Manuscritos estocados em Agosto do Anno 2009 de Nosso Senhor
26 de Agosto de 2009

Como escrever bonito na internet | Adendo

Pormenor

Adendo estilístico ao meu Como escrever bonito na internet

8. Insira parágrafos, mesmo que aleatoriamente
Um texto maciço, sem quebra de parágrafos, já é difícil de aturar na página impressa, onde a legilibilidade é muito maior e a competição muito menor do que na internet. Separe cada porção do seu assunto ou argumento (se houver algum desses) em seu próprio parágrafo. Para facilitar a leitura e aumentar o espaço de respiro, deixe ainda uma linha entre cada parágrafo.

Parágrafo Único. A nova regra culta manda inserir um novo parágrafo a cada 140 caracteres.

9. Mastigue o seu texto pelo menos uma vez
Volte atrás: revise, corrija a gramática, avalie o ritmo, mude a ordem das palavras. Troque uma expressão por outra mais potente, mais clara ou mais devidamente obscura. Se você, que é o cara, não estiver disposto a ler seu texto inteiro umas três ou quatro vezes, não espere que seu leitor deva lê-lo que seja uma.

25 de Agosto de 2009

A segunda via da identidade [3]

Irmãos Comédia

24 de Agosto de 2009

Por que desisti de servir os pobres

Goiabas Roubadas

[…] Observo o quanto a pobreza se entranha na vida dos pobres, e quanto esta somente revela muitas vezes o seu desejo mal sucedido de possuir, de ter acesso ao consumo destruidor de tudo; observo como sua situação se constrói pela sedução das mesmas coisas que seduzem e destróem os ricos. O mesmo individualismo, o mesmo egoísmo, a mesma tendência a sentir-se confortável e identificado com a posse das coisas.DESISTI DE
AJUDAR
OS POBRES,
DE SERVÍ-
LOS E DE
SALVÁ-LOS
E a adesão inegociável a um estilo de vida e modo de pensar que os prende ao mito da necessidade moderna, ao desejo mítico de evoluir e à submissão ao mito do desenvolvimento.

Igualmente a ricos, pobres e remediados estão convencidos de que o que precisam é de algo que o mercado, o dinheiro, o governo ou alguma agência pode lhes oferecer. Que serão felizes com a posse, com a pança cheia (uns com pão, outros com brioches) e com o fluir permanente do dinheiro que tudo pode e tudo resolve. E dentre estes, alguns bem intencionados estendem a mão para “incluir” outros no estilo de vida ou no patamar que alcançaram. À mão estendida de cima para baixo chamamos serviço.

Descobri ao longo dos anos que a própria posição de servir aos pobres, de compromisso com a libertação, estava cheia de superioridade, daquele tipo de superioridade que se traduz por dar ao outro o que eu tenho. Sutilmente, com meus atos, assumo que o que eu tenho ou faço era o que ele deveria ter ou fazer –Jesus não tem nenhuma boa notícia para quem serve os pobres. uma tradução percebida na sutil arrogância das tais políticas de “inclusão”, sempre buscando colocar o outro dentro da caixa onde vivo, incluído no meu estilo de vida.

[…]

Desisti de ajudar os pobres, de servi-los e de salvá-los. E isso porque tenho re-descoberto uma verdade dura: a de que Jesus não tem nenhuma boa notícia para quem serve os pobres. Jesus não veio trazer boas notícias a quem serve os pobres, ele trouxe uma boa notícia aos pobres. Ele não tem nada a dizer a outros salvadores, a quem disputa com Ele o cargo de Messias, de Redentor. A agenda de Jesus só traz uma mensagem aos que se reconhecem pobres, nus, feridos, cansados, sobrecarregados, carentes e sem esperança. Aos demais, sua agenda tem pouco ou nada a oferecer

A única maneira de permanecer com os pobres é se descobrimos que somos nós mesmos os miseráveis. É se reconhecemos a nós mesmos, ainda que bem disfarçados, naquele que está diante de nossos olhos.Deus não se apresenta em nossa capacidade de curar, mas em nossa necessidade de sermos curados. Ao encontrarmos neles nossa miséria, ao nos dar-mos conta de nossa carência, da desesperada necessidade de sermos salvos, aí nos encontramos com a agenda de Jesus.

Deus não se apresenta em nossa capacidade de curar, mas em nossa necessidade de sermos curados. Descobrir esta nossa fraqueza nos coloca sem nada para oferecer, servir, doar, mas revela nossa necessidade de sermos amados, curados e restaurados.

Desisti de servir aos pobres. Estou voltando a encontrar os pobres e me encontrar neles. Voltei a descobrir a miséria que se esconde nas vidas bem montadas de nossa falsa segurança. E com isso posso entender o Jesus que fala com leprosos e com ricos homens de negócios, com cobradores de impostos em suas festas e com enfermos miseráveis. Em sua identificação com todos e cada um Ele via o que talvez mais ninguém via: a extrema miséria e pobreza da condição humana, independente de qualquer status ou roupagem social.

***

De um texto absolutamente devastador do insubordinado Claudio Oliver. Posso ter de processá-lo por massacrar sem dó as ilusões que venho alimentando tão ternamente há anos.

Leia na íntegra clicando aqui, se tiver coragem de ser visto na rua com Deus.

22 de Agosto de 2009

ramperto.com

Grandes Navegações

Meu mano italiano Paolo, monge do Monastero de San Ramperto in Appennino (e que me conduziu por quatro ou cinco dias atordoantes pela Garfagnana italiana ano passado), acima de ser de gente boa, naturalista e ambientalista, é um fotógrafo de sinceridade e generosidade aparentemente inesgotáveis.

Meu amigo acaba de abrir seu próprio sáite de fotografia em ramperto.com. Você pode querer conferir cada seção do seu portfolio, mas não deve deixar de espiar como meu mano enxergou e capturou no começo deste ano [minha própria região d]o Brasil.

21 de Agosto de 2009

Não é completa

Manuscritos

80

Não é completa a assepsia mítica da narrativa das origens em Gênesis. Se por um lado o texto se esforça para assertar a suficiência e a solidão divinas, o próprio Deus introduz no enredo dois elementos narrativos arquetípicos que povoam e calibram os mitos e lendas de outras tradições, e por isso adentram a história carregando o seu próprio peso.

Aqui está, em primeiro lugar, a Serpente Primal, emblema de perigo, ambiguidade e sagacidade, modelo de tudo que é fluido, insidioso e fugidio – e portanto ícone suficiente da alma humana.

A serpente é a matriz de ouruboros, a cobra que morde a própria cauda – símbolo que pode representar tanto a assimilação e reinvenção do lado sombrio do eu quanto aqueles processos e comportamentos repetitivos que se retroalimentam e conduzem à estagnação, círculo vicioso que a psicologia analítica procura interromper através de intervenções pontuais.

A serpente é por natureza ambivalente: mente quando fala verdade e fala a verdade quando mente. Ela é a Sombra que espreita nos recessos da psiquê – sombra que por um lado representa um aspecto essencial do que somos, por outro promove aquelas fantasias recursivas que (para deixar claro que estou citando Joseph Campbell) impedem o espírito humano de avançar.

Nas lendas e contos de fadas a serpente é o dragão que guarda o tesouro. Ela aguarda pacientemente ali para marcar que não é possível chegar até o tesouro sem passar pela serpente – isto, não é possível encontrar a individuação sem encenar eficazmente a morte e a superação do ego.

Na tradição bíblica, espelho ainda mais desiludido e acurado da realidade, o dragão não podem nem ao menos ser morto. A serpente pode ser pisada pelo homem e o dragão pode ser precipitado do céu por Deus, mas seu último destino não é a morte: o lado sombrio do homem não pode ser eliminado sem que o próprio homem seja eliminado no processo.

No dia da individuação a serpente será lançada no lago de fogo, onde continuará a existir sem poder fazer mais mal a ninguém. Mergulhar a serpente no lago de fogo pode ser o emblema bíblico para o processo oposto: trazer à tona os processos e maquinações do inconsciente, de modo a deixar de ser conduzido por suas armadilhas.

Nasce um homem

  1. Era uma vez
  2. Adão era
  3. A teoria literária
  4. Para mim
  5. Se havia improvável graça
  6. O conflito que anima uma história
  7. A primeira blasfêmia
  8. Eu sentia ser minha obrigação
  9. Como demonstrado exemplarmente por Jesus
  10. De todos os detalhes
  11. A distinção mais antiga
  12. O homem em pé no centro
  13. Quando levantei-me do lugar
  14. Ele tinha o mundo natural aos seus pés
  15. Dois ou três personagens não bastam
  16. A proibição extrai seu poder
  17. Para caracterizar uma tragédia
  18. Pisei no andar térreo
  19. Você pode comer
  20. Um professor errante depara-se com um homem cego
  21. Nenhum outro elemento da trama
  22. Toda história sobre transgressão
  23. De todos os sonhos de que me recordo
  24. Não devemos deixar
  25. A chave, obviamente
  26. É curioso notar
  27. Para começar
  28. Neste ponto
  29. Com a entrada da serpente
  30. Dos enigmas da serpente
  31. Porém quando percebo
  32. A serpente é astuta
  33. A narrativa é límpida
  34. A serpente permanece um enigma
  35. Quando olho tempo suficiente
  36. O silêncio da história
  37. Outro resultado
  38. Individuação
  39. É o momento decisivo
  40. A ausência divina
  41. É uma pista falsa
  42. Não se trata
  43. Uma donzela encontra na floresta uma perigosa serpente
  44. A hora é agora
  45. Porque – e ignoro quantas vezes terei de voltar
  46. Alcançar a individuação
  47. Eva recua
  48. Deus sabe
  49. O motor do conflito
  50. A grande revelação
  51. Transgredir
  52. A obra da serpente
  53. Onde está a maldade
  54. O que me faz lembrar
  55. A transfiguração do conflito
  56. Que são a imitação e o jogo de espelhos
  57. O que esta história existe para mostrar
  58. É por isso
  59. É o último momento
  60. Quando volto à recordação
  61. O efeito imediato
  62. Como numa comédia de erros
  63. Minha primeira transgressão
  64. É só do lado de cá
  65. A esse princípio
  66. Não nos deverá
  67. A coisa boa
  68. Se o conflito é a graça
  69. A transgressão original
  70. Transgredir é escolher
  71. No espaço recém-aberto da minha transgressão
  72. Em si mesmo nada há de terrível
  73. O conceito teológico
  74. Bastaria a morte
  75. A ambivalência do poder
  76. A maldição do pó
  77. Há algo de terrível na autodeterminação
  78. Minha disciplina pessoal mais antiga
  79. Essa crueza
  80. Não é completa
  81. Essas histórias
  82. Na noite de ontem para hoje
  83. O outro símbolo universal
  84. A serpente é mentirosa
  85. O primeiro desdobramento
  86. Foi mais ou menos nessa época
  87. Todas as lendas
  88. Minha convicção