06 de Junho de 2008

Nenhum outro elemento da trama

Incorporado por   Paulo Brabo

 

Estocado em Manuscritos

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Portanto nenhum outro elemento da trama é tão simbólico do caráter e do destino de Adão quanto o fato de ter sido moldado homem adulto.

Quando abriu os olhos para ver quem lhe havia soprado no nariz, o Homem ultrapassou sem qualquer transição o impensável limiar da não-existência para a vertigem da experiência. Ao contrário de nós, humanidade comum, que já vimos uma criança no espelho e apalpamos um caminho gradual rumo à consciência e ao manejo dos sentidos, Adão abriu-se para a realidade sensorial e para consciência individual num único golpe de simultaneidade. Num momento ele não estava lá, e no instante seguinte estava: sem qualquer história, sem precedentes, mas íntegro e inteiro, com as pesadas capacidades de um homem desenvolvido.

No choque de implicações dessa condição reside grande parte do fascínio da história, e portanto seu valor simbólico. Para nós, deste lado da página, é evidentemente impossível imaginar o que seríamos sem as experiências formadoras da infância e da adolescência. De um modo muito fundamental sentimos que somos as experiencias que nos formaram; ser privado delas ou da lembrança delas equivaleria a sermos privados de nós mesmos.

Dessa forma, o fardo de Adão é necessariamente maior do que o do homem que despertou de um coma que o acompanhou desde o útero; é maior do que o cego de nascença que passa subitamente a enxergar. Num certo sentido Adão é como uma criança; em outro sentido, não chegará a ser criança nem homem.

Sua reação diante dos obstáculos mais simples que lhe imporá a narrativa pode ser rastreada diretamente às características extraordinárias da sua concepção.

Pois este é o homem que a trama colocará diante da tentação: o homem que, por nada ter experimentado, pode ser símbolo eficaz de todos. Que, por outro lado, e justamente por nada ter experimentado, permanecerá para sempre algo muito distinto de nós – que chegamos até aqui guiados pela mão de uma criança.

Adão é alguém, mas Adão é ninguém. E uma das perguntas primordiais da narrativa, seu verdadeiro fundamento moral, é se pode alguma coisa ser exigida de ninguém.

Nasce um homem

  1. Era uma vez
  2. Adão era
  3. A teoria literária
  4. Para mim
  5. Se havia improvável graça
  6. O conflito que anima uma história
  7. A primeira blasfêmia
  8. Eu sentia ser minha obrigação
  9. Como demonstrado exemplarmente por Jesus
  10. De todos os detalhes
  11. A distinção mais antiga
  12. O homem em pé no centro
  13. Quando levantei-me do lugar
  14. Ele tinha o mundo natural aos seus pés
  15. Dois ou três personagens não bastam
  16. A proibição extrai seu poder
  17. Para caracterizar uma tragédia
  18. Pisei no andar térreo
  19. Você pode comer
  20. Um professor errante depara-se com um homem cego
  21. Nenhum outro elemento da trama
  22. Toda história sobre transgressão
  23. De todos os sonhos de que me recordo
  24. Não devemos deixar
  25. A chave, obviamente
  26. É curioso notar
  27. Para começar
  28. Neste ponto
  29. Com a entrada da serpente
  30. Dos enigmas da serpente
  31. Porém quando percebo
  32. A serpente é astuta
  33. A narrativa é límpida
  34. A serpente permanece um enigma
  35. Quando olho tempo suficiente
  36. O silêncio da história
  37. Outro resultado
  38. Individuação
  39. É o momento decisivo
  40. A ausência divina
  41. É uma pista falsa
  42. Não se trata
  43. Uma donzela encontra na floresta uma perigosa serpente
  44. A hora é agora
  45. Porque – e ignoro quantas vezes terei de voltar
  46. Alcançar a individuação
  47. Eva recua
  48. Deus sabe
  49. O motor do conflito
  50. A grande revelação
  51. Transgredir
  52. A obra da serpente
  53. Onde está a maldade
  54. O que me faz lembrar
  55. A transfiguração do conflito
  56. Que são a imitação e o jogo de espelhos
  57. O que esta história existe para mostrar
  58. É por isso
  59. É o último momento
  60. Quando volto à recordação
  61. O efeito imediato
  62. Como numa comédia de erros
  63. Minha primeira transgressão
  64. É só do lado de cá
  65. A esse princípio
  66. Não nos deverá
  67. A coisa boa
  68. Se o conflito é a graça
  69. A transgressão original
  70. Transgredir é escolher
  71. No espaço recém-aberto da minha transgressão
  72. Em si mesmo nada há de terrível
  73. O conceito teológico
  74. Bastaria a morte
  75. A ambivalência do poder
  76. A maldição do pó
  77. Há algo de terrível na autodeterminação
  78. Minha disciplina pessoal mais antiga
  79. Essa crueza
  80. Não é completa
  81. Essas histórias
  82. Na noite de ontem para hoje
  83. O outro símbolo universal
  84. A serpente é mentirosa
  85. O primeiro desdobramento
  86. Foi mais ou menos nessa época
  87. Todas as lendas
  88. Minha convicção


Inquisição


Arquivos


Versões digitais dos manuscritos da Biblioteca do Monastério de São Brabo, nas Índias Ocidentais.
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