Manuscritos estocados em Fevereiro do Anno 2009 de Nosso Senhor
27 de Fevereiro de 2009

Que são a imitação e o jogo de espelhos

Manuscritos

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Que são a imitação e o jogo de espelhos o vento a inflamar a tentação o texto deixa claro através de inúmeras pistas internas. Nenhuma, porém, é mais clara do que o depoimento da serpente: “[quando transgredirem] vocês serão como Deus”. A motivação do pecado é a mesma da virtude, o desejo de imitar a divindade.

Nessa sedução da serpente a narrativa deixa patente o mecanismo mais secreto e mais evidente da vontade humana. Num sentido muito fundamental (e ao contrário do que comumente se pensa), não desejamos aquilo que não temos e não temos qualquer inclinação natural a violar uma proibição. A privação e a interdição não bastam para desencadear a transgressão, porque as coisas a que não temos acesso por si mesmas não nos interessam. O que almejamos de forma irresistível é imitar o próximo. O que nos impele a desejar as coisas que não temos é a sede de ser como os outros. O primeiro homem não deseja o fruto da árvore, mas deseja ser como Deus.

Queremos em tudo imitar o próximo, pelo que nossos desejos se orientam pelo que as outras pessoas possuem, mas o que nos interessa em especial é imitar os desejos do próximo. Nosso plano-mestre é tornar nossas as ânsias dos outros, a fim de que compartilhemos vicariamente da satisfação que pertence a eles. Assim o que começa em admiração, se deixado a seus próprios recursos, termina fatalmente em rivalidade e antagonismo.

Nasce um homem

  1. Era uma vez
  2. Adão era
  3. A teoria literária
  4. Para mim
  5. Se havia improvável graça
  6. O conflito que anima uma história
  7. A primeira blasfêmia
  8. Eu sentia ser minha obrigação
  9. Como demonstrado exemplarmente por Jesus
  10. De todos os detalhes
  11. A distinção mais antiga
  12. O homem em pé no centro
  13. Quando levantei-me do lugar
  14. Ele tinha o mundo natural aos seus pés
  15. Dois ou três personagens não bastam
  16. A proibição extrai seu poder
  17. Para caracterizar uma tragédia
  18. Pisei no andar térreo
  19. Você pode comer
  20. Um professor errante depara-se com um homem cego
  21. Nenhum outro elemento da trama
  22. Toda história sobre transgressão
  23. De todos os sonhos de que me recordo
  24. Não devemos deixar
  25. A chave, obviamente
  26. É curioso notar
  27. Para começar
  28. Neste ponto
  29. Com a entrada da serpente
  30. Dos enigmas da serpente
  31. Porém quando percebo
  32. A serpente é astuta
  33. A narrativa é límpida
  34. A serpente permanece um enigma
  35. Quando olho tempo suficiente
  36. O silêncio da história
  37. Outro resultado
  38. Individuação
  39. É o momento decisivo
  40. A ausência divina
  41. É uma pista falsa
  42. Não se trata
  43. Uma donzela encontra na floresta uma perigosa serpente
  44. A hora é agora
  45. Porque – e ignoro quantas vezes terei de voltar
  46. Alcançar a individuação
  47. Eva recua
  48. Deus sabe
  49. O motor do conflito
  50. A grande revelação
  51. Transgredir
  52. A obra da serpente
  53. Onde está a maldade
  54. O que me faz lembrar
  55. A transfiguração do conflito
  56. Que são a imitação e o jogo de espelhos
  57. O que esta história existe para mostrar
  58. É por isso
  59. É o último momento
  60. Quando volto à recordação
  61. O efeito imediato
  62. Como numa comédia de erros
  63. Minha primeira transgressão
  64. É só do lado de cá
  65. A esse princípio
  66. Não nos deverá
  67. A coisa boa
  68. Se o conflito é a graça
  69. A transgressão original
  70. Transgredir é escolher
  71. No espaço recém-aberto da minha transgressão
  72. Em si mesmo nada há de terrível
  73. O conceito teológico
  74. Bastaria a morte
  75. A ambivalência do poder
  76. A maldição do pó
  77. Há algo de terrível na autodeterminação
  78. Minha disciplina pessoal mais antiga
  79. Essa crueza
  80. Não é completa
  81. Essas histórias
  82. Na noite de ontem para hoje
  83. O outro símbolo universal
  84. A serpente é mentirosa
  85. O primeiro desdobramento
  86. Foi mais ou menos nessa época
  87. Todas as lendas
  88. Minha convicção
25 de Fevereiro de 2009

Lápis de Carpinteiro

Fotografia

Parte 2: desta vez é pessoal.

Estou me transformando pouco a pouco nesta ilustração que fiz há vinte anos. Clique na foto para ampliar.

23 de Fevereiro de 2009

Prodigiosa

Brasil, Política

O Brasil é de tão prodigiosa extensão que seria impossível para o país alcançar um estado sequer mediano de perfeição sob o domínio de um só governo.

James Henderson, A HISTORY OF THE BRAZIL
Londres, 1821

20 de Fevereiro de 2009

A transfiguração do conflito

Manuscritos

55

A transfiguração do conflito ocorre quando a serpente empunha e veste um adereço que nenhum personagem havia usado até este momento: a máscara do acusador. Dizendo “Deus sabe que no momento em que comerem desse fruto os olhos de vocês se abrirão”, a serpente dá a entender, enquanto acena com essa bem-aventurança aparentemente sonegada, uma má vontade divina. Neste seu primeiro gesto está a raiz de todos os nomes associados à sua herança, particularmente “diabo”, que vem do grego diabolos – caluniador, acusador.

A vida torta que há na serpente é a acusação de um inocente, e o primeiro na Bíblia inteira a ser acusado por ela (isto é, o primeiro a ser acusado, e ponto final) é o próprio Deus. Não teria como ser diferente, porque Deus é o primeiro transgressor e portanto o primeiro a colocar a cara para bater (ou, como se diz na linguagem de Gênesis, o primeiro a conhecer o bem e o mal).

No entanto o homem compreenderá sem qualquer dificuldade a atração irresistível que há em imitar a ânsia litigiosa da serpente. Antes do fim desta mesma página, a fim de justificarem a trangressão, tanto Adão (“A mulher que me deste por companheira deu-me da árvore, e eu comi”) quanto Eva (“A serpente enganou-me, e eu comi”) terão vestido e falado através da máscara da acusação.

Através desse recurso narrativa demonstra claramente aquilo articulado por Girard, que o diabo é menos um personagem do que um mecanismo: o mecanismo da acusação alimentada pela imitação. Todos que usam a máscara do acusador imitam a serpente e são seus filhos; esses tornam-se a serpente e são a serpente.

Nasce um homem

  1. Era uma vez
  2. Adão era
  3. A teoria literária
  4. Para mim
  5. Se havia improvável graça
  6. O conflito que anima uma história
  7. A primeira blasfêmia
  8. Eu sentia ser minha obrigação
  9. Como demonstrado exemplarmente por Jesus
  10. De todos os detalhes
  11. A distinção mais antiga
  12. O homem em pé no centro
  13. Quando levantei-me do lugar
  14. Ele tinha o mundo natural aos seus pés
  15. Dois ou três personagens não bastam
  16. A proibição extrai seu poder
  17. Para caracterizar uma tragédia
  18. Pisei no andar térreo
  19. Você pode comer
  20. Um professor errante depara-se com um homem cego
  21. Nenhum outro elemento da trama
  22. Toda história sobre transgressão
  23. De todos os sonhos de que me recordo
  24. Não devemos deixar
  25. A chave, obviamente
  26. É curioso notar
  27. Para começar
  28. Neste ponto
  29. Com a entrada da serpente
  30. Dos enigmas da serpente
  31. Porém quando percebo
  32. A serpente é astuta
  33. A narrativa é límpida
  34. A serpente permanece um enigma
  35. Quando olho tempo suficiente
  36. O silêncio da história
  37. Outro resultado
  38. Individuação
  39. É o momento decisivo
  40. A ausência divina
  41. É uma pista falsa
  42. Não se trata
  43. Uma donzela encontra na floresta uma perigosa serpente
  44. A hora é agora
  45. Porque – e ignoro quantas vezes terei de voltar
  46. Alcançar a individuação
  47. Eva recua
  48. Deus sabe
  49. O motor do conflito
  50. A grande revelação
  51. Transgredir
  52. A obra da serpente
  53. Onde está a maldade
  54. O que me faz lembrar
  55. A transfiguração do conflito
  56. Que são a imitação e o jogo de espelhos
  57. O que esta história existe para mostrar
  58. É por isso
  59. É o último momento
  60. Quando volto à recordação
  61. O efeito imediato
  62. Como numa comédia de erros
  63. Minha primeira transgressão
  64. É só do lado de cá
  65. A esse princípio
  66. Não nos deverá
  67. A coisa boa
  68. Se o conflito é a graça
  69. A transgressão original
  70. Transgredir é escolher
  71. No espaço recém-aberto da minha transgressão
  72. Em si mesmo nada há de terrível
  73. O conceito teológico
  74. Bastaria a morte
  75. A ambivalência do poder
  76. A maldição do pó
  77. Há algo de terrível na autodeterminação
  78. Minha disciplina pessoal mais antiga
  79. Essa crueza
  80. Não é completa
  81. Essas histórias
  82. Na noite de ontem para hoje
  83. O outro símbolo universal
  84. A serpente é mentirosa
  85. O primeiro desdobramento
  86. Foi mais ou menos nessa época
  87. Todas as lendas
  88. Minha convicção
18 de Fevereiro de 2009

Brabo offline

Offline

Em Antonina. Clique para ampliar.

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Foto: Ramperto