Manuscritos estocados em Março do Anno 2009 de Nosso Senhor
31 de Março de 2009

A Câmara dos Deputados

Brasil, Ilustração, Politica

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Bem junto ao paço encontra-se a seu turno a Câmara dos Deputados, uma das raridades mais dignas de se ver nesta original capital imperial.

A tolice rude, a protérvia ignorante com que esses representantes da nação brasileira sustentam seus presumidos direitos e muitas vezes abdicam do essencial, para conquistarem ninharias sem importância; a arrogância ridícula com que se equiparam às nações européias, até em certos sentidos presumem ultrapassá-las mil vezes; os desaforos verdadeiramente bárbaros com que mutuamente se honram em seus discursos, pondo adequado arremate ao carnaval; tudo se ajunta para oferecer uma das mais degradantes cenas da vida pública do Brasil e do espírito coletivo, para o estrangeiro atônito que a princípio se julgava diante duma assembléia dos homens mais notáveis de uma grande nação.

A língua portuguesa já de si possui quantidade considerável de tão enérgicas, características galanterias do rancor e do vexame, mas os senhores deputados em seu zeloso ardor funcional não se contentam com isso, e ainda muitas vezes sublinham as palavras altamente escabrosas com uma mímica demasiado compreensível, indecente, para que nada se perca da sua grosseira produção1.

O alemão Carl Seidler, no mesmo Dez anos no Brasil (1835).
Seidler foi evidentemente um dos primeiros agentes da ANA.

NOTAS
  1. A língua alemã, como se sabe, também não se pode dizer pobre de tais palavras e ditos tonitroantes (sic); mas a espanhola como a portuguesa excedem-na em cem por cento. Frases como “filho de uma . . .” ou “. . . que te pariu”, que me envergonho de traduzir, certamente jamais serão pronunciadas numa assembléia alemã, nem mesmo sob outra forma (Nota do Autor). []
30 de Março de 2009

Vara de condão

Brasil, Livros

O Brasil é a terra matriz da natureza e do mundo das fadas, terra da fantasia e da insensatez, da anarquia, da especulação, terra de macacos, frades e mulatos, o estado imperial de um arlequim de traje multicor, que com sua vara de condão transforma ouro em papel, pão em pedra, homens em animais, e que, na velha pantomima Juca, o macaco brasileiro, mostra sua ascendência sobre súditos quadrúpedes.

Carl Seidler, Dez anos no Brasil (1835)

O texto integral de Dez anos no Brasil (título original Zehn jahre in Brasilien), saborosa confissão de um mercenário alemão que visitou a terra no início do século XIX e odiou rigorosamente tudo que viu, está disponível na página da série O Brasil visto por estrangeiros da Biblioteca Digital do Senado Brasileiro. O texto está em formato pdf: para ler é preciso ter instalado no seu navegador o Acrobat Reader. A leitura é um pouco truncada, visto que é preciso ler/baixar um capítulo de cada vez. Uma versão mais antiga, mas completa, pode ser subtraída das prateleiras digitais do armazém archive.org. Se você prefere o cheiro de livro antigo e a sensualidade do papel e da impressão, pode fazer como eu e comprar um exemplar usado.

Morda-se de inveja, Diogo Mainardi.

28 de Março de 2009

Comendo grama pela raiz

Recomendações

Este documento contém clipes de vídeo que só podem ser visualizados na página da Bacia na internet.

Cara série Pushing Daisies1,

Qualquer filme contemporâneo cuja ação é interrompida por um número músical inteiramente gratuito, ao mesmo tempo zombaria e menção honrosa aos musicais de Hollywood da primeira metade do século anterior, merece a minha atenção. Porém muito mais se se trata de uma história de um humor obscuro e extravagante – digamos, a história de um fazedor de tortas que tenha o dom de ressuscitar cadáveres por precisos sessenta segundos – com ecos de Tim Burton e A Pequena Loja dos Horrores e Amélie Poulain.

Lamento gravemente, Pushing Daisies (ou, como diríamos em português, “comendo grama pela raiz”), que você só tenha florescido uma temporada e meia antes de ser cortada pela raiz pela ABC, porque seus níveis de audiência não acompanharam a dura expectativa de seus produtores.

Não é estranho que uma produção tão bem amarrada com um charme tão peculiar tenha sido cancelada antes de chegar ao fim; estranho é que tenha saído do papel na primeira vez. Devo ser grato. Assim que me submeti a esta cena, no mero segundo episódio da primeira temporada, eu sabia que estava fisgado – hopelessly devoted to you.

Se a imagem estiver incompleta tente aqui.

NOTAS
  1. No Brasil a série recebeu o subtítulo de “Um toque de vida”. []
27 de Março de 2009

Quando volto à recordação

Manuscritos

60

Quando volto à recordação que deu pretexto a esta simetria, o sonho da serpente da qual tentei proteger meus amigos e que me picou gentilmente antes que eu pudesse ter eliminado por completo o seu perigo, sou deixado com um paradoxo.

Nossas narrativas são diversas, mas o paradoxo é o mesmo: ao dizer “certamente vocês não vão morrer” ao perplexo casal diante do fruto proibido, a serpente ao mesmo tempo mentiu e não mentiu.

Transgredir diante da sedução da serpente mata e paradoxalmente não mata, e nisso consiste a contradição e o poder de Satanás.

Eu transgredi e morri, porque no final do sonho fui picado pela serpente e me tornei um com ela. Girard estava certo, e acabamos nos transformando precisamente naquilo que dedicamos a vida a perseguir. Refutar a serpente é dar ouvidos à ela, e dar ouvidos à ela é imitá-la.

Eu transgredi e não morri, porque a serpente partiu e eu fiquei, com um novo desafio, um novo destino e um novo perigo nas mãos: eu mesmo. Eu transgredira e sobrevivera, e me restara a desconcertante lição de que a transgressão, mesmo quando terrível em suas consequências, não mata – embora vá requerer a morte. A trangressão não é o fim da história para ninguém (não foi para Adão, não foi para Deus); ainda pelo contrário, ela é precisamente o começo.

Não é ainda a individuação, é só seu primeiro véu.

O que devo reconhecer, antes de prosseguir, é que combater a serpente é o mesmo que ser vencido por ela. Para vencê-la é preciso esmagá-la na cabeça; isto é, é preciso não dar ouvidos ao que ela está dizendo.

E, nesta história, o que a serpente diz é que transgressão e pecado são originalmente a mesma coisa.

Nasce um homem

  1. Era uma vez
  2. Adão era
  3. A teoria literária
  4. Para mim
  5. Se havia improvável graça
  6. O conflito que anima uma história
  7. A primeira blasfêmia
  8. Eu sentia ser minha obrigação
  9. Como demonstrado exemplarmente por Jesus
  10. De todos os detalhes
  11. A distinção mais antiga
  12. O homem em pé no centro
  13. Quando levantei-me do lugar
  14. Ele tinha o mundo natural aos seus pés
  15. Dois ou três personagens não bastam
  16. A proibição extrai seu poder
  17. Para caracterizar uma tragédia
  18. Pisei no andar térreo
  19. Você pode comer
  20. Um professor errante depara-se com um homem cego
  21. Nenhum outro elemento da trama
  22. Toda história sobre transgressão
  23. De todos os sonhos de que me recordo
  24. Não devemos deixar
  25. A chave, obviamente
  26. É curioso notar
  27. Para começar
  28. Neste ponto
  29. Com a entrada da serpente
  30. Dos enigmas da serpente
  31. Porém quando percebo
  32. A serpente é astuta
  33. A narrativa é límpida
  34. A serpente permanece um enigma
  35. Quando olho tempo suficiente
  36. O silêncio da história
  37. Outro resultado
  38. Individuação
  39. É o momento decisivo
  40. A ausência divina
  41. É uma pista falsa
  42. Não se trata
  43. Uma donzela encontra na floresta uma perigosa serpente
  44. A hora é agora
  45. Porque – e ignoro quantas vezes terei de voltar
  46. Alcançar a individuação
  47. Eva recua
  48. Deus sabe
  49. O motor do conflito
  50. A grande revelação
  51. Transgredir
  52. A obra da serpente
  53. Onde está a maldade
  54. O que me faz lembrar
  55. A transfiguração do conflito
  56. Que são a imitação e o jogo de espelhos
  57. O que esta história existe para mostrar
  58. É por isso
  59. É o último momento
  60. Quando volto à recordação
  61. O efeito imediato
  62. Como numa comédia de erros
  63. Minha primeira transgressão
  64. É só do lado de cá
  65. A esse princípio
  66. Não nos deverá
  67. A coisa boa
  68. Se o conflito é a graça
  69. A transgressão original
  70. Transgredir é escolher
  71. No espaço recém-aberto da minha transgressão
  72. Em si mesmo nada há de terrível
  73. O conceito teológico
  74. Bastaria a morte
  75. A ambivalência do poder
  76. A maldição do pó
  77. Há algo de terrível na autodeterminação
  78. Minha disciplina pessoal mais antiga
  79. Essa crueza
  80. Não é completa
  81. Essas histórias
  82. Na noite de ontem para hoje
  83. O outro símbolo universal
  84. A serpente é mentirosa
  85. O primeiro desdobramento
  86. Foi mais ou menos nessa época
  87. Todas as lendas
  88. Minha convicção
26 de Março de 2009

Coccodrillo

Ilustração