18 de Julho de 2008

Para começar

Entregue em consignação por   Paulo Brabo

 

Estocado em Manuscritos

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Para começar eu estava entre amigos, no que era evidentemente um retiro ou um acampamento. O Protagonista não precisava de nada, até que entrou em cena o Conflito. E a ênfase neste meu caso, como em todos, é não precisava de nada.

Carrego na minha mitologia pessoal um bom número de emblemas de bem-aventurança, mas nenhum maior do que a experiência da vida comunitária nos retiros (especialmente os de Carnaval, que duravam bons quatro dias) com o pessoal da minha igreja. Faz mais ou menos dez anos que não participo de igreja alguma, mas a lembrança daqueles dias habita meu coração com o caráter imediato e rigoroso da realidade e ainda define, para mim e diante de mim mesmo, o que é realmente estar feliz: o que é estar no Paraíso e não precisar de nada.

Eram retiros incomuns, os da minha igreja, porque arrebanhavam gente de todas as idades e não apenas categorias arbitrárias como jovens ou adolescentes. A idéia de ver convivendo juntas pessoas que traziam tantos temperamentos, histórias e pontos de vista diversos me atraía (e ainda, sem qualquer alteração, atrai) ao ponto da vertigem. Enquanto alguns reclamavam com alguma sinceridade das acomodações, da comida, da fila para o banho e da escala para lavar a louça, para mim era tudo precisamente como deveria ser: o mero júbilo, a simples vibração de estar entre pessoas, redimia o mais reles transtorno em símbolo de glória.

Devo denunciar, para tornar as coisas mais claras, que na curva primordial entre a infância e a juventude fui um sujeito muito tímido e introvertido. Minha vida interior era tão ativa e povoada quanto é hoje, mas eu não a compartilhava, em qualquer sentido e por nenhum meio, com ninguém.

Até os vinte e tantos anos eu não via no horizonte nada que pudesse mudar esse cenário, e – talvez mais importante – estava inteiramente convicto que nenhuma mudança era necessária. Para mim (como mais tarde descobri ter sido para Borges) a timidez era coisa muito importante, quase uma virtude a ser cultivada, pelo que a lembrança de glória que trago daqueles encontros é a sensação de estar com pessoas, não a de interagir com elas.

Minha introversão, na verdade, alçava-me a um ponto de vista que contribuía para consolidar minha sensação de bem-aventurança. Como o Quasímodo na versão Disney do Corcunda de Notre-Dame, observar meus amigos à distância me ajudava a distinguir com clareza o que eles mesmos não podiam ver: o tremendo, quase cegante, privilégio que era ser eles.

Eu estava entre pessoas e as amava. Para mim nada mais era necessário.

Nasce um homem

  1. Era uma vez
  2. Adão era
  3. A teoria literária
  4. Para mim
  5. Se havia improvável graça
  6. O conflito que anima uma história
  7. A primeira blasfêmia
  8. Eu sentia ser minha obrigação
  9. Como demonstrado exemplarmente por Jesus
  10. De todos os detalhes
  11. A distinção mais antiga
  12. O homem em pé no centro
  13. Quando levantei-me do lugar
  14. Ele tinha o mundo natural aos seus pés
  15. Dois ou três personagens não bastam
  16. A proibição extrai seu poder
  17. Para caracterizar uma tragédia
  18. Pisei no andar térreo
  19. Você pode comer
  20. Um professor errante depara-se com um homem cego
  21. Nenhum outro elemento da trama
  22. Toda história sobre transgressão
  23. De todos os sonhos de que me recordo
  24. Não devemos deixar
  25. A chave, obviamente
  26. É curioso notar
  27. Para começar
  28. Neste ponto
  29. Com a entrada da serpente
  30. Dos enigmas da serpente
  31. Porém quando percebo
  32. A serpente é astuta
  33. A narrativa é límpida
  34. A serpente permanece um enigma
  35. Quando olho tempo suficiente
  36. O silêncio da história
  37. Outro resultado
  38. Individuação
  39. É o momento decisivo
  40. A ausência divina
  41. É uma pista falsa
  42. Não se trata
  43. Uma donzela encontra na floresta uma perigosa serpente
  44. A hora é agora
  45. Porque – e ignoro quantas vezes terei de voltar
  46. Alcançar a individuação
  47. Eva recua
  48. Deus sabe
  49. O motor do conflito
  50. A grande revelação
  51. Transgredir
  52. A obra da serpente
  53. Onde está a maldade
  54. O que me faz lembrar
  55. A transfiguração do conflito
  56. Que são a imitação e o jogo de espelhos
  57. O que esta história existe para mostrar
  58. É por isso
  59. É o último momento
  60. Quando volto à recordação
  61. O efeito imediato
  62. Como numa comédia de erros
  63. Minha primeira transgressão
  64. É só do lado de cá
  65. A esse princípio
  66. Não nos deverá
  67. A coisa boa
  68. Se o conflito é a graça
  69. A transgressão original
  70. Transgredir é escolher
  71. No espaço recém-aberto da minha transgressão
  72. Em si mesmo nada há de terrível
  73. O conceito teológico
  74. Bastaria a morte
  75. A ambivalência do poder
  76. A maldição do pó
  77. Há algo de terrível na autodeterminação
  78. Minha disciplina pessoal mais antiga
  79. Essa crueza
  80. Não é completa
  81. Essas histórias
  82. Na noite de ontem para hoje
  83. O outro símbolo universal
  84. A serpente é mentirosa
  85. O primeiro desdobramento
  86. Foi mais ou menos nessa época
  87. Todas as lendas
  88. Minha convicção


Inquisição


Arquivos


Versões digitais dos manuscritos da Biblioteca do Monastério de São Brabo, nas Índias Ocidentais.
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