Manuscritos estocados em Abril do Anno 2009 de Nosso Senhor
24 de Abril de 2009

É só do lado de cá

Manuscritos

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É só do lado de cá, depois de atravessar no meu rio o vau da transgressão, que torno-me semelhante a Adão e Eva. É só depois de transgredir que mostramo-nos suficientemente humanos; é também, paradoxalmente, o momento em passamos a conhecer o que é ser um pouco como Deus. Desta margem da transgressão passamos a vislumbrar o quanto é assombroso e ambivalente, ao mesmo tempo belo e terrível, compartilhar de alguma parcela do destino divino e de sua divina autodeterminação.

Porque transgredir é por definição avançar com base no princípio da autodeterminação. É fazer uso da parcela de soberania que nos reservou a nossa narrativa. Mas o que descobrimos – o que Deus descobriu – é que nenhuma autonomia é isenta de contradição.

Na transgressão tornamo-nos como Deus porque (pelo exercício de nossa autonomia, pelo livre exercício daquilo que não tem outro nome além de “poder”) conhecemos inevitavelmente o bem e o mal.

Tornamo-nos como Deus porque conhecemos o bem e o mal

A história se esforça para tornar isso muito explícito. A única reflexão de Deus diante da transgressão do primeiro casal não diz respeito à natureza do pecado, da desobediência ou da redenção – todas categorias muito posteriores e, devemos supor, neste ponto bastante anacrônicas. A coisa que Deus diz a si mesmo depois da transgressão do ser humano é, significativamente, “o homem tornou-se como um de nós: agora ele conhece o bem e o mal”.

Ora, o mal não é inerente ao universo ou a Deus. O que aqui a narrativa nos revela sem qualquer rodeio é que Deus, ele mesmo, conhecera as contradições do bem e o mal porque ele mesmo, em alguma página anterior, havia transgredido. Falando do homem, a história fala secretamente de Deus; a trama de um é reflexo da história de outro, e existe para explicá-la.

E Deus transgredira precisamente ao fazer uso de sua autodeterminação, ao criar um ser humano que compartilhasse de alguma porção dela, “à sua imagem e semelhança”. Dessa forma o círculo se fecha: o homem é a transgressão de Deus, e as transgressões dos pais encontram inexoravelmente a liberdade dos filhos.

A vertigem está em saber que mesmo Deus não usa o poder impunemente, e ao criar o homem conhecera as complicações do bem e do mal. Como me fez ver por e-mail o Roger, mesmo diante do caráter bem-intencionado e bem-amarrado da criação (“viu que tudo era bom”), ao olhar para Adão em pé ali no centro Deus foi forçado a reconhecer que ele estar ali sozinho “não era bom” – não era suficiente, isto é, era mau. Deus conhecia, por assim dizer, a primeira complicação da sua autodeterminação, e interviu prontamente para consertá-la1.

Essa foi a primeira, mas não seria, nem de longe, a última. A liberdade tem consequências, e as consequências tem ramificações. Será preciso ser como Deus para podá-las todas. Ou não.

Nasce um homem

  1. Era uma vez
  2. Adão era
  3. A teoria literária
  4. Para mim
  5. Se havia improvável graça
  6. O conflito que anima uma história
  7. A primeira blasfêmia
  8. Eu sentia ser minha obrigação
  9. Como demonstrado exemplarmente por Jesus
  10. De todos os detalhes
  11. A distinção mais antiga
  12. O homem em pé no centro
  13. Quando levantei-me do lugar
  14. Ele tinha o mundo natural aos seus pés
  15. Dois ou três personagens não bastam
  16. A proibição extrai seu poder
  17. Para caracterizar uma tragédia
  18. Pisei no andar térreo
  19. Você pode comer
  20. Um professor errante depara-se com um homem cego
  21. Nenhum outro elemento da trama
  22. Toda história sobre transgressão
  23. De todos os sonhos de que me recordo
  24. Não devemos deixar
  25. A chave, obviamente
  26. É curioso notar
  27. Para começar
  28. Neste ponto
  29. Com a entrada da serpente
  30. Dos enigmas da serpente
  31. Porém quando percebo
  32. A serpente é astuta
  33. A narrativa é límpida
  34. A serpente permanece um enigma
  35. Quando olho tempo suficiente
  36. O silêncio da história
  37. Outro resultado
  38. Individuação
  39. É o momento decisivo
  40. A ausência divina
  41. É uma pista falsa
  42. Não se trata
  43. Uma donzela encontra na floresta uma perigosa serpente
  44. A hora é agora
  45. Porque – e ignoro quantas vezes terei de voltar
  46. Alcançar a individuação
  47. Eva recua
  48. Deus sabe
  49. O motor do conflito
  50. A grande revelação
  51. Transgredir
  52. A obra da serpente
  53. Onde está a maldade
  54. O que me faz lembrar
  55. A transfiguração do conflito
  56. Que são a imitação e o jogo de espelhos
  57. O que esta história existe para mostrar
  58. É por isso
  59. É o último momento
  60. Quando volto à recordação
  61. O efeito imediato
  62. Como numa comédia de erros
  63. Minha primeira transgressão
  64. É só do lado de cá
  65. A esse princípio
  66. Não nos deverá
  67. A coisa boa
  68. Se o conflito é a graça
  69. A transgressão original
  70. Transgredir é escolher
  71. No espaço recém-aberto da minha transgressão
  72. Em si mesmo nada há de terrível
  73. O conceito teológico
  74. Bastaria a morte
  75. A ambivalência do poder
  76. A maldição do pó
  77. Há algo de terrível na autodeterminação
  78. Minha disciplina pessoal mais antiga
  79. Essa crueza
  80. Não é completa
  81. Essas histórias
  82. Na noite de ontem para hoje
  83. O outro símbolo universal
  84. A serpente é mentirosa
  85. O primeiro desdobramento
  86. Foi mais ou menos nessa época
  87. Todas as lendas
  88. Minha convicção
NOTAS
  1. E mais, uma vez, ao falar do homem a narrativa fala de Deus. Esse “não é bom que o homem esteja só”, bem como sua solução (Deus molda para o homem uma companheira “que lhe corresponda”) refletem a conclusão divina diante da divina solidão, antes de criar o homem que lhe corresponda (“à sua imagem e semelhança”). []
23 de Abril de 2009

Casal

Ilustração

23 de Abril de 2009

Todo ano eu lhe fazia

Ilustração

Uma cabrocha de alta classe

22 de Abril de 2009

A incubação do espírito

Manuscritos

Porque o que a ascensão serve para pontuar é que a ressurreição é solução infantilizante, insuficiente e, no fim das contas, contraproducente, se não for logo tirada do centro do palco. Se Jesus tivesse permanecido indefinidamente entre os discípulos após a ressurreição, teria sem alternativa se tornado ídolo – isto é, não seria entendido, não seria seguido, e seu terrível exemplo não seria assimilado. Se tivesse permanecido, teria na verdade anulado toda a sua obra, produzindo uma cultura paternalista e circular ao invés de um novo e admirável Espírito. Teria coberto o mundo em trevas, ao invés de se tornar a luz do mundo.

Porque intuíra essas coisas, Jesus mesmo observara: “se eu não for, ele não virá”. Se ele não fosse, a semente do Reino não chegaria a brotar; seu fermento não transtornaria a massa; seu testamento não deixaria herança.

Sua mera partida, no entanto, não produziu de imediato a solução para o problema que sua permanência não seria capaz de resolver. Sem Jesus, restou aos discípulos procurar incessantemente no céu a sua volta. Nada começou visivelmente a brotar ou a borbulhar.

O problema com uma alma iluminada é que ela produz uma grande sombra. Quanto mais admirável o exemplo, mais difícil torna-se imitá-lo. Quanto mais admirável o exemplo, menos eficaz ele se torna por essa paradoxal razão. A partida de Jesus deixara os discípulos mergulhados até o pescoço no problema paralisante da sua Sombra. De que modo imitar o mais atordoante dos exemplos? De que modo não ser completamente anulado por ele?

Inteiramente instruídos, como todos os homens, em imitar com eficácia os desejos dos outros, os discípulos viram-se totalmente incapacitados de imitar aquele que não desejava o que desejam os homens. De que forma imitar o desejo de Jesus? O que desejava Jesus? Por certo não o poder, o sucesso, o reconhecimento, o dinheiro, a performance, a aquisição, a segurança e a influência que todos desejam.

E esse Jesus, que claramente não podia ser copiado, deixara a incumbência não apenas de ser copiado pelos que tocara, mas de que esses transmitissem eficazmente a novos seguidores, essa tecnologia.

E indicou o caminho, indicando caminho algum: que apenas não saíssem de onde estavam até que o espírito começasse a brotar. A única coisa que os discípulos fizeram, portanto, enquanto esperavam pelo despertar sobrenatural de uma solução para o dilema da imitação de Jesus, foi permanecerem juntos. Não se dispersaram. Perseveraram na inclusiva unidade que jamais havia sido ousada, e essa teimosa permanência acabou produzindo, ela mesma, a solução.

Pois o que aconteceu nos dias que antecederam o Pentecostes foi precisamente o reverso do processo de vitimização que levara Jesus à cruz algumas semanas antes.

Na vitimização de Jesus, o desejo de todos pelo que todos não têm como possuir em conjunto forjara uma precária unanimidade que na verdade perpetuava e validava os antigos antagonismos e seus mecanismos. Na incubação do espírito, o desejo de todos pelo que todos podem possuir em conjunto despertara uma concórdia que recendia a eternidade e desmanchava as velhas diferenças no abraço da reconciliação.

Na fermentação da morte, o desejo mimético da comunidade de Jerusalém gerara uma inteligência coletiva perversa, assassina e subterrânea, que se manifestou paulatinamente em todos e terminou não beneficiando ninguém. Na incubação do espírito, o desejo mimético da comunidade dos discípulos despertou uma inteligência coletiva benigna, radiante e iluminante, que veio à tona simultaneamente através de todos e a todos beneficiou.

A imitação de Satanás produzira um crescendo irresistível de morte e exclusão. A imitação de Jesus culminou com um testemunho comunitário sem precedentes, com o legítimo transpor de barreiras ancestrais e com a efetiva inclusão de todos.

A imitação de Satanás é o pacto dissimulado da morte; a imitação de Jesus é a sinergia à descoberto da vida.

Pois o derramar do Espírito nada mais foi do que a intuição conjunta do espírito de Jesus. Não é de admirar que os trovões tenham baixado à terra e as línguas da luz divina tenham afagado as frontes. Naquela manhã os discípulos chegaram sem aviso e simultaneamente a uma conclusão ao mesmo tempo muito espiritual e muito terra-a-terra: que desejavam todos uma mesma coisa, e essa coisa era coisa nenhuma – ou, para ser mais exato, a coisa constantemente desejada por Jesus.

O processo de Satanás não fora apenas exposto, mas efetivamente revertido. O desejo mimético de uma comunidade, que até aquele momento da história fora canalizado para produzir apenas morte, discórdia e ancestral antagonismo, tinha sido revertido por Deus para gerar vida, harmonia e inédita reconciliação.

Porque o que havia em Jesus para ser imitado – o que Jesus desejava – era, naturalmente, o desejo de Deus, e nada além do desejo de Deus. Ele mesmo articulara as coisas dessa forma. O que perceberam e receberam os discípulos no Pentecostes foi o vislumbre de que o Espírito de Deus (com maiúsculas) é precisamente o mesmo que o espírito (com minúsculas) que havia em Jesus.

Entenderam que ser conduzido, como todos os homens, pelo desejo dos outros homens, representa escravidão e morte. Que ser conduzido pelo desejo é o mesmo que ser consumido pelo temor, e o espírito que havia em Jesus era de não-diluídos liberdade e destemor. Compreenderam que para ser como Jesus é preciso imitá-lo no que ele desejava, a libertadora, corajosa e todo-inclusiva vontade do Pai.

É por isso, não apenas para corresponder estruturalmente à única armadilha de Satanás, mas para anulá-la por completo, produzindo inclusão ao invés de exclusão (“naquele dia agregaram-se cerca de três mil pessoas”), que a inteligência divina do Espírito teve de esperar o momento de se manifestar simultaneamente em todos e em cada um. Quando encontraram o que havia em Jesus para ser seguido, os discípulos produziram imediatamente perplexos seguidores.

Aconteceu no momento em que foram todos capazes de intuir, iluminados pela perseverança na inclusão, a solução para o dilema da imitação de Jesus. Quando entenderam que, se deixassem de desejar o desejo que paralisa e aterroriza todos os homens, poderiam ser simultaneamente eles mesmos e como Jesus.

20 de Abril de 2009

Essa pobreza

Brasil, História

“Cada colônia neste vasto continente”, afirma Abbé Raynal, “tem seus próprios idiomas, mas nenhum desses possui palavras que expressem idéias gerais ou abstratas. Essa pobreza de linguagem, comum a todas as nações da América do Sul, representa prova convincente do diminuto progresso alcançado pela compreensão humana nesses países”.

A History of Brazil, Andrew Grant, M.D.
London, Henrt Colburn, New Bond Street, 1809