23 de Maio de 2008

Você pode comer

Por   Paulo Brabo

 

Estocado em Manuscritos

– Você pode comer livremente de todas as árvores do jardim – orienta o criador ao Homem que não foi criança, – mas [1] o fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal você não deve comer. No dia em que comer dele [2] você certamente morrerá.

Pode ser necessário salientar que, em termos dramáticos, o enunciado da proibição (“nunca faça tal coisa”) é muitas vezes mais importante do que a ameaça complementar (“caso contrário tal coisa ocorrerá”). Para impulsionar a narrativa a proibição basta; a interdição já é conflito (isto é, atração) suficiente. Na maior parte das histórias, de Prometeu ao herói de Gremlins, o personagem só vai conhecer as conseqüências da sua transgressão depois de transgredir; ele ouvirá o “nunca faça tal coisa” sem ter verdadeira idéia do “caso contrário tal coisa ocorrerá”.

Deus, no entanto, oferece ao Homem a essencial proibição [1] juntamente com a não essencial explanação complementar [2]. O que implica Adão conhecer previamente o resultado da sua transgressão? Não seria suficiente a austera proibição?

De tudo que poderia ser dito sobre o assunto, e não é pouco, deve bastar o seguinte: a narrativa não existe para o protagonista, existe para o leitor.

E o leitor, incrivelmente, somos eu e você.

Nessa história a tensão inerente ao conflito é reforçada porque sabemos muito mais do que Adão jamais saberá; do nosso lugar na janela indiscreta vemos uma ameaça que Adão não pode ver, e esse prenúncio de tragédia aparece na história para nos tocar, não a ele. Adão talvez não saiba o que é morrer. Ele provavelmente não terá ferramentas para entender o conceito mesmo que lhe tenha sido explicado, mas – aqui está o ponto – nós temos.

Não apenas isso: como a narrativa existe para o leitor, a explanação “quando comer dele você morrerá” está ali para que saibamos sem sombra de dúvida que o propósito da história é explicar como num mundo perfeito a morte acabou encontrando o Homem.

A questão essencial, naturalmente, está em determinar se a morte é punição pela transgressão ou mera conseqüência dela. Para a teologia a morte é punição pela transgressão, pelo que a teologia é obcecada com a idéia da expiação do pecado. Para a narrativa, que não emite juízo, a morte é conseqüência mecânica da transgressão, não sua inevitável recompensa moral. Um interruptor foi lamentavelmente acionado, com resultados terríveis para todos os envolvidos. Haverá como consertar a situação e recuperar em alguma medida a honra dos protagonistas?

A teologia é obcecada com a expiação do pecado, mas a narrativa é obcecada com a expiação do pecador.

A Bíblia é narrativa.

Nasce um homem

  1. Era uma vez
  2. Adão era
  3. A teoria literária
  4. Para mim
  5. Se havia improvável graça
  6. O conflito que anima uma história
  7. A primeira blasfêmia
  8. Eu sentia ser minha obrigação
  9. Como demonstrado exemplarmente por Jesus
  10. De todos os detalhes
  11. A distinção mais antiga
  12. O homem em pé no centro
  13. Quando levantei-me do lugar
  14. Ele tinha o mundo natural aos seus pés
  15. Dois ou três personagens não bastam
  16. A proibição extrai seu poder
  17. Para caracterizar uma tragédia
  18. Pisei no andar térreo
  19. Você pode comer
  20. Um professor errante depara-se com um homem cego
  21. Nenhum outro elemento da trama
  22. Toda história sobre transgressão
  23. De todos os sonhos de que me recordo
  24. Não devemos deixar
  25. A chave, obviamente
  26. É curioso notar
  27. Para começar
  28. Neste ponto
  29. Com a entrada da serpente
  30. Dos enigmas da serpente
  31. Porém quando percebo
  32. A serpente é astuta
  33. A narrativa é límpida
  34. A serpente permanece um enigma
  35. Quando olho tempo suficiente
  36. O silêncio da história
  37. Outro resultado
  38. Individuação
  39. É o momento decisivo
  40. A ausência divina
  41. É uma pista falsa
  42. Não se trata
  43. Uma donzela encontra na floresta uma perigosa serpente
  44. A hora é agora
  45. Porque – e ignoro quantas vezes terei de voltar
  46. Alcançar a individuação
  47. Eva recua
  48. Deus sabe
  49. O motor do conflito
  50. A grande revelação
  51. Transgredir
  52. A obra da serpente
  53. Onde está a maldade
  54. O que me faz lembrar
  55. A transfiguração do conflito
  56. Que são a imitação e o jogo de espelhos
  57. O que esta história existe para mostrar
  58. É por isso
  59. É o último momento
  60. Quando volto à recordação
  61. O efeito imediato
  62. Como numa comédia de erros
  63. Minha primeira transgressão
  64. É só do lado de cá
  65. A esse princípio
  66. Não nos deverá
  67. A coisa boa
  68. Se o conflito é a graça
  69. A transgressão original
  70. Transgredir é escolher
  71. No espaço recém-aberto da minha transgressão
  72. Em si mesmo nada há de terrível
  73. O conceito teológico
  74. Bastaria a morte
  75. A ambivalência do poder
  76. A maldição do pó
  77. Há algo de terrível na autodeterminação
  78. Minha disciplina pessoal mais antiga
  79. Essa crueza
  80. Não é completa
  81. Essas histórias
  82. Na noite de ontem para hoje
  83. O outro símbolo universal
  84. A serpente é mentirosa
  85. O primeiro desdobramento
  86. Foi mais ou menos nessa época
  87. Todas as lendas
  88. Minha convicção

Post to Twitter



Inquisição


Arquivos
 

Versões digitais dos manuscritos da Biblioteca do Monastério de São Brabo, nas Índias Ocidentais.
Lista de entrega

Clique aqui para receber o conteúdo da Bacia por e-mail