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Outro resultado do recato da narrativa está em que, embora a queda traga consequências terríveis para todos os envolvidos (inclusive, é preciso lembrar, para a serpente), não temos pela letra do texto como saber se a trama se encaixa no molde clássico da tragédia.
Para Aristóteles, o que caracteriza a tragédia está em que o reverso de fortuna que desaba sobre o protagonista deve ser desencadeado por um erro de julgamento, e na história da queda simplesmente não sabemos o bastante para concluir que houve algum erro de julgamento – e, se houve, de quem foi.
O erro de julgamento poderia ter ocorrido da parte de Deus, por ter confidenciado demais à serpente (de outra forma, como a serpente poderia saber da natureza da árvore e das consequências do seu consumo?). Poderia ter sido de Adão, por não ter enfatizado o bastante os perigos da Árvore diante de Eva (de outra forma, não teria Eva se mostrado mais firmemente preparada para resistir ao seu esplendor?). Poderia ter sido de Eva, por não ter visto motivo para considerar a opinião da serpente menos digna de confiança do que a de Deus (num mundo sem maldade, como suspeitar do mal? Num mundo sem limites, como entender a única proibição?). E poderia ter sido da serpente, por ter compreendido mal uma benevolente ou inofensiva intenção divina (de outra forma, por que iria desejar a queda do homem?).
Porém, como sabemos pouco da história prévia de todos, em especial da serpente, não há como decidir. E, pela mesma razão, não há como determinar, de todos, qual é o protagonista da história.
Pelo menos ainda não.
Nasce um homem
- Era uma vez
- Adão era
- A teoria literária
- Para mim
- Se havia improvável graça
- O conflito que anima uma história
- A primeira blasfêmia
- Eu sentia ser minha obrigação
- Como demonstrado exemplarmente por Jesus
- De todos os detalhes
- A distinção mais antiga
- O homem em pé no centro
- Quando levantei-me do lugar
- Ele tinha o mundo natural aos seus pés
- Dois ou três personagens não bastam
- A proibição extrai seu poder
- Para caracterizar uma tragédia
- Pisei no andar térreo
- Você pode comer
- Um professor errante depara-se com um homem cego
- Nenhum outro elemento da trama
- Toda história sobre transgressão
- De todos os sonhos de que me recordo
- Não devemos deixar
- A chave, obviamente
- É curioso notar
- Para começar
- Neste ponto
- Com a entrada da serpente
- Dos enigmas da serpente
- Porém quando percebo
- A serpente é astuta
- A narrativa é límpida
- A serpente permanece um enigma
- Quando olho tempo suficiente
- O silêncio da história
- Outro resultado
- Individuação
- É o momento decisivo
- A ausência divina
- É uma pista falsa
- Não se trata
- Uma donzela encontra na floresta uma perigosa serpente
- A hora é agora
- Porque – e ignoro quantas vezes terei de voltar
- Alcançar a individuação
- Eva recua
- Deus sabe
- O motor do conflito
- A grande revelação
- Transgredir
- A obra da serpente
- Onde está a maldade
- O que me faz lembrar
- A transfiguração do conflito
- Que são a imitação e o jogo de espelhos
- O que esta história existe para mostrar
- É por isso
- É o último momento
- Quando volto à recordação
- O efeito imediato
- Como numa comédia de erros
- Minha primeira transgressão
- É só do lado de cá
- A esse princípio
- Não nos deverá
- A coisa boa
- Se o conflito é a graça
- A transgressão original
- Transgredir é escolher
- No espaço recém-aberto da minha transgressão
- Em si mesmo nada há de terrível
- O conceito teológico
- Bastaria a morte
- A ambivalência do poder
- A maldição do pó
- Há algo de terrível na autodeterminação
- Minha disciplina pessoal mais antiga
- Essa crueza
- Não é completa
- Essas histórias
- Na noite de ontem para hoje
- O outro símbolo universal
- A serpente é mentirosa
- O primeiro desdobramento
- Foi mais ou menos nessa época
- Todas as lendas
- Minha convicção


