11 de Abril de 2008

Quando levantei-me do lugar

Por   Paulo Brabo

 

Estocado em Manuscritos

13

Quando levantei-me do lugar com a cabeça da serpente entre os dedos o pânico ao meu redor era unânime; os que não saíram gritando da sala amontoaram-se aterrorizados num canto, enquanto levas apavoradas passavam pelo corredor, gente que havia tomado banho no banheiro comunitário e voltava para os seus alojamentos enxugando o cabelo com a toalha.

Antes que eu saísse da salinha e virasse à direita no corredor a cobra já havia enroscado o corpo ao redor do meu braço direito, apertando forte como tatuagem. Virei logo à direita de novo, tomando a escada de três lances que levava ao andar térreo. Como se a serpente fosse uma vara de Moisés, ao mesmo tempo milagre e maldição, absolutamente todos se afastavam quando me viam; os que estavam subindo a escada mudaram de rumo, os que haviam começado a descer recuaram apavorados, as mãos presas ao corrimão de metal pintado de branco.

A escada dobrava duas vezes à esquerda, e os três lances eram separados por patamares quadrangulares. Eu ainda não havia chegado ao primeiro patamar e a cobra começou a liberar veneno das presas entreabertas, gotas grossas e abundantes que estalavam sobre os degraus. Tive de desviar os pés descalços das gotas amarelas sobre o patamar, e aquilo pareceu-me ao mesmo tempo nauseante e tremendamente perigoso. Fiquei desejando não ter nenhuma ferida aberta nos pés, porque imaginei que bastava o mínimo contato para que aquele veneno fizesse o seu estrago.



Heaven's Radio
 

 
Inquisição


Arquivos
 

Versões digitais dos manuscritos da Biblioteca do Monastério de São Brabo, nas Índias Ocidentais.
Lista de entrega

Clique aqui para receber o conteúdo da Bacia por e-mail