Manuscritos estocados em Junho do Anno 2009 de Nosso Senhor
24 de Junho de 2009

A linhagem do batismo

Manuscritos

“Arrependam-se e sejam batizados” é a primeira e mais exemplar porção do unguento que Lucas coloca na boca de Pedro para aplacar a ânsia da multidão transtornada pelo Espírito. Como que para endossar o seu caráter exemplar, a mesma fórmula reaparecerá, articulada de diferentes formas, em outros momentos-chave do livro.

A nós cabe a dupla tarefa de determinar o que essas palavras e suas demandas significavam para os que a ouviam naquela manhã, e examinar a fidelidade dessas demandas à postura e à herança do Jesus dos evangelhos.

Como se verá, os ouvintes de Pedro interpretarão a primeira injunção, “arrependam-se”, à luz da segunda, “sejam batizados”, por isso será necessário começar pelo batismo.

É importante que ao final sejamos capazes de reconhecer com clareza duas coisas. A primeira, mais evidente mas facilmente negligenciável, está em que ao dizer “sejam batizados”, Pedro não estava se referindo a (e muito menos exigindo) uma conversão voluntária e formal dos seus ouvintes ao cristianismo. Nesta altura da narrativa e da história o cristianismo não havia sido ainda inventado ou intuído em qualquer sentido importante. Os discípulos não haviam ainda ousado proferir ou apropriar-se da palavra igreja, e só daqui a duas ou três páginas (e em contexto diverso) os seguidores de Jesus serão chamados “pela primeira vez” de cristãos. O batismo como rito de entrada ao cristianismo não existia na forma de conceito ou de prática. Eram aqui judeus falando a judeus, alinhando o Deus e a fé que tinham em comum às suas mesmas promessas.

Em segundo lugar, e como que para compensar o que foi dito, aquela não era a primeira vez que os romeiros de Pentecostes ouviam o termo “batizar”. Sendo todos “judeus devotos”, podemos tomar como certo que não ignoravam as raízes profundas que a idéia de batismo (e de purificação com água em geral) tinha em sua tradição e sua prática. Quando expostos ao “sejam batizados” de Pedro, souberam ter uma idéia muito precisa do que ele estava falando e de suas implicações.

Em sua ênfase na santidade ritual, a Lei de Moisés estabelecia um enorme número de condições que tornavam pessoas e objetos “impuros” – isto é, inaptos para o serviço do Templo e dos sacrifícios. A impureza ritual era uma condição altamente contagiosa: um leproso era por definição impuro; a pessoa que tocava um leproso era contaminada pela sua condição e ficava ela mesma impura. Tudo que o imundo tocar se tornará imundo (Números 19:22).Tornava-se imediatamente impuro o homem que ejaculava, à mulher que menstruava e qualquer um que tocasse um cadáver, um osso ou um túmulo; mas tornava-se também impuro quem tocasse o corpo, a roupa ou a cama de qualquer um desses impuros de primeira instância.

Ao mesmo tempo em que esclarecia tantos e tão frequentes riscos, a Lei elencava uma série de provisões para a efetiva descontaminação de objetos e pessoas. Algumas dessas soluções envolviam a apresentação de sacrifícios, mas praticamente todas requeriam a purificação com água – seja por lavagem, aspersão ou imersão, ou ainda uma combinação desses três.

O homem que ejaculava devia “banhar seu corpo todo”, e a pessoa que tocava a cama de uma mulher menstruada devia lavar suas roupas e “banhar-se em água” (Levítico 15:16,21). Quem tocasse o cadáver de um ser humano ficava impuro por sete dias. No terceiro e no sétimo dia uma pessoa ritualmente pura devia derramar água viva (isto é, água corrente) num vaso que contivessse as cinzas de uma oferta pelo pecado; em seguida, com um ramo de hissopo, aspergiria essa água sobre a pessoa impura e seus pertences. Finalmente, no sétimo dia, o impuro devia “banhar-se em água”, e a partir do pôr do sol estaria limpo (Números 19:17-20). Depois de apresentar-se ao sacerdote e oferecer os sacrifícios requeridos, o leproso declarado limpo devia raspar todos os cabelos e pelos do corpo e em seguida “banhar o corpo em água” (Levítico 14:6-8,15-16).

O verbo hebraico para esse “banhar-se” é que foi traduzido na Septuaginta pelo grego baptizein – mergulhar, imergir, submergir, – o mesmo “batizar” que comparece no Novo Testamento e na instrução de Pedro.

A Mishná, compilada entre o primeiro e o segundo século mas fixando por escrito material muito anterior, registra as instruções complementares que a tradição estabeleceu para o cumprimento das variadas exigências da Lei. Sobre os banhos de purificação – os batismos – a Mishná explica que exigiam, em primeiro lugar, água suficiente para cobrir o corpo inteiro. Como nenhuma parte do corpo devia deixar de estar em contato com a água, o batismo de purificação requeria ainda a nudez completa; quando testemunhas eram requeridas, homens acompanhavam homens e mulheres acompanhavam mulheres. E segue estabelecendo dimensões ideais para as piscinas batismais e normas rigorosas sobre a qualidade da água que podia ou não ser utilizada.

Que era dessa forma que os judeus do tempo de Jesus enxergavam as necessidades do batismo fica claro pelo número de antigas piscinas batismais (mikvaoth) encontradas no Israel daquele período. Só em Jerusalém, e datando do primeiro século, foram encontradas 150. Os membros da seita dos essênios, que havia desenvolvido regras de pureza ainda mais exigentes (requeriam imersão completa caso um essênio fosse tocado por alguém de fora, ou mesmo por um membro inferior da comunidade) construíam, literalmente, seus edifícios ao redor de recursivas piscinas de purificação.

O requerimento principal para um estrangeiro que quisesse se converter ao judaísmo era a circuncisão, mas a partir do segundo século os textos começam a mencionar, como exigência adicional, o batismo de imersão e o sacrifício. O primeiro batismo do prosélito (isto é, convertido) representava (em conformidade com suas contrapartidas explicitadas na Lei) a sua transição do estado de estrangeiro impuro ao de judeu autorizado a entrar no Templo e participar do regime dos sacrifícios.

No tempo de Jesus não havia judeu que ignorasse, portanto, o verbo batizar, que representava em grego um conceito e um procedimento milenar da cultura hebraica.

Além de servirem para efetuar a descontaminação ritual dos que se submetiam a eles, todos os batismos cerimoniais, quer de judeus quer de prosélitos, tinham outra característica comum: eram invariavelmente realizados sem assistência pela pessoa que buscava a purificação. Mesmo quando havia testemunhas, a pessoa descia sozinha até a água e sozinha mergulhava de corpo inteiro, batizando a si mesma. Ser batizado era uma novidade e uma contravenção.Ainda que não recorramos às regras explicitas da Mishná, o exame da linguagem de Números e Levítico deverá bastar para deixar isso claro (”deve banhar-se”, etc).

Mas então surgiu em cena um personagem que introduzia na tradição uma reviravolta, oferecendo um novo discurso e um novo procedimento. Ao invés de pregar que as pessoas deviam se batizar para alcançar a purificação, esse sujeito tomou os pés pelas mãos e começou a batizar as pessoas ele mesmo. Até aquele momento o que acontecia é que as pessoas batizavam a si mesmas; “ser batizado” era uma novidade e uma contravenção. Esse procedimento mostrou-se de imediato tão singular que rendeu ao seu proponente um apelido, o de “batizador” – o Batista.

23 de Junho de 2009

Mundinho

Ilustração

Clique para ampliar. Versão semifinal do esboço armazenado aqui.

22 de Junho de 2009

O pregador da verdadeira fé

Fotografia, Goiabas Roubadas

ABRAÃO: O pregador da verdadeira fé

Quando Abraão completou vinte anos seu pai, Tera, adoeceu, e disse o seguinte a seus filhos Harã e Abraão:

– Meus filhos, eu os esconjuro pelas suas vidas a venderem para mim esses dois ídolos, pois não tenho dinheiro para pagar as nossas despesas.

Harã cumpriu o desejo de seu pai, mas quando alguém abordava Abraão a fim de comprar dele um ídolo, e perguntava o preço. ele respondia:«Não vê que ele ainda está com o machado na mão?»

– Três minas – e perguntava em seguida: – Quantos anos você tem?

Se a pessoa respondia “trinta”, ele dizia:

– Você tem trinta anos e está disposto a prestar adoração a um ídolo que acabei de fazer hoje mesmo?

O homem então ia embora. Quando outro se aproximava de Abraão e perguntava:

– Quanto é esse ídolo?

– Cinco minas – ele respondia, e perguntava novamente: – Quantos anos você tem?

– Cinquenta.

– Você tem cinquenta anos e está disposto a ajoelhar-se diante do ídolo que fiz hoje mesmo?

Diante do que o homem também ia embora.

Abraão então pegou dois ídolos, colocou-lhes uma corda ao redor do pescoço e, com os rostos voltados para baixo, começou a arrastá-los pelo chão, gritando enquanto isso:

– Quem quer comprar um ídolo de que nada se aproveita, seja para si mesmo ou para aquele que o adquire para prestar-lhe adoração? Tem boca, mas não fala; tem olhos, mas não vê; pés, mas não anda; ouvidos, mas não ouve.

As pessoas que ouviram ficaram impressionadas com as palavras de Abraão. Enquanto ele seguia pelas ruas encontrou uma velha senhora que aproximou-se dele com a intenção de comprar um ídolo, bom e grande, a fim de adorar e amar.

– Minha senhora, minha senhora – disse Abraão – não sei de nenhuma vantagem quer nos grandes quer nos pequenos, seja para os outros, seja para si mesmos. E o que houve com aquela grande estátua que a senhora comprou do meu irmão Harã, a fim de prestar adoração?

– Ladrões – respondeu ela – vieram de noite e roubaram a imagem, enquanto eu ainda estava no banho.

– Se é assim – Abraão continuou a questioná-la – como pode a senhora prestar adoração a um ídolo que não é capaz de salvar a si mesmo dos ladrões? Quanto menos será capaz de salvar os outros, gente como a senhora, do infortúnio? Como pode a senhora dizer da imagem que adora que é um deus? Se é deus, porque não salvou-se das mãos daqueles bandidos? Não, no ídolo nada se aproveita, seja para si mesmo, seja para quem o adora.

– Se é verdade o que você está dizendo – retrucou a mulher, – a quem eu deveria servir?

– Sirva o Deus dos deuses – respondeu Abraão, – o Senhor dos senhores, que criou o céu e a terra, o mar e tudo que nele há. Ele é o Deus de Ninrode e o Deus de Terá, o Deus do oriente, do ocidente, do sul e do norte. Quem é Ninrode, aquele cão, para chamar a si mesmo de Deus e para que lhe seja prestada adoração?

Abraão conseguiu abrir os olhos daquela senhora, que tornou-se zelosa missionária do verdadeiro Deus. Quando descobriu os ladrões que haviam levado seu ídolo, e eles lho devolveram, ela usou uma pedra para fazê-lo em pedaços. Enquanto vagava pelas ruas, ela gritava:

– Quem quiser salvar sua alma da destruição e ser próspero em todas as suas iniciativas, sirva o Deus de Abraão.

Dessa forma ela converteu muitos homens e mulheres à verdadeira crença.

Rumores das palavras e dos feitos da velha senhora chegaram aos ouvidos do rei, que mandou buscá-la. Quando ela compareceu o rei repreendeu-a severamente, perguntando como ela ousava servir um deus que não fosse ele mesmo.

- Você é um mentiroso – respondeu a senhora – que nega o único Deus, a essência da fé, além do qual não há deus. Você vive pela generosidade dele, mas presta adoração a outro, repudiando o verdadeiro Deus, seus ensinos e seu servo Abraão.

A senhora pagou com a vida pelo fervor da sua fé. Ninrode, no entanto, foi tomado de intensos temor e terror, porque as pessoas se mostravam cada vez mais apegadas aos ensinos de Abraão, e o rei não sabia como lidar com o homem que solapava os fundamentos da antiga fé.

A conselho dos príncipes, Ninrode organizou um festival de setes dias, ao qual todos foram ordenados comparecer em trajes de estado, usando seus adereços de ouro e prata. Através dessa manifestação de riqueza e moder, Ninrode esperava intimidar Abraão e trazê-lo de volta para a fé do rei. Através de Tera, Ninrode convidou Abraão para vir até sua presença, para que ele tivesse oportunidade de ver sua grandeza e sua riqueza, a glória de seu domínio e sua multidão de príncipes e servidores. Abraão, no entanto, recusou-se a comparecer diante do rei. Em contrapartida, Abraão concordou quando seu pai pediu que em sua ausência ele vigiasse os ídolos dele e do rei, e cuidasse deles.

Sozinho com os ídolos, e enquanto repetia as palavras “o Eterno é Deus, o Eterno é Deus”, Abraão derrubou os ídolos de seus tronos e passou a golpeá-los com um machado, começando no maior e terminando no menor. Ele despedaçava os pés de um e decepava a cabeça de outro; arrancava os olhos de um, esmagava as mãos de outro. Quando todos estavam mutilados, Abraão foi embora, mas antes colocou o machado nas mãos do maior dos ídolos.

Concluído o banquete o rei retornou, e quando viu todos os seus ídolos feitos em pedaços passou a investigar quem havia cometido o dano. Quando Abraão foi apontado como responsável pela afronta, o rei mandou chamá-lo e perguntou o motivo de seu delito.

– Não fui eu! – replicou Abraão. – Foi o ídolo grande quem despedaçou todos os outros. Não vê que ele ainda está com o machado na mão? Se não acredita em mim, pergunte e ele lhe dirá.

* * *

Lendas dos Judeus é uma compilação de lendas judaicas recolhidas das fontes originais do midrash (particularmente o Talmude) pelo talmudista lituano Louis Ginzberg (1873-1953). Lendas foi publicado em 6 volumes (sendo dois volumes de notas) entre 1909 e 1928.

21 de Junho de 2009

www.historiaambiental.org

História, Recomendações

A Rede Brasileira de História Ambiental é pilotada pelo meu amigo renascentista Alessandro Casagrande, membro do Instituto Histórico e Geográfico do Paraná e obcecado pela História em estágio muito mais adiantado e terminal do que eu mesmo.

Mapas históricos, expedições, documentos, fotos, vídeos, entrevistas, artigos exclusivos e reflexões apaixonadas sobre a desconcertante história ambiental do Brasil aguardam no sáite da Rede. Não sei o que você ainda está fazendo aqui.

20 de Junho de 2009

Uma confissão necessária

Fé e Crença

Outro dia um cristão, enfezado com a precariedade da minha profissão de fé, puxou-me de lado e pediu que eu admitisse de uma vez por todas se acredito em céu e inferno, na ressurreição e na dupla natureza, no paraíso e no lago de fogo, na divindade de Cristo e no nascimento virginal, na trindade e na criação em sete dias, na volta de Cristo sobre as nuvens e no armagedom, no anticristo e nos quatro cavaleiros, nos milagres de Jesus e nas pragas do Egito, no julgamento e na vida eterna.

A resposta eu já tinha pronta e não fique enfezado você quando me vir usando-a novamente:

– Conheço gente muito melhor do que eu – eu disse – que acredita em coisa muito pior.

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Minha fé não é aquilo em que acredito
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