É só do lado de cá
Manuscritos
64
É só do lado de cá, depois de atravessar no meu rio o vau da transgressão, que torno-me semelhante a Adão e Eva. É só depois de transgredir que mostramo-nos suficientemente humanos; é também, paradoxalmente, o momento em passamos a conhecer o que é ser um pouco como Deus. Desta margem da transgressão passamos a vislumbrar o quanto é assombroso e ambivalente, ao mesmo tempo belo e terrível, compartilhar de alguma parcela do destino divino e de sua divina autodeterminação.
Porque transgredir é por definição avançar com base no princípio da autodeterminação. É fazer uso da parcela de soberania que nos reservou a nossa narrativa. Mas o que descobrimos – o que Deus descobriu – é que nenhuma autonomia é isenta de contradição.
Na transgressão tornamo-nos como Deus porque (pelo exercício de nossa autonomia, pelo livre exercício daquilo que não tem outro nome além de “poder”) conhecemos inevitavelmente o bem e o mal.
| Tornamo-nos como Deus porque conhecemos o bem e o mal |
A história se esforça para tornar isso muito explícito. A única reflexão de Deus diante da transgressão do primeiro casal não diz respeito à natureza do pecado, da desobediência ou da redenção – todas categorias muito posteriores e, devemos supor, neste ponto bastante anacrônicas. A coisa que Deus diz a si mesmo depois da transgressão do ser humano é, significativamente, “o homem tornou-se como um de nós: agora ele conhece o bem e o mal”.
Ora, o mal não é inerente ao universo ou a Deus. O que aqui a narrativa nos revela sem qualquer rodeio é que Deus, ele mesmo, conhecera as contradições do bem e o mal porque ele mesmo, em alguma página anterior, havia transgredido. Falando do homem, a história fala secretamente de Deus; a trama de um é reflexo da história de outro, e existe para explicá-la.
E Deus transgredira precisamente ao fazer uso de sua autodeterminação, ao criar um ser humano que compartilhasse de alguma porção dela, “à sua imagem e semelhança”. Dessa forma o círculo se fecha: o homem é a transgressão de Deus, e as transgressões dos pais encontram inexoravelmente a liberdade dos filhos.
A vertigem está em saber que mesmo Deus não usa o poder impunemente, e ao criar o homem conhecera as complicações do bem e do mal. Como me fez ver por e-mail o Roger, mesmo diante do caráter bem-intencionado e bem-amarrado da criação (“viu que tudo era bom”), ao olhar para Adão em pé ali no centro Deus foi forçado a reconhecer que ele estar ali sozinho “não era bom” – não era suficiente, isto é, era mau. Deus conhecia, por assim dizer, a primeira complicação da sua autodeterminação, e interviu prontamente para consertá-la1.
Essa foi a primeira, mas não seria, nem de longe, a última. A liberdade tem consequências, e as consequências tem ramificações. Será preciso ser como Deus para podá-las todas. Ou não.
Nasce um homem
- Era uma vez
- Adão era
- A teoria literária
- Para mim
- Se havia improvável graça
- O conflito que anima uma história
- A primeira blasfêmia
- Eu sentia ser minha obrigação
- Como demonstrado exemplarmente por Jesus
- De todos os detalhes
- A distinção mais antiga
- O homem em pé no centro
- Quando levantei-me do lugar
- Ele tinha o mundo natural aos seus pés
- Dois ou três personagens não bastam
- A proibição extrai seu poder
- Para caracterizar uma tragédia
- Pisei no andar térreo
- Você pode comer
- Um professor errante depara-se com um homem cego
- Nenhum outro elemento da trama
- Toda história sobre transgressão
- De todos os sonhos de que me recordo
- Não devemos deixar
- A chave, obviamente
- É curioso notar
- Para começar
- Neste ponto
- Com a entrada da serpente
- Dos enigmas da serpente
- Porém quando percebo
- A serpente é astuta
- A narrativa é límpida
- A serpente permanece um enigma
- Quando olho tempo suficiente
- O silêncio da história
- Outro resultado
- Individuação
- É o momento decisivo
- A ausência divina
- É uma pista falsa
- Não se trata
- Uma donzela encontra na floresta uma perigosa serpente
- A hora é agora
- Porque – e ignoro quantas vezes terei de voltar
- Alcançar a individuação
- Eva recua
- Deus sabe
- O motor do conflito
- A grande revelação
- Transgredir
- A obra da serpente
- Onde está a maldade
- O que me faz lembrar
- A transfiguração do conflito
- Que são a imitação e o jogo de espelhos
- O que esta história existe para mostrar
- É por isso
- É o último momento
- Quando volto à recordação
- O efeito imediato
- Como numa comédia de erros
- Minha primeira transgressão
- É só do lado de cá
- A esse princípio
- Não nos deverá
- A coisa boa
- Se o conflito é a graça
- A transgressão original
- Transgredir é escolher
- No espaço recém-aberto da minha transgressão
- Em si mesmo nada há de terrível
- O conceito teológico
- Bastaria a morte
- A ambivalência do poder
- A maldição do pó
- Há algo de terrível na autodeterminação
- Minha disciplina pessoal mais antiga
- Essa crueza
- Não é completa
- Essas histórias
- Na noite de ontem para hoje
- O outro símbolo universal
- A serpente é mentirosa
- O primeiro desdobramento
- Foi mais ou menos nessa época
- Todas as lendas
- Minha convicção
- E mais, uma vez, ao falar do homem a narrativa fala de Deus. Esse “não é bom que o homem esteja só”, bem como sua solução (Deus molda para o homem uma companheira “que lhe corresponda”) refletem a conclusão divina diante da divina solidão, antes de criar o homem que lhe corresponda (“à sua imagem e semelhança”). [↩]







