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Se havia improvável graça no corpo ainda inerte do Homem, ela havia sido colocada em movimento antes.
O primeiro capítulo da primeira história descreve como Deus moveu céu e terra para que Adão tivesse um pano de fundo sobre o qual desempenhar a sua humanidade. O homem que ainda não foi criado não estará suspenso no vazio, pairando sobre a face das águas, quando despertar do sonho da possibilidade.
O que a história não diz é porque Deus faria uma coisa dessas. O ser humano não é o mistério, o mistério é o universo.
A explicação mais comum para a embaraçosa exuberância da realidade é o amor, e há sempre muito de verdadeiro e esclarecedor nas explicações mais comuns. Deus estava apaixonado, e o universo é o elaborado presente de um amante que não tem qualquer inclinação de esconder a sua paixão. O jovem criador está mais ansioso para o seu primeiro encontro do que qualquer apaixonado jamais esteve, mas pode gastar um momento pendurando a lua e as estrelas e enchendo a noite com o perfume de açucenas e rosas. O presente deve estar perfeito e irrecusável antes que ele finalmente diga: “pode abrir os olhos”. Para que tudo seja perfeito, tudo tem de ser perfeito.
O trabalho que Deus teve para estender os limites do universo por razões românticas é ecoado, simbolicamente e diretamente, em inúmeras passagens da Escritura. É motivação que tudo justifica, mas – e aqui está a limitação das explicações mais comuns – não explica o verdadeiro mistério.
O amor não precisa de explicações; não há mistério no amor de Deus pelo homem maior do que o mistério do amor em si. O que carece de esclarecimento é a suficiência do presente, que parece projetada para ocultar o doador em vez de valorizá-lo.
Pra que tanto, meu Deus? Se queria demonstrar o seu amor pelo homem, se quisesse verdadeira intimidade com ele, não bastaria a lua, o mar e um jantar à luz de velas? Por que constelações e granizo e ornitorrincos? A paixão é generosa, mas busca mais a intimidade do que a distração.
Por que o homem precisaria de um pano de fundo que não fosse Deus?
Se desde o primeiro dia o velho Criador é movido pela mesma inabalável paixão, a graça é o que há em todos os momentos. O que a narrativa quer ao mesmo tempo ocultar e esclarecer não é a sinceridade do amor, é a natureza da transgressão.
Este documento faz parte da série
Nasce um homem
- Era uma vez
- Adão era
- A teoria literária
- Para mim
- Se havia improvável graça
- O conflito que anima uma história
- A primeira blasfêmia
- Eu sentia ser minha obrigação
- Como demonstrado exemplarmente por Jesus
- De todos os detalhes
- A distinção mais antiga
- O homem em pé no centro
- Quando levantei-me do lugar
- Ele tinha o mundo natural aos seus pés
- Dois ou três personagens não bastam
- A proibição extrai seu poder
- Para caracterizar uma tragédia
- Pisei no andar térreo
- Você pode comer
- Um professor errante depara-se com um homem cego
- Nenhum outro elemento da trama
- Toda história sobre transgressão
- De todos os sonhos de que me recordo
- Não devemos deixar
- A chave, obviamente
- É curioso notar
- Para começar
- Neste ponto
- Com a entrada da serpente
- Dos enigmas da serpente
- Porém quando percebo
- A serpente é astuta
- A narrativa é límpida
- A serpente permanece um enigma
- Quando olho tempo suficiente
- O silêncio da história
- Outro resultado
- Individuação
- É o momento decisivo
- A ausência divina
- É uma pista falsa
- Não se trata
- Uma donzela encontra na floresta uma perigosa serpente
- A hora é agora


