À amiga imaginária que se derramava pela janela do quarto em ondas e partículas e quase se materializava nos grãozinhos de poeira que voavam como fadas ao longo da fatia de sol, ela diria:
– Quem nunca dançou entre os seus eletrodomésticos não sabe o que é estar viva. Eletrodomésticos não são só utilitários, são companhia. Não digo que sejam tipo família ou amigos, mas são entidades-que-estão-lá e nos fazem companhia, ainda mais do que xícaras coloridas ou panelas. Uma casa sem eletrodomésticos é uma coisa assustadora, você não acha? A coisa boa é que basta uma geladeira para salvar tudo, especialmente se for gordinha e vermelha e de cantos arredondados como a que herdei da vó Maruca.
E a amiga imaginária, que se chamaria Clara e estaria observando enquanto ela fazia as unhas na luz da janela, diria que já tinha notado a geladeira no canto do corredor e estava procurando uma oportunidade para comentar o quanto era maravilhosa, coisa de ilustração de livro infantil no bom sentido.
– Não é mesmo? – ela diria, absolutamente agradecida e fascinada.
E Clara, a imaginária, acrescentaria que gosta de eletrodomésticos porque eles lembram aqueles momentos da vida em que nada acontece e em que existir é só estar em casa e fazer coisas para a gente mesmo. Tipo fazer café numa cafeteira italiana com o pó que a gente comprou no Mercado Municipal ou mexer na caixa onde estão os retalhos para a colcha que ainda não chegou a hora de começar; assar um bolo ou sentir a pele rejuvenescendo debaixo da máscara ou, de olhos fechados, fazer o inventário mental de todas as partes do corpo que estão em contato com o colchão num dado momento. E em tudo isso os eletrodomésticos, como aqueles deuses familiares dos romanos, estão ao redor para nos proteger e para infundir na casa uma alma mesmo quando a gente não está ali. Como, tipo, o fogão de lenha com comida em cima e o monjolo que tritura sem parar a farinha de milho proferem a alma da casinha da tia Amélia entre os morros verdinhos e perfeitamente semicirculares da fazenda dela em Minas Gerais.
Ela perguntaria sobre a tia Amélia de Clara e combinariam que um dia pegariam o carro e sairiam juntas, armadas de barracas e repelentes e guarda-sóis, para uma visita de dois ou três dias à casa de madeira da tia Amélia que nunca se casou e suas broas de milho e geléias impossivelmente escuras de frutas vermelhas. Chegariam de surpresa trazendo o carro cheio de compras e presentes e a velha senhora ficaria grata e prepararia um quarto com edredons para dormirem as duas juntas e fariam colares de sementes e subiriam cada tarde um morro diferente e assistiriam o por-do-sol lá do alto até começarem a picar as estrelas e tirariam fotos uma da outra no celular para mandar pela internet e prometeriam que não ficariam solteiras como a tia Amélia mas se divertiriam muito antes e seriam amigas para sempre.
O telefone tocou e ela terminou de empurrar uma cutícula antes de atender.
– Que tá fazendo?
– Fazendo a unha e imaginando como seria ser a amiga imaginária de outra pessoa – ela respondeu, enquanto cheirava o gargalo da garrafinha brega de plástico de um Leite de Rosas.
– Clara, cê é bem doidinha – disse a amiga no telefone, entre deleitada e ofendida.




