Manuscritos estocados em Julho do Anno 2009 de Nosso Senhor
29 de Julho de 2009

Anotações para um romance político

1984, Manuscritos, Política, Sociedade

– Todos os sistemas com mais de um ou dois indivíduos – disse o homem de sobretudo – são auto-organizatórios.

– Isso quer dizer que todos os sistemas tendem a proteger o grupo em detrimento do indivíduo. Coloque cinqüenta desconhecidos num lugar confinado e em dois dias você terá facções, líderes, simpatias, lealdades, distribuição de tarefas, alvos, legislações e sistemas de governo: auto-organização. Em alguma medida o mesmo acontece com galinhas, macacos e paramécios. Os organismos se ordenam espontaneamente em superorganismos: rebanhos ou multidões.

– O problema com as multidões é que são forças da natureza. Ninguém pode controlá-las. Com uma pessoa você pode conversar, como estamos fazendo. Uma multidão você só pode aplacar.

– A presente ilusão requer que a democracia representa a vitória final dos direitos do indivíduo e do livre-arbítrio. O que ninguém parece ser capaz de enxergar é que a aplicação da democracia, mesmo na mais inocente das formas, conduz necessariamente à tirania do coletivo. Vivemos na ilusão de que ouvimos e louvamos a liberdade individual, mas somos conduzidos pelos caprichos da multidão.

– E quem foi mesmo que disse que a loucura é a exceção no indivíduo mas a regra na multidão? Nietzsche?

– Fato é que de nada serve a sobriedade individual, porque o tirano coletivo é guiado pelo inconsciente. A democracia é o governo de loucos, está vendo?

– A monarquia e o totalitarismo são arriscados, mas na democracia não resta nem ao menos a possibilidade de um rei sensato.

– Um exemplo da insensatez da multidão: se o capricho coletivo vigente é a segurança, o que acontece é que todos submetem-se voluntariamente à vigilância. Você não vê? A vigilância é tida como inaceitável num governo totalitário, na linha do 1984 de Orwell, mas as pessoas se sujeitam como cordeirinhos (como um rebanho!) a toda e qualquer invasão de privacidade quando se trata de obedecer aos caprichos do ditador coletivo.

– Todas as salas deste edifício são monitoradas por câmeras. Você vê? As pessoas pensam que são livres, mas são instrumentos da burrice coletiva.

– Não interessa quem está monitorando, e é essa a questão. Basta ser monitorado para ser diminuído. Monitorar é invadir. Vigilância é agressão.

– E essa entidade cega vai passando a exigir de nós concessões cada vez maiores, até que tenhamos aberto mão de cada um de nossos direitos. Até que as decisões coletivas sejam precisamente tão arbitrárias quanto as do mais caprichoso ditador.

– Em sua forma mais crua o roubo pode ser uma forma de se obter aquilo de que se precisa, mas para a inteligência coletiva roubar é errado, sem exceção. Porém a mesma multidão se deleita em que as imagens e palavras da televisão ofereçam continuamente às pessoas aquilo de que não precisam. O mundo já conheceu contradição maior? É evidente que essa obsessão aberta com o desnecessário é que sustenta o império de ladrões de ambos os lados da justiça.

– Freud foi capaz de prover um mito abrangente o bastante para controlar o indivíduo, mas com o trágico passamento de Deus deixou de existir um mito capaz de controlar os impulsos da multidão.

– E mesmo a herança de Freud, que associamos a uma valorização definitiva do indivíduo, serviu apenas para satisfazer as mais antigas vontades do superorganismo. Na maior parte do tempo, na história da civilização, os loucos andaram à solta, nas ruas e nas casas, promovendo a idéia subversiva de que a loucura pode ser uma forma de lucidez ou uma estranha alternativa à ela. O que fez a psicoterapia? Por um lado, confinou os loucos em recintos isolados, onde não podem encenar a sua subversão. Por outro, o que acontece àqueles dentro da massa coletiva que sentem-se hoje mais sutilmente desviados da norma? Esses buscam voluntariamente a intervenção de terapeutas, de modo a serem capazes de se conformar. Ou seja: os loucos são mantidos fora de cena e os candidatos a loucos estão sendo constantemente monitorados. Os desvios à norma permanecem onde a multidão, que abomina a dissensão e anseia apenas por conformidade, pode controlá-los e anulá-los por completo.

– Enquanto isso as pessoas distraem-se com a ilusão de que discordam sobre assuntos importantes – coisas como o aborto, a natureza do casamento, a guerra ou a pena de morte – e estão cegas para o fato de que concordam em absolutamente tudo. Vão todos para casa nos mesmos carros e trabalham todos para o mesmo fim; são ao mesmo tempo servos fidelíssimos e completos ignorantes daquele a quem estão servindo.

* * *

Acrescentar ainda:
Devemos ser mais sutis

27 de Julho de 2009

Perdidos para o mundo

Goiabas Roubadas

Apesar das inúmeras viagens e expedições publicadas recentemente, bem como do acréscimo que a ciência tem recebido em informação geográfica, o Brasil permanece em grande parte oculto do mundo em geral, tendo todas as tentativas de se obter informação a respeito dele sido diligentemente impedidas pelo governo português, tanto na própria colônia quanto na Europa.

Ao longo de um século depois de sua descoberta os missionários jesuítas mostraram-se infatigáveis em seus esforços de angariar algum conhecimento sobre o interior do Brasil, seus recursos animais, vegetais e minerais; e, sendo as descobertas que faziam enviadas anualmente para o colégio jesuíta da Bahia, foram detalhadas e registradas nas crônicas da ordem, tendo servido de base para todas as publicações subsequentes a respeito dessa porção da América do Sul.

Esses padres mantinham a mais ampla comunicação, via correspondência, com todas as regiões da América do Sul, especialmente com seus irmãos no Peru e no Paraguai; e, em virtude do enorme corpo de informação que, como resultado, possuía cada um dos diferentes superiores, a mais completa e acurada das obras científicas poderia ter sido finalmente produzida; esse projeto, no entanto, foi cortado na raiz pelo ciúme fatal do governo, o qual, perto do final do século dezessete, proibiu seu seguimento, deixando de permitir ainda que se produzisse qualquer publicação subsequente sobre o assunto.

Comunicados secretos continuaram, entretanto, sendo remetidos ao colégio e registrados por ele; esses porém estão provavelmente perdidos para o mundo, visto que jazem soterrados indiscriminadamente entre outros numerosos manuscritos na sala adjacente ao antigo monastério da ordem, onde têm permanecido pelos últimos quarenta anos, inteiramente negligenciados, decompondo-se agora em ritmo acelerado e reduzindo-se a pó.

Narrativa de uma Viagem ao Brasil
Thomas Lindley
J. Johnson, St. Paul’s Church-yard
London, 1805

26 de Julho de 2009

Anjo da morte

Fotografia

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Featured in the Teatro Grotesco

25 de Julho de 2009

Podem passar a sacolinha

Gírias e Falares

ou, o verdadeiro significado de “Bacia das Almas”.

Faz sentido.

Anos depois de publicar esta explicação (obviamente inventada, mas não por mim) para a origem da expressão “bacia das almas”, encontro esta plausível (mas não menos reveladora) definição no Dicionário Aulete digital:

Bacia das almas
1 Prato ou recipiente em que são depositadas as esmolas, nas igrejas.
2 Fig. Situação dramática, desesperadora, crítica.

24 de Julho de 2009

A maldição do pó

Manuscritos

A maldição do pó me persegue, e nada há que me livre dela. Quando penso que estou finalmente em pé, avançando a passos largos rumo a um alvo glorioso, descubro que estou de rosto no chão com a boca cheia de poeira.

Maldita é a terra por sua causa, Deus explica a Adão, e isso explica tudo. O homem terá de suar para extrair alguma produtividade de seu próprio solo estéril,Tudo que o homem semear, isso não colherá. e ainda assim, quando plantar frutas e verduras, essa terra insubordinada “lhe produzirá espinhos e ervas daninhas”.

O homem e a mulher não foram amaldiçoados, mas a terra da qual fomos moldados é declarada maldita. Todas as minhas iniciativas são frustradas e nada pode me salvar, porque o que precisa de redenção é minha matéria-prima. Planto sonhos e colho pesadelos. Semeio admiráveis intenções e ceifo minha própria mesquinhez. O mal que não quero, esse faço. Não passo de pó, e sou portanto meu próprio túmulo: tudo que o homem semear, isso não colherá.

A serpente, que não pode ser destruída de mim, é inseparável de mim nessa condição. O homem e a mulher não foram amaldiçoados, mas a serpente que nos seduziu é declarada maldita. Sua maldição é alimentar-se continuamente de nós: e pó comerás todos os dias da tua vida. O veneno da serpente, que se alimenta diariamente de mim e em mim, contamina e torna infértil tudo que toco. O terreno que piso torna-se deserto; minhas boas intenções são pó, e ao pó voltarão.

Nasce um homem

  1. Era uma vez
  2. Adão era
  3. A teoria literária
  4. Para mim
  5. Se havia improvável graça
  6. O conflito que anima uma história
  7. A primeira blasfêmia
  8. Eu sentia ser minha obrigação
  9. Como demonstrado exemplarmente por Jesus
  10. De todos os detalhes
  11. A distinção mais antiga
  12. O homem em pé no centro
  13. Quando levantei-me do lugar
  14. Ele tinha o mundo natural aos seus pés
  15. Dois ou três personagens não bastam
  16. A proibição extrai seu poder
  17. Para caracterizar uma tragédia
  18. Pisei no andar térreo
  19. Você pode comer
  20. Um professor errante depara-se com um homem cego
  21. Nenhum outro elemento da trama
  22. Toda história sobre transgressão
  23. De todos os sonhos de que me recordo
  24. Não devemos deixar
  25. A chave, obviamente
  26. É curioso notar
  27. Para começar
  28. Neste ponto
  29. Com a entrada da serpente
  30. Dos enigmas da serpente
  31. Porém quando percebo
  32. A serpente é astuta
  33. A narrativa é límpida
  34. A serpente permanece um enigma
  35. Quando olho tempo suficiente
  36. O silêncio da história
  37. Outro resultado
  38. Individuação
  39. É o momento decisivo
  40. A ausência divina
  41. É uma pista falsa
  42. Não se trata
  43. Uma donzela encontra na floresta uma perigosa serpente
  44. A hora é agora
  45. Porque – e ignoro quantas vezes terei de voltar
  46. Alcançar a individuação
  47. Eva recua
  48. Deus sabe
  49. O motor do conflito
  50. A grande revelação
  51. Transgredir
  52. A obra da serpente
  53. Onde está a maldade
  54. O que me faz lembrar
  55. A transfiguração do conflito
  56. Que são a imitação e o jogo de espelhos
  57. O que esta história existe para mostrar
  58. É por isso
  59. É o último momento
  60. Quando volto à recordação
  61. O efeito imediato
  62. Como numa comédia de erros
  63. Minha primeira transgressão
  64. É só do lado de cá
  65. A esse princípio
  66. Não nos deverá
  67. A coisa boa
  68. Se o conflito é a graça
  69. A transgressão original
  70. Transgredir é escolher
  71. No espaço recém-aberto da minha transgressão
  72. Em si mesmo nada há de terrível
  73. O conceito teológico
  74. Bastaria a morte
  75. A ambivalência do poder
  76. A maldição do pó
  77. Há algo de terrível na autodeterminação
  78. Minha disciplina pessoal mais antiga
  79. Essa crueza
  80. Não é completa
  81. Essas histórias
  82. Na noite de ontem para hoje
  83. O outro símbolo universal
  84. A serpente é mentirosa
  85. O primeiro desdobramento
  86. Foi mais ou menos nessa época
  87. Todas as lendas
  88. Minha convicção