16 de Maio de 2008

Pisei no andar térreo

Por   Paulo Brabo

 

Estocado em Manuscritos

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Pisei no andar térreo e dei dois passos na passarela ladeada por treliças que unia este edifício ao que deveria ser um refeitório. As pessoas corriam sem rumo em todas as direções ao meu redor, exatamente como figurantes num filme de monstro. Compreendi finalmente que não havia nenhuma chance de soltar a serpente sem que ela representasse um perigo para mim mesmo ou para aquela gente.

Arqueei o corpo e coloquei um joelho no piso de cimento. Baixei devagar a serpente até o nível do chão e trouxe a mão esquerda para ajudar a direita a estrangulá-la. Apertei com toda força, inteiramente compenetrado naquilo. A cobra reagiu imediatamente, sacudindo a cabeça em violentas convulsões para todos os lados, tentando a todo custo morder-me o peito da mão. As presas me chegaram a um milímetro da pele, mas consegui mantê-las assim enquanto apertava forte com os dedos, e o bicho foi gradualmente se aquietando.

Então, como que liberada por um derradeiro relaxamento muscular, ou como se naquele último instante a cabeça tivesse finalmente se deslocado da coluna, a cobra fez avançar a mandíbula superior e me picou – uma picada mínima, quase um reflexo, quase um beijo, mas me picou. No instante seguinte estava morta e abri as mãos para que se soltasse de mim, mas não me restava autoridade para levantar.

Estava inteiramente tomado de desapontamento e de repugnância e de terror – não por imaginar que houvesse suficiente veneno na picada para me fazer mal, ou pela frustração de ter sido mordido logo naquele derradeiro momento, mas porque intuí naquela hora, com a intuição absoluta e irrevogável que só nos visita nos sonhos, que ser picado pela serpente era compartilhar da perversidade dela.



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