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A tensão das pequenas coisas
Dos contadores de histórias que não contam suas histórias através de livros, nenhum terá me fascinado mais cedo, de forma mais desarmante e com maior freqüência do que Steven Spielberg.
Spielberg tem um vocabulário visual que é particularmente seu; um modo peculiar de enquadrar, acompanhar e fornecer ritmo à história. Encontro essa sua assinatura em todo lugar, quer o diretor esteja contando uma história de aventura, um drama ou uma comédia.
Sempre achei que esses preciosismos visuais fossem exclusividade de Spielberg, mas isso foi até ver, há alguns meses, O Salário do Medo (Le Salaire de la peur), produção ítalo-francesa de 1953 dirigida por Henri-Georges Clouzot. Encontrei em primeiro lugar um filme extraodinário, ao mesmo drama niilista, aventura deliciosa e suspense impensável (sendo que o filme, incrivelmente, não perde peso em favor ou em detrimento de qualquer uma dessas categorias).
Porém o que deixou-me inteiramente perplexo deliciado foi encontrar em Clouzot uma série de maneirismos que sempre achei serem exclusividade de Spielberg. Penso, mais do que qualquer outra coisa, na maneira como o diretor norte-americano trabalha suas sequências de modo a extrair grandes doses de suspense a partir de pequenos elementos do cenário – o copo com água começa a vibrar e pressentimos a aproximação do tiranossauro; as bóias sobem para a superfície e sabemos que o tubarão está perto.
O Salário do Medo se passa num local remoto e não especificado da América do Sul. Uma refinaria norte-americana pega fogo, e a companhia contrata quatro europeus, sujeitos dispostos a qualquer coisa se for para ganhar algum dinheiro, para levarem sertão adentro os dois caminhões de nitroglicerina necessários para apagar o incêndio.
Nesta sequência o segundo caminhão do comboio chega a um trecho da estrada em que há uma curva tão acentuada que é necessário manobrar o caminhão sobre uma plataforma de madeira suspensa sobre o abismo.
O arquivo tem 40 MB, mas se você for assistir vá até o fim. Os dois últimos minutos são particularmente spielberguianos.
(na marca de 01m33s há um corte abrupto que não faz parte do original; eliminei um diálogo em francês inteiramente incompreensível .)


