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Pisei no andar térreo e dei dois passos na passarela ladeada por treliças que unia este edifício ao que deveria ser um refeitório. As pessoas corriam sem rumo em todas as direções ao meu redor, exatamente como figurantes num filme de monstro. Compreendi finalmente que não havia nenhuma chance de soltar a serpente sem que ela representasse um perigo para mim mesmo ou para aquela gente.
Arqueei o corpo e coloquei um joelho no piso de cimento. Baixei devagar a serpente até o nível do chão e trouxe a mão esquerda para ajudar a direita a estrangulá-la. Apertei com toda força, inteiramente compenetrado naquilo. A cobra reagiu imediatamente, sacudindo a cabeça em violentas convulsões para todos os lados, tentando a todo custo morder-me o peito da mão. As presas me chegaram a um milímetro da pele, mas consegui mantê-las assim enquanto apertava forte com os dedos, e o bicho foi gradualmente se aquietando.
Então, como que liberada por um derradeiro relaxamento muscular, ou como se naquele último instante a cabeça tivesse finalmente se deslocado da coluna, a cobra fez avançar a mandíbula superior e me picou – uma picada mínima, quase um reflexo, quase um beijo, mas me picou. No instante seguinte estava morta e abri as mãos para que se soltasse de mim, mas não me restava autoridade para levantar.
Estava inteiramente tomado de desapontamento e de repugnância e de terror – não por imaginar que houvesse suficiente veneno na picada para me fazer mal, ou pela frustração de ter sido mordido logo naquele derradeiro momento, mas porque intuí naquela hora, com a intuição absoluta e irrevogável que só nos visita nos sonhos, que ser picado pela serpente era compartilhar da perversidade dela.
Nasce um homem
- Era uma vez
- Adão era
- A teoria literária
- Para mim
- Se havia improvável graça
- O conflito que anima uma história
- A primeira blasfêmia
- Eu sentia ser minha obrigação
- Como demonstrado exemplarmente por Jesus
- De todos os detalhes
- A distinção mais antiga
- O homem em pé no centro
- Quando levantei-me do lugar
- Ele tinha o mundo natural aos seus pés
- Dois ou três personagens não bastam
- A proibição extrai seu poder
- Para caracterizar uma tragédia
- Pisei no andar térreo
- Você pode comer
- Um professor errante depara-se com um homem cego
- Nenhum outro elemento da trama
- Toda história sobre transgressão
- De todos os sonhos de que me recordo
- Não devemos deixar
- A chave, obviamente
- É curioso notar
- Para começar
- Neste ponto
- Com a entrada da serpente
- Dos enigmas da serpente
- Porém quando percebo
- A serpente é astuta
- A narrativa é límpida
- A serpente permanece um enigma
- Quando olho tempo suficiente
- O silêncio da história
- Outro resultado
- Individuação
- É o momento decisivo
- A ausência divina
- É uma pista falsa
- Não se trata
- Uma donzela encontra na floresta uma perigosa serpente
- A hora é agora
- Porque – e ignoro quantas vezes terei de voltar
- Alcançar a individuação
- Eva recua
- Deus sabe
- O motor do conflito
- A grande revelação
- Transgredir
- A obra da serpente
- Onde está a maldade
- O que me faz lembrar
- A transfiguração do conflito
- Que são a imitação e o jogo de espelhos
- O que esta história existe para mostrar
- É por isso
- É o último momento
- Quando volto à recordação
- O efeito imediato
- Como numa comédia de erros
- Minha primeira transgressão
- É só do lado de cá
- A esse princípio
- Não nos deverá
- A coisa boa
- Se o conflito é a graça
- A transgressão original
- Transgredir é escolher
- No espaço recém-aberto da minha transgressão
- Em si mesmo nada há de terrível
- O conceito teológico
- Bastaria a morte
- A ambivalência do poder
- A maldição do pó
- Há algo de terrível na autodeterminação
- Minha disciplina pessoal mais antiga
- Essa crueza
- Não é completa
- Essas histórias
- Na noite de ontem para hoje
- O outro símbolo universal
- A serpente é mentirosa
- O primeiro desdobramento
- Foi mais ou menos nessa época
- Todas as lendas
- Minha convicção


