15 de Fevereiro de 2008

Se havia improvável graça

Depositado por   Paulo Brabo

 

Estocado em Manuscritos

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Se havia improvável graça no corpo ainda inerte do Homem, ela havia sido colocada em movimento antes.

O primeiro capítulo da primeira história descreve como Deus moveu céu e terra para que Adão tivesse um pano de fundo sobre o qual desempenhar a sua humanidade. O homem que ainda não foi criado não estará suspenso no vazio, pairando sobre a face das águas, quando despertar do sonho da possibilidade.

O que a história não diz é porque Deus faria uma coisa dessas. O ser humano não é o mistério, o mistério é o universo.

A explicação mais comum para a embaraçosa exuberância da realidade é o amor, e há sempre muito de verdadeiro e esclarecedor nas explicações mais comuns. Deus estava apaixonado, e o universo é o elaborado presente de um amante que não tem qualquer inclinação de esconder a sua paixão. O jovem criador está mais ansioso para o seu primeiro encontro do que qualquer apaixonado jamais esteve, mas pode gastar um momento pendurando a lua e as estrelas e enchendo a noite com o perfume de açucenas e rosas. O presente deve estar perfeito e irrecusável antes que ele finalmente diga: “pode abrir os olhos”. Para que tudo seja perfeito, tudo tem de ser perfeito.

O trabalho que Deus teve para estender os limites do universo por razões românticas é ecoado, simbolicamente e diretamente, em inúmeras passagens da Escritura. É motivação que tudo justifica, mas – e aqui está a limitação das explicações mais comuns – não explica o verdadeiro mistério.

O amor não precisa de explicações; não há mistério no amor de Deus pelo homem maior do que o mistério do amor em si. O que carece de esclarecimento é a suficiência do presente, que parece projetada para ocultar o doador em vez de valorizá-lo.

Pra que tanto, meu Deus? Se queria demonstrar o seu amor pelo homem, se quisesse verdadeira intimidade com ele, não bastaria a lua, o mar e um jantar à luz de velas? Por que constelações e granizo e ornitorrincos? A paixão é generosa, mas busca mais a intimidade do que a distração.

Por que o homem precisaria de um pano de fundo que não fosse Deus?

Se desde o primeiro dia o velho Criador é movido pela mesma inabalável paixão, a graça é o que há em todos os momentos. O que a narrativa quer ao mesmo tempo ocultar e esclarecer não é a sinceridade do amor, é a natureza da transgressão.

Nasce um homem

  1. Era uma vez
  2. Adão era
  3. A teoria literária
  4. Para mim
  5. Se havia improvável graça
  6. O conflito que anima uma história
  7. A primeira blasfêmia
  8. Eu sentia ser minha obrigação
  9. Como demonstrado exemplarmente por Jesus
  10. De todos os detalhes
  11. A distinção mais antiga
  12. O homem em pé no centro
  13. Quando levantei-me do lugar
  14. Ele tinha o mundo natural aos seus pés
  15. Dois ou três personagens não bastam
  16. A proibição extrai seu poder
  17. Para caracterizar uma tragédia
  18. Pisei no andar térreo
  19. Você pode comer
  20. Um professor errante depara-se com um homem cego
  21. Nenhum outro elemento da trama
  22. Toda história sobre transgressão
  23. De todos os sonhos de que me recordo
  24. Não devemos deixar
  25. A chave, obviamente
  26. É curioso notar
  27. Para começar
  28. Neste ponto
  29. Com a entrada da serpente
  30. Dos enigmas da serpente
  31. Porém quando percebo
  32. A serpente é astuta
  33. A narrativa é límpida
  34. A serpente permanece um enigma
  35. Quando olho tempo suficiente
  36. O silêncio da história
  37. Outro resultado
  38. Individuação
  39. É o momento decisivo
  40. A ausência divina
  41. É uma pista falsa
  42. Não se trata
  43. Uma donzela encontra na floresta uma perigosa serpente
  44. A hora é agora
  45. Porque – e ignoro quantas vezes terei de voltar
  46. Alcançar a individuação
  47. Eva recua
  48. Deus sabe
  49. O motor do conflito
  50. A grande revelação
  51. Transgredir
  52. A obra da serpente
  53. Onde está a maldade
  54. O que me faz lembrar
  55. A transfiguração do conflito
  56. Que são a imitação e o jogo de espelhos
  57. O que esta história existe para mostrar
  58. É por isso
  59. É o último momento
  60. Quando volto à recordação
  61. O efeito imediato
  62. Como numa comédia de erros
  63. Minha primeira transgressão
  64. É só do lado de cá
  65. A esse princípio
  66. Não nos deverá
  67. A coisa boa
  68. Se o conflito é a graça
  69. A transgressão original
  70. Transgredir é escolher
  71. No espaço recém-aberto da minha transgressão
  72. Em si mesmo nada há de terrível
  73. O conceito teológico
  74. Bastaria a morte
  75. A ambivalência do poder
  76. A maldição do pó
  77. Há algo de terrível na autodeterminação
  78. Minha disciplina pessoal mais antiga
  79. Essa crueza
  80. Não é completa
  81. Essas histórias
  82. Na noite de ontem para hoje
  83. O outro símbolo universal
  84. A serpente é mentirosa
  85. O primeiro desdobramento
  86. Foi mais ou menos nessa época
  87. Todas as lendas
  88. Minha convicção


Inquisição


Arquivos


Versões digitais dos manuscritos da Biblioteca do Monastério de São Brabo, nas Índias Ocidentais.
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