15 de Dezembro de 2008

O Brasil e os brasileiros

Por   Paulo Brabo

 

Estocado em Brasil, História

“Paciência”, “amanhã”, “espere um pouco!” Essas palavras em ação contemplam nos olhos, em todo lugar do Brasil, o anglo-americano nervoso, irritado, impaciente e estressado. O ex-governador Kent residiu por quatro anos no Rio de Janeiro como cônsul norte-americano, e era sua deliberada opinião que o Brasil é o melhor lugar do mundo para abrandar um ianque fervoroso, fazedor de discursos e agitador da comunidade.

“Há para o homem maduro, calado e temperado, que já presenciou muito dos aspectos brutos da humanidade, algo de agradável e gratificante nos hábitos tranquilos, calmos e silenciosos dos brasileiros. Passar um ano inteiro sem estar presente a uma convenção partidária ou manifestação, ouvir nada sobre eleições, não presenciar nenhuma aglomeração de pessoas, não ler cartazes incitando a reivindicação de direitos, não ouvir discursos nas esquinas ou palestras em jantares, jamais ser importunado a participar de uma passeata política…”

* * *

Informaram-me no Rio que alguns anos antes o sr. Gordon, de Boston, então cônsul norte-americano, ofereceu ao governo brasileiro para imprimir ao seu serviço postal o mesmo grau de eficiência que existe nos Estados Unidos. Sua oferta não foi aceita, porque os brasileiros, embora mais progressivos do que a maioria dos povos sul-americanos, herdam ainda muitas das características de seus ancestrais portugueses, e uma proeminente dessas é a aversão à mudança (. . .) Uma vez Adão pediu permissão para visitar a terra, e um anjo foi designado para acompanhá-lo. Porém tudo lhe pareceu tão mudado e estranho que em lugar algum Adão sentiu-se em casa, até chegar à Portugal. “Agora sim”, exclamou ele, “ponha-me no chão. Tudo aqui está como eu deixei”.

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A gôndola [do Rio de Janeiro] em tudo se assemelha ao seu ônibus, exceto que nenhum condutor a acompanha. Você paga no Largo do Paço ao senhor Bernardo ou senhor fulano, e se há tarifas adicionais são recebidas pelo cocheiro. A gôndola não possui a conveniência que tem os ônibus de Nova Iorque, na forma de um cordão de couro pelo qual o passageiro quando deseja leva o cocheiro a parar para que ele desça. Em lugar disso, os passageiros fazem livre uso de bengalas, guarda-chuvas e punhos, massacrando à razão máxima a extremidade da gôndola mais próxima ao cocheiro; e ocasionalmente a perna desse último é agarrada de forma mais esquentada do que afetuosa pelo indivíduo sentado junto à janela próxima.

Algumas vezes a gôndola não pode ser propelida pelos seus remos vivos; e, nessas circunstâncias, enquanto um escocês, um americano ou um francês despejarão palavras duras sobre o cocheiro infeliz, os brasileiros permanecem perfeitamente calmos, sem se rebaixarem a descer para ver qual é o problema, conversando uns com os outros de forma filosófica como se nada tivesse acontecido.

(. . .) Tendo chegado a uma espécie de transtorno filosófico, perguntei certa vez porque esses transportes públicos haviam recebido o nome de gôndolas. Não demorou e descobri que havia sido concedido a determinadas empresas de ônibus um monopólio, o qual fora considerado oneroso. O governo municipal não podia em são consciência abolir esse contrato ou conferir uma nova concessão a outra companhia de ônibus, porém todos os escrúpulos foram vencidos quando se decidiu conceder a uma empresa de gôndolas o direito de transportar passageiros.

Rev. D. P. Kidder e Rev. J. C. Fletcher
Brasil e os brasileiros retratados em ensaios históricos e descritivos,
Filadélfia, 1857

Veja também:
História do ônibus urbano no Rio de Janeiro

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