deve então encontrar uma condução que o leve ao Shopping Market Place, na zona sul (Av. Dr. Chucri Zaidan, 902 – Vila Cordeiro), e dali seguir a pé para a Livraria Cultura daquele mesmo estabelecimento. A entrada é franca para quem se submete a essas coisas. Se você quiser me ver falando num debate com gente que concorda comigo, pode querer chegar a partir das 19h30.

Detalhes mais sórdidos no sáite da Editora.

Finalmente, se quiser evitar toda essa exposição e purpurina pode comprar o livro pela internet, sem precisar sair de casa.

Eu invejo você.

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Lançamento de A bacia das almas: 9 de dezembro na Livraria Cultura do Shopping Market Place, São Paulo
Av. Dr. Chucri Zaidan, 902 (Vila Cordeiro) – 19h30