14 de Maio de 2008

Tese

Por   Paulo Brabo

 

Estocado em Sonhos

Há numa moderna cidade italiana uma universidade que transforma as teses de mestrado e doutorado que lhe são submetidas em contos de fadas. Não se sabe exatamente como acontece, mas as tramas resultantes seguem muito livremente a estrutura das obras originais (o proponente da tese é o protagonista, a hipótese seu conflito, os dados nas tabelas os habitantes do reino, os nomes na bibliografia seus ajudantes mágicos, a conclusão o antagonista que deve ser eliminado). A atmosfera e o desenlace, no entanto, são invariavelmente originais ao ponto do desconcertante.

Um acadêmico que tente recuperar do arquivo da universidade uma tese que propôs se mostrará inteiramente incapaz de reconhecer a obra que ja foi sua, e será ao mesmo tempo incapaz de não reconhecer-se nela. O conto de fadas lhe deixará nos lábios o sabor agridoce da lembrança de um sonho.

* * *

Há os que acreditem que a própria cidade esteja se transformando aos poucos num local de sonho.

Numa meia-noite de 2001 eu e mais doze ou treze acadêmicos, todos de ligeiramente bêbados a um pouco mais, descemos de um ônibus num isolado e escuro bairro dessa cidade, achando que estávamos descendo numa quadra do centro que pensamos reconhecer. Em seguida descobrimos que um agente invisível havia roubado no ônibus nossas carteiras e telefones, e não tínhamos idéia de como voltar ao hotel.

Eu falava o idioma menos mal de que meus acompanhantes, pelo que deixei-os na rua e abri o portãozinho de ferro de uma casa de esquina, atravessei o caminho que serpenteava por um jardinzinho e bati na porta de uma casa inteiramente às escuras. Uma luz se acendeu lá no fundo e uma senhora mostrou o rosto na janela ao lado da porta, mas a porta que se abriu, inundando-me de luz amarela, ficava na lateral da casa, um pouco atrás de mim e à direita.

Estendeu a mão para me cumprimentar um homem muito alto, quase um gigante. Ele tinha o rosto alongado e estreito, como o de um cíclope, só que não tinha olho algum no lugar onde o único olho deveria estar. Expliquei a situação e ele me disse que, embora não tivessem telefone, eu e meus amigos podíamos passar a noite ali, desde que não ligássemos de dormir no chão do depósito dos fundos, cuja porta ele acabara de abrir.

Ajudei esse homem a empilhar numa salinha lá atrás as mesas de madeira e outros móveis que ocupavam o chão desse depósito, cujo traçado era irregular, estreito e comprido, formado apenas por ângulos agudos. Logo veio nos ajudar o seu irmão, que era idêntico a ele mas tinha um único olho azul no centro da testa, e não falava.

Num ângulo da salinha, enquanto empilhávamos as coisas, vi duas jaulas muito grandes e douradas, uma sobre a outra. Dentro delas, meio ocultos por flâmulas e pedestais e plataformas de partituras, dois homens gordos como piões, com feição de anão, faces rosadas e roupas coloridas de circo, que haviam sido presos ali por se comportarem mal.



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