30 de Janeiro de 2008

Para mim

Por   Paulo Brabo

 

Estocado em Manuscritos

4

Para mim o inferno sempre foi estar na companhia de pessoas tendo ao mesmo tempo alguma autoridade sobre elas. Para mim o céu sempre foi estar na companhia de pessoas.

Era de tarde e estávamos – eu e mais um grupo heterogêneo de homens, mulheres, jovens, velhos e crianças – numa fazenda ou casa de retiros. O edifício principal, de dois ou três pavimentos, ligava-se a outras construções, talvez alojamentos, por passagens cobertas ladeadas de treliças e trepadeiras.

Naquela hora eu estava com um grupo menor, composto de jovens e adolescentes, numa reunião informal numa sala arejada do primeiro andar. Não havia cadeiras nem qualquer espécie de decoração no aposento de paredes brancas, mas pela porta aberta víamos gente caminhando e conversando pelo corredor, e a luz vinha de alguma janela. Ignoro se estávamos jogando algum jogo ou discutindo algum assunto, mas sei que a conversa e a atividade não eram centralizadas. Alguns apenas observavam, muitos sorriam, todos pareciam estar à vontade.

Sentávamos no chão. Eu estava descalço e de bermudas, em silêncio, minhas costas contra a parede e os braços apoiados sobre os joelhos. Do meu lado direito sentava um amigo cuja identidade não sei precisar. Eu estava feliz.

Mas então me sobrassaltei, porque notei que havia uma cobra ali no aposento, uma serpente verde-acizentada passeando entre as pessoas com o pescoço erguido e a língua projetando-se de vez em quando para fora.

O mais curioso, e o que me mais perturbou desde o início, é que meus amigos não demonstravam ter medo algum da serpente; sequer davam sinal de perceber que ela estava ali.



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