Manuscritos estocados em Maio do Anno 2009 de Nosso Senhor
31 de Maio de 2009

História universal do sarcasmo de Lutero

Divino preconceito

Nenhum autor da Reforma abraça retórica mais mesquinha do que Martinho Lutero – e é certamente por essa razão que com nenhum outro me identifico mais. Lutero é em muitos sentidos meu freio; não fosse a repugnância que causam-me os seus, meus próprios textos rebaixariam-se a indignidade ainda maior.

Thomas More, Calvino e Erasmo não desconheciam o uso do insulto e a ironia, e nisso abraçavam o espírito e a retórica do humanismo que os gerara. Lutero, no entanto, não se contentava com menos do que o sarcasmo. Muitas vezes corrosivo, muitas vezes violento, ocasionalmente grosseiro e chulo, Lutero gostava (como costumo fazer) de dar a impressão de ser duro consigo mesmo, mas era invariavelmente mais duro com os outros.

Eu poderia começar por virtualmente qualquer página sua, mas talvez seja mais instrutivo pensar na disputa entre Lutero e Erasmo de Roterdã sobre a questão do livre-arbítrio. Erasmo era avesso por princípio e por propensão a abordar teologia e doutrina de forma direta; porém, incomodado diante dos furores categóricos de Lutero sobre a soberania divina, publicou em setembro de 1524 a reflexão Diatribe sobre o livre-arbítrio (De libero arbitrio diatribe).

O que se seguiu não foi uma disputa de idéias, verdades ou ortodoxias, mas um conflito de mentalidades, uma peleja de retóricas.

Na Diatribe Erasmo não defende pessoalmente a idéia do livre-arbítrio. O holandês detestava a dissensão e intuía que todos os radicalismos eram arbitrários; numa palavra, era sofisticado demais para rebaixar-se à execração categórica de Lutero. O que ele faz é apresentar ambos os lados da argumentação de forma que julga suficientemente imparcial. Sua conclusão é que a Escritura e o bom senso dão evidência tanto do livre-arbítrio humano quanto de um rigoroso controle de Deus sobre as coisas – pelo que ninguém pode ser condenado por sustentar como verdade uma coisa ou outra.

Para Lutero, que não suportava meios-termos, a conclusão aberta de Erasmo era abominação. O que Erasmo tinha de cauteloso e conciliador, Lutero tinha de inflexível e opinioso. Apelava sem rodeios à autoridade e não tinha qualquer paciência para com quem abordava os dois lados da questão. Quem não estava com ele estava contra ele; quem não estava com Deus estava com o Diabo.

Em dezembro do ano seguinte, em resposta à Diatribe, Lutero deu ao mundo O arbítrio como escravo (De servo arbitrio), e o mundo não teve dúvidas sobre quem havia vencido a disputa. O livre-arbítrio encontrara o seu algoz.

Lutero encontrou na moderação de Erasmo o terreno perfeito para espojar-se em sua retórica de renitência. Erasmo era fraco, ele era forte; Erasmo era hesitante, ele era categórico. Para Lutero, essa diferença de tonalidade e de espírito dizia tudo sobre a verdade inenerente às convicões de ambos. Tudo que ele precisava fazer era deixar isso claro, e não era homem de meias medidas.

O que aprendi com os parágrafos que seguem (os primeiros da obra de Lutero), e que pode ser acrescentado às 38 maneiras de se vencer uma argumentação?

1. Transforme o que poderia ser encarado como uma desvantagem estratégica (neste caso, a demora de Lutero em responder as objeções de Erasmo) num argumento em favor da fraqueza do seu oponente.
2. Cometa elogios que não demorem a explicar-se como insultos.
3. Recorra à compaixão como máscara da superioridade.

Tendo em vista a natureza da controvérsia, devo reconhecer que a ressalva “seja por sorte, acidente ou destino” é toque especialmente inclemente e bem executado.

* * *

Como demorei tanto a responder a sua Diatribe sobre o livre-arbítrio, meu venerável Erasmo, [. . .] alguns podem talvez ter se mostrado prontos a perguntar-se se [. . .] “então esse Macabeu, esse assertor inflexível, encontrou finalmente um antagonista digno, alguém contra quem não ousa abrir a sua boca.”

Não tenho como culpar esses homens, porque estou pronto eu mesmo a dar-lhe a mão à palmatória, como jamais fiz com homem algum. Admito não apenas o quanto você me excede em eloquência e genialidade; admito também que foi bem-sucedido em desarmar o meu espírito e minha inclinação em respondê-lo, tendo me deixado sem qualquer ânimo para a batalha. E isso você fez de duas formas: primeiro, pela sua arte de defender a sua causa do começo ao fim com tão admiráveis controle e moderação, que tornou impossível para mim ficar furioso com você; e, em segundo lugar, por ter, seja por sorte, acidente ou destino, conseguido não dizer coisa alguma sobre esse importante assunto que já não tenha sido dito antes.

Na verdade, você diz tão pouco de novidade em favor do livre-arbítrio, em relação ao que os sofistas já fizeram antes de você, que pareceu-me inteiramente desnecessário responder os argumentos que eu mesmo já refutei tantas vezes e que já foram pisoteados e reduzidos a átomos pelo invencível Lugares Comuns de Philip Melanchton. Na minha opinião essa obra merece ser não apenas imortalizada, mas canonizada. Tão mesquinha e sem valor pareceu-me a sua, comparada àquela, que enchi-me de sincera compaixão por você, por ter poluído sua dicção engenhosa e elegante com argumento tão indecoroso; indignei-me sobremaneira com a imundícia do seu assunto, por ser apresentado numa sorte de eloquência tão ricamente ornamentada. É como se a sujeira da casa ou do estábulo fosse carregada nos ombros de homens em vasos de ouro e prata.

30 de Maio de 2009

Auto-Tune the news

Grandes Navegações

Atualização de 30/05
Alguém chamou-me a atenção para o fato de que Martin Luther King também sabe cantar: I have a dream.

* * *

It doesn’t get any better than that. A cultura da remixagem atingiu seu nirvana, seu formidável ápice, diante dos nossos olhos.

Auto-tune é um processador de áudio usado para corrigir as performance de cantores durante shows e gravações em estúdio. Foi esse afinador digital que possibilitou milagres da ciência moderna como discos da Xuxa.

The Gregory Brothers, quem quer que sejam, colocaram finalmente esse recurso para bom uso: remixagens humorísticas, melódicas e hipnóticas de jornais de televisão.

Clique na imagem para assistir. Não tem como ficar muito melhor do que isso.

Também aqui e aqui.

29 de Maio de 2009

A transgressão original

Manuscritos

69

A transgressão original é portanto divina, no que Deus violou sua própria Suficiência ao criar o homem “à sua imagem e semelhança” – isto é, tomando a si mesmo como modelo. Porém toda a atenção que o artista concedeu à reprodução do original, toda a diligência com que Deus gravou suas próprias características na carne virgem do primeiro homem adulto, não bastaram para garantir uma identidade imediata, uma relação verdadeira de correspondência, entre o ser humano e a divindade.

Ao concluir a estátua humana Deus julgou que tudo que fizera era “muito bom”, mas teve que esperar o instante posterior à transgressão para proferir um definitivo “tornou-se como um de nós”.

Ao produzir uma primeira iteração de si mesmo, uma entidade potente e independente como o modelo do qual fora formado, Deus colocara em cena um formidável Outro que deveria idealmente corresponder a ele mesmo. Paradoxalmente, só depois da trangressão humana (que é necessariamente reflexo da divina) a obra estava completa, mas o algoritmo da criação/transgressão estava agora livre para produzir novas e impensáveis iterações.

O protagonista não precisava de nada até que entrou em cena o conflito – e o protagonista desta história, deve ficar muito claro, é o próprio Deus. É seu o dilema, é seu o conflito. Deus não precisava de nada, mas o homem é sua transgressão. A Bíblia é sua confissão.

E este, diante do fruto meio comido lançado no chão e dos amigos que não respondem ao seu chamado, é o seu primeiro momento verdadeiramente dramático. É o seu instante “criei um monstro”, em que Deus experimenta todas as consequências do conceito de reprodução.

O protagonista fora exemplarmente imitado em sua potência e não estava mais sozinho. Um conflito gera outro, e a mais bem-intencionada transgressão não permanece impune em termos narrativos, porque qualquer um que está conosco no palco – mesmo nosso pai, mesmo nosso filho – é nosso antagonista.

Ao criar um Outro, Deus se tornara – talvez para sempre – o mais inconcebível Outro para a nova instância de si mesmo que criara.

Nasce um homem

  1. Era uma vez
  2. Adão era
  3. A teoria literária
  4. Para mim
  5. Se havia improvável graça
  6. O conflito que anima uma história
  7. A primeira blasfêmia
  8. Eu sentia ser minha obrigação
  9. Como demonstrado exemplarmente por Jesus
  10. De todos os detalhes
  11. A distinção mais antiga
  12. O homem em pé no centro
  13. Quando levantei-me do lugar
  14. Ele tinha o mundo natural aos seus pés
  15. Dois ou três personagens não bastam
  16. A proibição extrai seu poder
  17. Para caracterizar uma tragédia
  18. Pisei no andar térreo
  19. Você pode comer
  20. Um professor errante depara-se com um homem cego
  21. Nenhum outro elemento da trama
  22. Toda história sobre transgressão
  23. De todos os sonhos de que me recordo
  24. Não devemos deixar
  25. A chave, obviamente
  26. É curioso notar
  27. Para começar
  28. Neste ponto
  29. Com a entrada da serpente
  30. Dos enigmas da serpente
  31. Porém quando percebo
  32. A serpente é astuta
  33. A narrativa é límpida
  34. A serpente permanece um enigma
  35. Quando olho tempo suficiente
  36. O silêncio da história
  37. Outro resultado
  38. Individuação
  39. É o momento decisivo
  40. A ausência divina
  41. É uma pista falsa
  42. Não se trata
  43. Uma donzela encontra na floresta uma perigosa serpente
  44. A hora é agora
  45. Porque – e ignoro quantas vezes terei de voltar
  46. Alcançar a individuação
  47. Eva recua
  48. Deus sabe
  49. O motor do conflito
  50. A grande revelação
  51. Transgredir
  52. A obra da serpente
  53. Onde está a maldade
  54. O que me faz lembrar
  55. A transfiguração do conflito
  56. Que são a imitação e o jogo de espelhos
  57. O que esta história existe para mostrar
  58. É por isso
  59. É o último momento
  60. Quando volto à recordação
  61. O efeito imediato
  62. Como numa comédia de erros
  63. Minha primeira transgressão
  64. É só do lado de cá
  65. A esse princípio
  66. Não nos deverá
  67. A coisa boa
  68. Se o conflito é a graça
  69. A transgressão original
  70. Transgredir é escolher
  71. No espaço recém-aberto da minha transgressão
  72. Em si mesmo nada há de terrível
  73. O conceito teológico
  74. Bastaria a morte
  75. A ambivalência do poder
  76. A maldição do pó
  77. Há algo de terrível na autodeterminação
  78. Minha disciplina pessoal mais antiga
  79. Essa crueza
  80. Não é completa
  81. Essas histórias
  82. Na noite de ontem para hoje
  83. O outro símbolo universal
  84. A serpente é mentirosa
  85. O primeiro desdobramento
  86. Foi mais ou menos nessa época
  87. Todas as lendas
  88. Minha convicção
28 de Maio de 2009

Paulo Brabo

Ilustração

27 de Maio de 2009

Sinais

Fotografia