Paulo Brabo, 15 de setembro de 2008

O dilúvio

Estocado em Goiabas Roubadas

NOÉ: O dilúvio

Recolher os animais para dentro da arca foi a parte mais fácil da tarefa imposta sobre Noé. Seu maior desafio foi prover-lhes aco­mo­da­ções e comida para um ano.

Muitos anos mais tarde Sem, filho de Noé, relatou a Eliezer, servo de Abraão, a história das suas expe­ri­ên­cias com os animais dentro da arca. Eis o que ele disse:

– Tivemos enormes difi­cul­da­des na arca.  Os animais diurnos tinham de ser ali­men­ta­dos de dia, e os animais noturnos de noite. Meu pai não sabia que comida dar à pequena zikta. Um dia ele cortou uma romã ao meio e da fruta caiu um verme, que foi ime­di­a­ta­mente devorado pela zikta. Dali em diante meu pai moía farelo e deixava até que criasse vermes, que ele usava para alimentar o animal. O leão teve febre o tempo todo, e dessa forma não incomodou os ouros, porque não gostava de comida seca. O animal urshana meu pai encontrou dormindo num canto da embar­ca­ção, e perguntou se ele precisava de alguma coisa para comer. Sua resposta foi: “Vi que o senhor estava muito ocupado e não quis incomodar”. Ao que meu pai disse: “Seja da vontade do Senhor abençoá-lo com a vida eterna”, e sua benção se tornou realidade.

As difi­cul­da­des aumen­ta­ram quando o dilúvio começou a jogar a arca de um lado para o outro. Todos dentro dela eram sacudidos como lentilhas numa panela. Os leões começaram a urrar, os bois mugiam, os lobos uivavam, e todos os animais deram vazâo à sua agonia, cada um com o som que era capaz de produzir.

Também Noé e seus filhos, achando que a morte estava próxima, romperam em lágrimas. Noé orou a Deus:

– Ó, Senhor, ajude-nos, pois não podemos suportar o mal que nos assedia. As ondas erguem-se ao nosso redor, as torrentes da des­trui­ção nos ater­ro­ri­zam e morte olha-nos de frente. Ah, ouça a nossa oração, liberte-nos; incline-se na nossa direção e seja com­pas­sivo para conosco. Resgate-nos e salve-nos!

O dilúvio foi produzido pela união das águas mas­cu­li­nas, que estão acima do fir­ma­mento, e das águas femininas, que brotam da terra. As águas supe­ri­o­res precipitaram-se no espaço quando Deus removeu duas estrelas da cons­te­la­ção das Plêiades. Depois disso, a fim de parar o dilúvio, Deus teve de trans­fe­rir duas estrelas da cons­te­la­ção da Ursa para a cons­te­la­ção das Plêiades. É por isso que a Ursa corre atrás das Plêiades; ela quer seus filhos de volta, mas eles lhe serão res­tau­ra­dos apenas no mundo futuro.

Durante o ano do dilúvio houve mudanças nas esferas celes­ti­ais. Enquanto o dilúvio durou o sol e a lua não pro­du­zi­ram luz, razão pela qual Noé recebeu seu nome, “O do descanso”, pois em seu período de vida o sol e a lua des­can­sa­ram. A arca era iluminada por uma pedra preciosa, cuja luz era mais intensa durante a noite do que durante o dia, pos­si­bi­li­tando assim que Noé dis­tin­guisse o dia da noite.

O dilúvio durou um ano inteiro. Começou no décimo-sétimo dia de Chesvan, e a chuva estendeu-se por quarenta dias, até o vigésimo-sétimo dia de Kislev. Essa punição cor­res­pon­deu ao crime daquela geração peca­mi­nosa. Eles levavam vidas imorais e geraram filhos bastardos, cujo estágio embri­o­ná­rio dura quarenta dias.

Do dia 27 de Kislev até o primeiro de Sivan, um período de cento e cinqüenta dias, a água per­ma­ne­ceu com a mesma pro­fun­di­dade, quinze varas acima do solo. Durante esse período todos os perversos foram des­truí­dos, cada homem recebendo a punição que merecia. Caim estava entre os que pereceram, e assim a morte de Abel foi vingada. Tão poderosa foram as águas em sua des­trui­ção que o corpo do próprio Adão não foi poupado em seu túmulo.

Em primeiro de Sivan as águas começaram a declinar, um quarto de vara por dia, e ao fim de sessenta dias, no dia dez de Av, o topo das montanhas ficou visível. Muitos dias antes, no dia dez de Tamuz, Noé havia soltado um corvo, e uma semana depois uma pomba, na primeira de suas três saídas, que foram repetidas em inter­va­los de uma semana.

Demorou do primeiro dia de Av até o primeiro dia de Tishrei para que a água desa­pa­re­cesse por completo da face da terra. Porém o solo per­ma­ne­ceu tão lamacento que os ocupantes da arca tiveram de per­ma­ne­cer dentro dela até o dia vinte e sete de Chesvan, com­ple­tando assim um ano solar, que consiste de doze luas e onze dias.

Noé havia expe­ri­men­tado todo tipo de difi­cul­dade para deter­mi­nar o estado da água. Quando decidiu enviar um corvo, este disse a ele:

– O Senhor, seu mestre, me odeia, e você também me odeia. Seu mestre me odeia porque, embora tenha mandado que entrassem na arca sete pares de animais puros, mandou que entrassem apenas dois pares de animais impuros, grupo ao qual pertenço. Você me odeia, porque não escolheu como men­sa­geiro um dos pássaros dos quais há sete pares na arca, mas escolheu a mim, e da minha espécie só há um par. Ora, suponha que eu morra de calor ou de frio: o mundo não ficaria privado de uma espécie inteira de animais? Ou não será o caso que você tenha lançado um olhar lascivo sobre minha com­pa­nheira, e quer agora livrar-se de mim?

Diante do que Noé respondeu:

– Infeliz! Sou obrigado a viver separado da minha própria esposa na arca. Quanto menos me ocorreria o tipo de pen­sa­mento dos quais você me acusa!

A saída do corvo não teve sucesso, porque assim que viu o cadáver de um homem ele passou a devorá-lo, e não obedeceu às ordens dadas a ele por Noé. Por essa razão foi enviada uma pomba.

Perto do entar­de­cer a pomba voltou com uma folha de oliveira no bico, tirada do monte das Oliveiras em Jerusalém, pois a Terra Santa não havia sido devastada pelo dilúvio. Ao colhê-la, a pomba disse a Deus:

– Ah, Senhor do Mundo, prefiro que meu sustento se mostre amargo como a oliveira, desde que me seja dado pela sua mão, do que, sendo doce, eu seja entregue nas mãos dos homens.

* * *

Lendas dos Judeus é uma com­pi­la­ção de lendas judaicas reco­lhi­das das fontes originais do midrash (par­ti­cu­lar­mente o Talmude) pelo tal­mu­dista lituano Louis Ginzberg (1873-1953). Lendas foi publicado em 6 volumes (sendo dois volumes de notas) entre 1909 e 1928.

Paulo Brabo @saobrabo

Escrevo livros, faço desenhos e desenho letras. Meu livro mais recente, que você deve desejar comprar, é As divinas gerações. Esta é a Bacia das Almas, mas hoje em dia escrevo antes de tudo na Forja Universal.


 

Paulo Brabo Goiabas Roubadas

NOÉ: O dilúvio

Recolher os animais para dentro da arca foi a parte mais fácil da tarefa imposta sobre Noé. Seu maior desafio foi prover-lhes aco­mo­da­ções e comida para um ano.

Muitos anos mais tarde Sem, filho de Noé, relatou a Eliezer, servo de Abraão, a história das suas expe­ri­ên­cias com os animais dentro da arca. Eis o que ele disse:

– Tivemos enormes difi­cul­da­des na arca.  Os animais diurnos tinham de ser ali­men­ta­dos de dia, e os animais noturnos de noite. Meu pai não sabia que comida dar à pequena zikta. Um dia ele cortou uma romã ao meio e da fruta caiu um verme, que foi ime­di­a­ta­mente devorado pela zikta. Dali em diante meu pai moía farelo e deixava até que criasse vermes, que ele usava para alimentar o animal. O leão teve febre o tempo todo, e dessa forma não incomodou os ouros, porque não gostava de comida seca. O animal urshana meu pai encontrou dormindo num canto da embar­ca­ção, e perguntou se ele precisava de alguma coisa para comer. Sua resposta foi: “Vi que o senhor estava muito ocupado e não quis incomodar”. Ao que meu pai disse: “Seja da vontade do Senhor abençoá-lo com a vida eterna”, e sua benção se tornou realidade.

As difi­cul­da­des aumen­ta­ram quando o dilúvio começou a jogar a arca de um lado para o outro. Todos dentro dela eram sacudidos como lentilhas numa panela. Os leões começaram a urrar, os bois mugiam, os lobos uivavam, e todos os animais deram vazâo à sua agonia, cada um com o som que era capaz de produzir.

Também Noé e seus filhos, achando que a morte estava próxima, romperam em lágrimas. Noé orou a Deus:

– Ó, Senhor, ajude-nos, pois não podemos suportar o mal que nos assedia. As ondas erguem-se ao nosso redor, as torrentes da des­trui­ção nos ater­ro­ri­zam e morte olha-nos de frente. Ah, ouça a nossa oração, liberte-nos; incline-se na nossa direção e seja com­pas­sivo para conosco. Resgate-nos e salve-nos!

O dilúvio foi produzido pela união das águas mas­cu­li­nas, que estão acima do fir­ma­mento, e das águas femininas, que brotam da terra. As águas supe­ri­o­res precipitaram-se no espaço quando Deus removeu duas estrelas da cons­te­la­ção das Plêiades. Depois disso, a fim de parar o dilúvio, Deus teve de trans­fe­rir duas estrelas da cons­te­la­ção da Ursa para a cons­te­la­ção das Plêiades. É por isso que a Ursa corre atrás das Plêiades; ela quer seus filhos de volta, mas eles lhe serão res­tau­ra­dos apenas no mundo futuro.

Durante o ano do dilúvio houve mudanças nas esferas celes­ti­ais. Enquanto o dilúvio durou o sol e a lua não pro­du­zi­ram luz, razão pela qual Noé recebeu seu nome, “O do descanso”, pois em seu período de vida o sol e a lua des­can­sa­ram. A arca era iluminada por uma pedra preciosa, cuja luz era mais intensa durante a noite do que durante o dia, pos­si­bi­li­tando assim que Noé dis­tin­guisse o dia da noite.

O dilúvio durou um ano inteiro. Começou no décimo-sétimo dia de Chesvan, e a chuva estendeu-se por quarenta dias, até o vigésimo-sétimo dia de Kislev. Essa punição cor­res­pon­deu ao crime daquela geração peca­mi­nosa. Eles levavam vidas imorais e geraram filhos bastardos, cujo estágio embri­o­ná­rio dura quarenta dias.

Do dia 27 de Kislev até o primeiro de Sivan, um período de cento e cinqüenta dias, a água per­ma­ne­ceu com a mesma pro­fun­di­dade, quinze varas acima do solo. Durante esse período todos os perversos foram des­truí­dos, cada homem recebendo a punição que merecia. Caim estava entre os que pereceram, e assim a morte de Abel foi vingada. Tão poderosa foram as águas em sua des­trui­ção que o corpo do próprio Adão não foi poupado em seu túmulo.

Em primeiro de Sivan as águas começaram a declinar, um quarto de vara por dia, e ao fim de sessenta dias, no dia dez de Av, o topo das montanhas ficou visível. Muitos dias antes, no dia dez de Tamuz, Noé havia soltado um corvo, e uma semana depois uma pomba, na primeira de suas três saídas, que foram repetidas em inter­va­los de uma semana.

Demorou do primeiro dia de Av até o primeiro dia de Tishrei para que a água desa­pa­re­cesse por completo da face da terra. Porém o solo per­ma­ne­ceu tão lamacento que os ocupantes da arca tiveram de per­ma­ne­cer dentro dela até o dia vinte e sete de Chesvan, com­ple­tando assim um ano solar, que consiste de doze luas e onze dias.

Noé havia expe­ri­men­tado todo tipo de difi­cul­dade para deter­mi­nar o estado da água. Quando decidiu enviar um corvo, este disse a ele:

– O Senhor, seu mestre, me odeia, e você também me odeia. Seu mestre me odeia porque, embora tenha mandado que entrassem na arca sete pares de animais puros, mandou que entrassem apenas dois pares de animais impuros, grupo ao qual pertenço. Você me odeia, porque não escolheu como men­sa­geiro um dos pássaros dos quais há sete pares na arca, mas escolheu a mim, e da minha espécie só há um par. Ora, suponha que eu morra de calor ou de frio: o mundo não ficaria privado de uma espécie inteira de animais? Ou não será o caso que você tenha lançado um olhar lascivo sobre minha com­pa­nheira, e quer agora livrar-se de mim?

Diante do que Noé respondeu:

– Infeliz! Sou obrigado a viver separado da minha própria esposa na arca. Quanto menos me ocorreria o tipo de pen­sa­mento dos quais você me acusa!

A saída do corvo não teve sucesso, porque assim que viu o cadáver de um homem ele passou a devorá-lo, e não obedeceu às ordens dadas a ele por Noé. Por essa razão foi enviada uma pomba.

Perto do entar­de­cer a pomba voltou com uma folha de oliveira no bico, tirada do monte das Oliveiras em Jerusalém, pois a Terra Santa não havia sido devastada pelo dilúvio. Ao colhê-la, a pomba disse a Deus:

– Ah, Senhor do Mundo, prefiro que meu sustento se mostre amargo como a oliveira, desde que me seja dado pela sua mão, do que, sendo doce, eu seja entregue nas mãos dos homens.

* * *

Lendas dos Judeus é uma com­pi­la­ção de lendas judaicas reco­lhi­das das fontes originais do midrash (par­ti­cu­lar­mente o Talmude) pelo tal­mu­dista lituano Louis Ginzberg (1873-1953). Lendas foi publicado em 6 volumes (sendo dois volumes de notas) entre 1909 e 1928.

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