09 de Maio de 2008

Para caracterizar uma tragédia

Por   Paulo Brabo

 

Estocado em Manuscritos

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Para caracterizar uma tragédia, na definição muito estrita de Aristóteles, o reverso de fortuna que recai sobre o protagonista não pode ser provocado por um fator dramático qualquer; não deve, por exemplo, ser o resultado de um desastre natural, ou mesmo de uma falha de cárater do protagonista.

Para Aristóteles, o infortúnio da tragédia deve ser sempre desencadeado por um erro de julgamento por parte do personagem principal. No exemplo clássico, o protagonista deixa por alguma razão de reconhecer uma pessoa (com freqüência um parente próximo), e esse lapso de discernimento mostra-se danoso ao ponto do irremediável.

Essa definição de tragédia lança uma luz curiosa sobre a proibição que move a história de Adão. O primeiro homem desfruta de todas as espécies de liberdade, inclusive aquelas que não têm como compreender, mas absolutamente não deve comer o fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal – isto é, a árvore do discernimento moral.

Eis um dilema geométrico, escheriano, como a mão paradoxal que desenha a mão que está desenhando a mão. De que forma o homem pode ser capaz de discernir o mal de desobedecer, sem antes comer o fruto do discernimento moral? É como se Deus dissesse ao daltônico: “não coma a fruta vermelha da árvore que concede a habilidade de distinguir as cores”.

Para a nossa era especializada em apontar inconsistências morais, especialmente as relacionadas aos abusos de autoridade, esse cenário expõe uma falha moral por parte da divindade: Deus exige uma obediência deliberada, mas a natureza da proibição acaba contradizendo a possibilidade de se obedecê-lo de modo consciente.

A narrativa, no entanto, só existe para explicar a si mesma, e é dessa forma impermeável a qualquer consistência ou revelação moral. Do ponto de vista narrativo, o paradoxo da proibição de Adão existe para enfatizar, mais do que qualquer coisa, o quanto a transgressão deve mostrar-se inevitável no desenrolar da história – e não, como gostamos de circularmente pensar, se é Adão ou Deus o culpado definitivo por ela.

A história do primeiro homem é, por esse prisma, uma espécie particular de tragédia, uma em que o erro de julgamento do protagonista está preso a uma plataforma circular: ele é incapaz de reconhecer o quanto lhe será prejudicial ser capaz de reconhecer.

Ainda mais do que uma tragédia convencional, a história da queda de Adão parece existir para ilustrar que para se reconhecer determinadas conseqüências de uma decisão é preciso estar do lado de lá da transgressão. Em retrospecto isso faz muito sentido, já que não é da transgressão do homem que a narrativa está falando.

Nasce um homem

  1. Era uma vez
  2. Adão era
  3. A teoria literária
  4. Para mim
  5. Se havia improvável graça
  6. O conflito que anima uma história
  7. A primeira blasfêmia
  8. Eu sentia ser minha obrigação
  9. Como demonstrado exemplarmente por Jesus
  10. De todos os detalhes
  11. A distinção mais antiga
  12. O homem em pé no centro
  13. Quando levantei-me do lugar
  14. Ele tinha o mundo natural aos seus pés
  15. Dois ou três personagens não bastam
  16. A proibição extrai seu poder
  17. Para caracterizar uma tragédia
  18. Pisei no andar térreo
  19. Você pode comer
  20. Um professor errante depara-se com um homem cego
  21. Nenhum outro elemento da trama
  22. Toda história sobre transgressão
  23. De todos os sonhos de que me recordo
  24. Não devemos deixar
  25. A chave, obviamente
  26. É curioso notar
  27. Para começar
  28. Neste ponto
  29. Com a entrada da serpente
  30. Dos enigmas da serpente
  31. Porém quando percebo
  32. A serpente é astuta
  33. A narrativa é límpida
  34. A serpente permanece um enigma
  35. Quando olho tempo suficiente
  36. O silêncio da história
  37. Outro resultado
  38. Individuação
  39. É o momento decisivo
  40. A ausência divina
  41. É uma pista falsa
  42. Não se trata
  43. Uma donzela encontra na floresta uma perigosa serpente
  44. A hora é agora
  45. Porque – e ignoro quantas vezes terei de voltar
  46. Alcançar a individuação
  47. Eva recua
  48. Deus sabe
  49. O motor do conflito
  50. A grande revelação
  51. Transgredir
  52. A obra da serpente
  53. Onde está a maldade
  54. O que me faz lembrar
  55. A transfiguração do conflito
  56. Que são a imitação e o jogo de espelhos
  57. O que esta história existe para mostrar
  58. É por isso
  59. É o último momento
  60. Quando volto à recordação
  61. O efeito imediato
  62. Como numa comédia de erros
  63. Minha primeira transgressão
  64. É só do lado de cá
  65. A esse princípio
  66. Não nos deverá
  67. A coisa boa
  68. Se o conflito é a graça
  69. A transgressão original
  70. Transgredir é escolher
  71. No espaço recém-aberto da minha transgressão
  72. Em si mesmo nada há de terrível
  73. O conceito teológico
  74. Bastaria a morte
  75. A ambivalência do poder
  76. A maldição do pó
  77. Há algo de terrível na autodeterminação
  78. Minha disciplina pessoal mais antiga
  79. Essa crueza
  80. Não é completa
  81. Essas histórias
  82. Na noite de ontem para hoje
  83. O outro símbolo universal
  84. A serpente é mentirosa
  85. O primeiro desdobramento
  86. Foi mais ou menos nessa época
  87. Todas as lendas
  88. Minha convicção

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Versões digitais dos manuscritos da Biblioteca do Monastério de São Brabo, nas Índias Ocidentais.
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