Glenn Miller não pode sangrar, mas a dor que o faz levar os dedos aos lábios é muito real. Ficamos mais de dez minutos assim, sentados no asfalto um diante do outro sem recorrer a uma palavra, ele com as costas apoiadas no pára-choque reluzente do Peugeot, eu com as pernas cruzadas, as mãos entrelaçadas e os cotovelos apoiados nos joelhos, a dois metros dele. Não consigo deixar de pensar que este é o nosso primeiro encontro verdadeiro um com o outro. Finalmente falamos claramente a nossa linguagem, eu a minha e ele a dele, e sentamos para tentar entender o que acabamos de ouvir e – tão importante quanto isso – de dizer.
Glenn puxa uma perna para junto de si, de modo a ajeitar melhor o corpo contra o automóvel, e geme em voz baixa durante a manobra.
– Você achou mesmo que eu fosse revidar? – ele pergunta com curiosidade sincera, e como é ele a quebrar o silêncio fica subentendido que continuaremos cada um a falar nosso próprio idioma.
– Não, não achei que um seguidor de Gandhi fosse revidar – digo, sem levantar a voz. – Mas eu tinha de ter certeza.
E pondero sobre o peso retroativo desta revelação. Em momento algum, do instante em que Glenn aparecera do nada em Dáun-Behri com a notícia de que Gandhi queria falar comigo, me ocorreu que ele estivesse ali em função menos que oficial. Ele era membro-chave do Conselho, afinal de contas, e desde que o Mahatma assumira a primeira cadeira Glenn reportava-se diretamente a ele.
O que eu percebia agora claramente, e que ele mesmo acabava singelamente de confessar, é que Glenn reportava-se diretamente a Gandhi muito antes de Gandhi ter assumido a liderança do Conselho.
Quanto mais reflito sobre isso, mais sentido a coisa faz, e mais me recrimino por não ter percebido antes. Naquela reunião na sala privada do Bureau, quando ponderávamos sobre a questão de um sucessor para Sahid, Glenn parecera tão relutante quanto qualquer outro para abalizar o nome o indiano, mas tinha sido ele mesmo a propor que fechássemos com ele, no fim das contas. Como era mesmo que ele havia dito? “De nada adianta adiar a decisão. Vamos colocar Gandhi no lugar de Sahid.” Em retrospecto, Glenn não tinha como ter sido menos sutil. Um seguidor secreto do Mahatma, um idealista e um pacifista, e no quintal da minha casa.
– Desde quando? – pergunto, sem nenhuma condenação na voz. Eu o chamara de traidor para provocá-lo a uma reação, mas meu sentimento agora está entre o assombro e a admiração.
– Desde muito tempo – ele sorri, apoiando as palmas das duas mãos sobre o asfalto. – Na verdade, desde que percebi que não tenho escolha.
– Gandhi pediu que você me seguisse? Que me vigiasse?
– Não exatamente. Na verdade é o contrário disso, mas prefiro deixar que ele mesmo explique. Ele quer falar com você.
Olho para o laço de chão entre os pés cruzados e as mãos entrelaçadas e não consigo deixar de achar graça.
– Gandhi quer falar comigo. Você sabe o que ele vai me dizer, Glenn?
– Ele vai dizer o que você não sabe.
– Vai demorar – sorrio.
– Possivelmente.
Uma nova pausa. Logo outra coisa me vem à lembrança.
– De la Mettrie disse que eu lhe perguntasse sobre a balança de três pratos. Gandhi vai me falar sobre isso também?
É a vez de Glenn sorrir, um pouco embaraçado, e desvia os olhos por um segundo.
– A balança de três pratos é um conceito que aparece no livro de De la Mettrie sobre Gandhi, o livro cuja publicação o Informal interceptou. É uma metáfora para as três grandes posturas comportamentais que os encarnados acabam assumindo entre nós. Você sabe muito bem que há poucas opções legítimas no Paraíso para os ilegais do inferno, e De la Mettrie resume-as a três. A primeira categoria é a dos incógnitos, que recorrem à dissimulação e à maquiagem para passarem por cidadãos do céu. Para um exemplo muito próximo –
– Cyril Crepsi.
– Isso, seu amigo Ermitão. A segunda é a dos colaboracionistas, que ao mesmo tempo invejam e bajulam servilmente aos cidadãos do céu. Pense naqueles que só conseguem um lugar no mecanismo das coisas porque fazem o que nenhum celestial dispõe-se a fazer. A terceira facção é a dos autônomos, que invejam secretamente mas recusam-se a assimilar a nossa cultura, postando-se agressivamente contra ela, ao ponto da manifestação violenta. O desafio de Gandhi, segundo De la Mettrie, é o de equilibrar os três pratos invisíveis dessa balança.
– E ele está conseguindo?
– Ele pode responder melhor do que eu – Glenn mostra-me as mãos espalmadas.
– Então chegou a hora – fico de pé num único gesto e estendo a mão para ajudar meu amigo a levantar. – Vamos ver o que um homem santo tem a dizer a este pecador.
Ele hesita por um momento mas aceita minha mão. Quando estamos os dois em pé tomo os óculos de sobre o capô e aperto solenemente contra os dedos da sua mão direita.
– Só mais uma coisa – falo com firmeza, recusando-me a soltar os óculos por instante. Instintivamente sabemos que este é o sacramento que vai definir nossa relação daqui em diante. – Você disse no celular que queria falar comigo por causa do bilhete que Sahid deixou para mim antes de ir para o inferno. É sobre isso que Gandhi quer falar comigo? É sobre o bilhete?
– É.
– Você sabe o que diz o bilhete?
– Não – e logo em seguida: – Mas sei o que ele continha.
– Como assim?
Solto os óculos e Glenn Miller faz com que desapareçam na concha da mão e depois no bolso da camisa.
– Não sei exatamente o que o bilhete dizia – ele fala devagar, fitando-me firmemente nos olhos, – mas sei sobre o que falava. Os guichês do Delta, em que as pessoas deixam para trás as lembranças que não querem trazer consigo para o Paraíso. Na Catraca.
– Sim, é lógico que sei dos guichês. Que têm eles?
– Já ouvi você orgulhar-se mais de uma vez de ser umas das poucas pessoas que passaram por ali sem deixar nenhuma lembrança dos seus anos mortais para trás – ele respira fundo, depositando com cuidado uma mão no meu ombro. – Pois no seu caso não é verdade.
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A cor do encarnado
- O ingresso no Paraíso
- O luto
- Perfidia
- Dodó
- Entropia
- O esgotamento dos sentidos
- Heróis
- A farsa termina
- Bivalve
- Sherazade
- Precipitação
- Deducant
- A tempestade
- Turbilhão
- Preço
- Manifestação
- Meia-volta
- Brixianus
- O que pode dar errado
- Remissivo
- Perímetro
- Dor
- Malmequer
- Álibis
- Macaco
- Não é verdade
- Letes
- Véu
- Milhões
- A mesma sentença
- A resposta incompleta
- Fulcro

