05 de Dezembro de 2008

Porque – e ignoro quantas vezes terei de voltar

Depositado por   Paulo Brabo

 

Estocado em Manuscritos

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Porque – e ignoro quantas vezes terei de voltar a este ponto – quando fala do homem Gênesis está falando de Deus. O homem é sua imagem e projeção.

Uma das coisas que diferencia a narrativa primordial de Gênesis de outros mitos da criação é o quanto a versão bíblica desmistifica a natureza. A natureza, segundo Gênesis, é morta e artificialmente animada; nada há de espiritual nela. Não há ninfas ou espíritos da floresta: a vegetação é mera comida, armazém onipresente para consumo de animais e pessoas. Os animais têm vida mas não têm alma nem futuro nem lugar de descanso; não há elfos que os protejam, não há curupiras que os representem.

O sol não é ainda nosso irmão nem a lua nossa irmã, como mais tarde revelaria Francisco; os astros são equipamentos, utilitários: literalmente, “luminárias”. A terra não é de forma alguma nossa Mãe, mas duro receptáculo e prosaica matéria-prima.

Para o autor de Gênesis, o mundo natural é inteiramente desprovido de misticismo; sua cosmovisão é científica (para usar um termo anacrônico mas estranhamente preciso) em sua rigorosa ausência de deslumbramento.

Deus, propõe esta história, está incrivelmente ausente da natureza. O mundo natural é mero resultado da industriosa mão-de-obra divina: a natureza é sua confecção, sua criação – algo que ele fez, não algo que faça parte da sua essência ou com o que ele se digne a se identificar.

Pois desde o primeiro momento Deus não será com exclusividade o deus do trovão, o deus do Sol, o deus da colheita, o deus da fertilidade, o deus das florestas, o deus dos rios, o deus das tempestades, o deus do mar; não será o deus das moscas, dos sapos, dos chacais, o deus com cabeça de leão ou de cordeiro. Embora alegue ser criador dessas coisas, estando portanto indelevelmente associado a todas, ele se recusará terminantemente a identificar-se com qualquer uma.

A narrativa é assim, evidentemente, para que na história Deus esteja sozinho.

Neste universo Deus não tem companhia, não tem conselheiros e não tem patrocinadores. É um self-made man, e como não há qualquer recurso espiritual na natureza, ele dependerá de seus próprios recursos para resolver qualquer problema que surgir a partir da sua criação – isto é, a partir daquilo que ele fez. Deus é, precisamente como Adão, senhor do seu mundo, inteiramente viril e engenhoso e independente e livre; como o homem adulto, é plenamente capaz e empreendedor, pronto para responder pelas consequências dos seus atos.

A moral e a reviravolta da história está em que o homem é a única projeção de Deus, a única ferramenta que ele usa para falar de si mesmo. Pois embora se recuse terminantemente a identificar-se com lugares, animais ou forças da natureza, ele se identificará desde o começo, descaradamente e para sempre com o ser humano.

Nasce um homem

  1. Era uma vez
  2. Adão era
  3. A teoria literária
  4. Para mim
  5. Se havia improvável graça
  6. O conflito que anima uma história
  7. A primeira blasfêmia
  8. Eu sentia ser minha obrigação
  9. Como demonstrado exemplarmente por Jesus
  10. De todos os detalhes
  11. A distinção mais antiga
  12. O homem em pé no centro
  13. Quando levantei-me do lugar
  14. Ele tinha o mundo natural aos seus pés
  15. Dois ou três personagens não bastam
  16. A proibição extrai seu poder
  17. Para caracterizar uma tragédia
  18. Pisei no andar térreo
  19. Você pode comer
  20. Um professor errante depara-se com um homem cego
  21. Nenhum outro elemento da trama
  22. Toda história sobre transgressão
  23. De todos os sonhos de que me recordo
  24. Não devemos deixar
  25. A chave, obviamente
  26. É curioso notar
  27. Para começar
  28. Neste ponto
  29. Com a entrada da serpente
  30. Dos enigmas da serpente
  31. Porém quando percebo
  32. A serpente é astuta
  33. A narrativa é límpida
  34. A serpente permanece um enigma
  35. Quando olho tempo suficiente
  36. O silêncio da história
  37. Outro resultado
  38. Individuação
  39. É o momento decisivo
  40. A ausência divina
  41. É uma pista falsa
  42. Não se trata
  43. Uma donzela encontra na floresta uma perigosa serpente
  44. A hora é agora
  45. Porque – e ignoro quantas vezes terei de voltar
  46. Alcançar a individuação
  47. Eva recua
  48. Deus sabe
  49. O motor do conflito
  50. A grande revelação
  51. Transgredir
  52. A obra da serpente
  53. Onde está a maldade
  54. O que me faz lembrar
  55. A transfiguração do conflito
  56. Que são a imitação e o jogo de espelhos
  57. O que esta história existe para mostrar
  58. É por isso
  59. É o último momento
  60. Quando volto à recordação
  61. O efeito imediato
  62. Como numa comédia de erros
  63. Minha primeira transgressão
  64. É só do lado de cá
  65. A esse princípio
  66. Não nos deverá
  67. A coisa boa
  68. Se o conflito é a graça
  69. A transgressão original
  70. Transgredir é escolher
  71. No espaço recém-aberto da minha transgressão
  72. Em si mesmo nada há de terrível
  73. O conceito teológico
  74. Bastaria a morte
  75. A ambivalência do poder
  76. A maldição do pó
  77. Há algo de terrível na autodeterminação
  78. Minha disciplina pessoal mais antiga
  79. Essa crueza
  80. Não é completa
  81. Essas histórias
  82. Na noite de ontem para hoje
  83. O outro símbolo universal
  84. A serpente é mentirosa
  85. O primeiro desdobramento
  86. Foi mais ou menos nessa época
  87. Todas as lendas
  88. Minha convicção


Inquisição


Arquivos


Versões digitais dos manuscritos da Biblioteca do Monastério de São Brabo, nas Índias Ocidentais.
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