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Portanto nenhum outro elemento da trama é tão simbólico do caráter e do destino de Adão quanto o fato de ter sido moldado homem adulto.
Quando abriu os olhos para ver quem lhe havia soprado no nariz, o Homem ultrapassou sem qualquer transição o impensável limiar da não-existência para a vertigem da experiência. Ao contrário de nós, humanidade comum, que já vimos uma criança no espelho e apalpamos um caminho gradual rumo à consciência e ao manejo dos sentidos, Adão abriu-se para a realidade sensorial e para consciência individual num único golpe de simultaneidade. Num momento ele não estava lá, e no instante seguinte estava: sem qualquer história, sem precedentes, mas íntegro e inteiro, com as pesadas capacidades de um homem desenvolvido.
No choque de implicações dessa condição reside grande parte do fascínio da história, e portanto seu valor simbólico. Para nós, deste lado da página, é evidentemente impossível imaginar o que seríamos sem as experiências formadoras da infância e da adolescência. De um modo muito fundamental sentimos que somos as experiencias que nos formaram; ser privado delas ou da lembrança delas equivaleria a sermos privados de nós mesmos.
Dessa forma, o fardo de Adão é necessariamente maior do que o do homem que despertou de um coma que o acompanhou desde o útero; é maior do que o cego de nascença que passa subitamente a enxergar. Num certo sentido Adão é como uma criança; em outro sentido, não chegará a ser criança nem homem.
Sua reação diante dos obstáculos mais simples que lhe imporá a narrativa pode ser rastreada diretamente às características extraordinárias da sua concepção.
Pois este é o homem que a trama colocará diante da tentação: o homem que, por nada ter experimentado, pode ser símbolo eficaz de todos. Que, por outro lado, e justamente por nada ter experimentado, permanecerá para sempre algo muito distinto de nós – que chegamos até aqui guiados pela mão de uma criança.
Adão é alguém, mas Adão é ninguém. E uma das perguntas primordiais da narrativa, seu verdadeiro fundamento moral, é se pode alguma coisa ser exigida de ninguém.
Este documento faz parte da série
Nasce um homem
- Era uma vez
- Adão era
- A teoria literária
- Para mim
- Se havia improvável graça
- O conflito que anima uma história
- A primeira blasfêmia
- Eu sentia ser minha obrigação
- Como demonstrado exemplarmente por Jesus
- De todos os detalhes
- A distinção mais antiga
- O homem em pé no centro
- Quando levantei-me do lugar
- Ele tinha o mundo natural aos seus pés
- Dois ou três personagens não bastam
- A proibição extrai seu poder
- Para caracterizar uma tragédia
- Pisei no andar térreo
- Você pode comer
- Um professor errante depara-se com um homem cego
- Nenhum outro elemento da trama
- Toda história sobre transgressão
- De todos os sonhos de que me recordo
- Não devemos deixar
- A chave, obviamente
- É curioso notar
- Para começar
- Neste ponto
- Com a entrada da serpente
- Dos enigmas da serpente
- Porém quando percebo
- A serpente é astuta
- A narrativa é límpida
- A serpente permanece um enigma

