13 de Junho de 2008

Toda história sobre transgressão

Por   Paulo Brabo

 

Estocado em Manuscritos

22

Toda história sobre transgressão é na verdade sobre a possibilidade e as implicações do livre-arbítrio.

Imaginemos o reverso: imaginemos uma narrativa em que os primeiros seres humanos, confrontados diante das mesmas facilidades e do eloqüente esplendor do fruto proibido, ousam um passo definitivo para trás. Por virtude ou timidez, preferem não conhecer o sabor da transgressão: recuam à casa, para o familiar abraço de Deus e sua irrestrita aprovação.

Nessa versão não contada da história os protagonistas viveriam em bem-aventurança eterna, mas o leitor – e a narrativa, será preciso constantemente lembrar, existe para o leitor – seria deixado em dúvida circular sobre o ponto essencial da trama.

O problema está em que, em termos dramáticos, nenhum final é verdadeiramente feliz antes que o conflito seja confrontado, antes que a verdadeira natureza do obstáculo seja encarada de frente. Nessa versão corrigida e correta da história o conflito teria sido apenas contornado; não teria sido vencido, pelo que a condição final dos protagonistas não poderia ser considerada literariamente satisfatória (emocionalmente satisfatória para o leitor). Em termos literários sua condição não teria, na verdade, como ser considerada final. Se o conflito não os aperta ao ponto do rompimento, se não os leva a experimentar o que poderiam efetivamente perder, somos levados a ler como ilusórios tanto a posição do obstáculo na história quanto sua resolução feliz.

E, por deixar o leitor em dúvida com relação a esse ponto fundamental, essa versão da história seria bem menos inofensiva do que parece. Teriam sido Adão e Eva verdadeiramente livres? Se o desenrolar da trama não permite que escolham o que não deve ser escolhido, como de fato saber?

Não se trata, mais uma vez, de conferir à história uma essência moral, coisa que a narrativa por si mesma não se rebaixa a fazer, mas de reconhecer nela a mais antiga especulação literária sobre a natureza da realidade. Que forças determinam a condição do ser humano? O homem é controlado pelo destino (isto é, por forças irresistíveis e externas a ele mesmo) ou pelas suas próprias escolhas? O livre-arbítrio existe ou é uma ilusão? Se existisse, quais seriam as suas consequências? Se existisse, a condição humana poderia ter um final feliz?

Para nos levar a esse espaço de simultâneos terror e legitimidade, o protagonista precisará avançar o limiar da sua zona de conforto. Para dar-nos indícios de que ele é livre e para que ele mesmo possa conhecer o terrível preço da liberdade, o conflito precisará apertar o protagonista ao ponto do irremediável. Adão e Eva precisam saber quem realmente são, e é somente depois que o narrador dirá deles que “seus olhos foram abertos”. Para conhecer quem realmente é Jonas terá de conhecer o ventre da baleia. No universo da narrativa, a transgressão é metáfora necessária para o autoconhecimento.

Nasce um homem

  1. Era uma vez
  2. Adão era
  3. A teoria literária
  4. Para mim
  5. Se havia improvável graça
  6. O conflito que anima uma história
  7. A primeira blasfêmia
  8. Eu sentia ser minha obrigação
  9. Como demonstrado exemplarmente por Jesus
  10. De todos os detalhes
  11. A distinção mais antiga
  12. O homem em pé no centro
  13. Quando levantei-me do lugar
  14. Ele tinha o mundo natural aos seus pés
  15. Dois ou três personagens não bastam
  16. A proibição extrai seu poder
  17. Para caracterizar uma tragédia
  18. Pisei no andar térreo
  19. Você pode comer
  20. Um professor errante depara-se com um homem cego
  21. Nenhum outro elemento da trama
  22. Toda história sobre transgressão
  23. De todos os sonhos de que me recordo
  24. Não devemos deixar
  25. A chave, obviamente
  26. É curioso notar
  27. Para começar
  28. Neste ponto
  29. Com a entrada da serpente
  30. Dos enigmas da serpente
  31. Porém quando percebo
  32. A serpente é astuta
  33. A narrativa é límpida
  34. A serpente permanece um enigma
  35. Quando olho tempo suficiente
  36. O silêncio da história
  37. Outro resultado
  38. Individuação
  39. É o momento decisivo
  40. A ausência divina
  41. É uma pista falsa
  42. Não se trata
  43. Uma donzela encontra na floresta uma perigosa serpente
  44. A hora é agora
  45. Porque – e ignoro quantas vezes terei de voltar
  46. Alcançar a individuação
  47. Eva recua
  48. Deus sabe
  49. O motor do conflito
  50. A grande revelação
  51. Transgredir
  52. A obra da serpente
  53. Onde está a maldade
  54. O que me faz lembrar
  55. A transfiguração do conflito
  56. Que são a imitação e o jogo de espelhos
  57. O que esta história existe para mostrar
  58. É por isso
  59. É o último momento
  60. Quando volto à recordação
  61. O efeito imediato
  62. Como numa comédia de erros
  63. Minha primeira transgressão
  64. É só do lado de cá
  65. A esse princípio
  66. Não nos deverá
  67. A coisa boa
  68. Se o conflito é a graça
  69. A transgressão original
  70. Transgredir é escolher
  71. No espaço recém-aberto da minha transgressão
  72. Em si mesmo nada há de terrível
  73. O conceito teológico
  74. Bastaria a morte
  75. A ambivalência do poder
  76. A maldição do pó
  77. Há algo de terrível na autodeterminação
  78. Minha disciplina pessoal mais antiga
  79. Essa crueza
  80. Não é completa
  81. Essas histórias
  82. Na noite de ontem para hoje
  83. O outro símbolo universal
  84. A serpente é mentirosa
  85. O primeiro desdobramento
  86. Foi mais ou menos nessa época
  87. Todas as lendas
  88. Minha convicção

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Versões digitais dos manuscritos da Biblioteca do Monastério de São Brabo, nas Índias Ocidentais.
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