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Toda história sobre transgressão é na verdade sobre a possibilidade e as implicações do livre-arbítrio.
Imaginemos o reverso: imaginemos uma narrativa em que os primeiros seres humanos, confrontados diante das mesmas facilidades e do eloqüente esplendor do fruto proibido, ousam um passo definitivo para trás. Por virtude ou timidez, preferem não conhecer o sabor da transgressão: recuam à casa, para o familiar abraço de Deus e sua irrestrita aprovação.
Nessa versão não contada da história os protagonistas viveriam em bem-aventurança eterna, mas o leitor – e a narrativa, será preciso constantemente lembrar, existe para o leitor – seria deixado em dúvida circular sobre o ponto essencial da trama.
O problema está em que, em termos dramáticos, nenhum final é verdadeiramente feliz antes que o conflito seja confrontado, antes que a verdadeira natureza do obstáculo seja encarada de frente. Nessa versão corrigida e correta da história o conflito teria sido apenas contornado; não teria sido vencido, pelo que a condição final dos protagonistas não poderia ser considerada literariamente satisfatória (emocionalmente satisfatória para o leitor). Em termos literários sua condição não teria, na verdade, como ser considerada final. Se o conflito não os aperta ao ponto do rompimento, se não os leva a experimentar o que poderiam efetivamente perder, somos levados a ler como ilusórios tanto a posição do obstáculo na história quanto sua resolução feliz.
E, por deixar o leitor em dúvida com relação a esse ponto fundamental, essa versão da história seria bem menos inofensiva do que parece. Teriam sido Adão e Eva verdadeiramente livres? Se o desenrolar da trama não permite que escolham o que não deve ser escolhido, como de fato saber?
Não se trata, mais uma vez, de conferir à história uma essência moral, coisa que a narrativa por si mesma não se rebaixa a fazer, mas de reconhecer nela a mais antiga especulação literária sobre a natureza da realidade. Que forças determinam a condição do ser humano? O homem é controlado pelo destino (isto é, por forças irresistíveis e externas a ele mesmo) ou pelas suas próprias escolhas? O livre-arbítrio existe ou é uma ilusão? Se existisse, quais seriam as suas consequências? Se existisse, a condição humana poderia ter um final feliz?
Para nos levar a esse espaço de simultâneos terror e legitimidade, o protagonista precisará avançar o limiar da sua zona de conforto. Para dar-nos indícios de que ele é livre e para que ele mesmo possa conhecer o terrível preço da liberdade, o conflito precisará apertar o protagonista ao ponto do irremediável. Adão e Eva precisam saber quem realmente são, e é somente depois que o narrador dirá deles que “seus olhos foram abertos”. Para conhecer quem realmente é Jonas terá de conhecer o ventre da baleia. No universo da narrativa, a transgressão é metáfora necessária para o autoconhecimento.
Este documento faz parte da série
Nasce um homem
- Era uma vez
- Adão era
- A teoria literária
- Para mim
- Se havia improvável graça
- O conflito que anima uma história
- A primeira blasfêmia
- Eu sentia ser minha obrigação
- Como demonstrado exemplarmente por Jesus
- De todos os detalhes
- A distinção mais antiga
- O homem em pé no centro
- Quando levantei-me do lugar
- Ele tinha o mundo natural aos seus pés
- Dois ou três personagens não bastam
- A proibição extrai seu poder
- Para caracterizar uma tragédia
- Pisei no andar térreo
- Você pode comer
- Um professor errante depara-se com um homem cego
- Nenhum outro elemento da trama
- Toda história sobre transgressão
- De todos os sonhos de que me recordo
- Não devemos deixar
- A chave, obviamente
- É curioso notar
- Para começar
- Neste ponto
- Com a entrada da serpente
- Dos enigmas da serpente
- Porém quando percebo
- A serpente é astuta
- A narrativa é límpida
- A serpente permanece um enigma

