04 de Junho de 2008

Milhões

Por   Paulo Brabo

 

Estocado em Manuscritos

Concluída a canção, fica sério de repente.

– Talvez não seja tão simples – ele retoma, tomando-me pela mão. – Quero mostrar-lhe uma coisa.

Guiado pela pegada firme do homenzinho avanço pelos longos e irregulares corredores que fluem entre as tendas e barracas. Sinto um cheiro forte e ácido de comida, e ao dobrarmos uma esquina encontramos gente comendo. Sentados com as costas contra um muro comprido e baixo que nada divide, pessoas de todas as cores comem de tigelas de ferro, com colheres de plástico, o que parece ser mingau ou iogurte. Observam-nos com avidez e singeleza por alguns segundos, mas não páram de fazer o que estão fazendo. Poderia ser um campo de refugiados da terra, uma foto na National Geographic, não fosse a completa ausência de crianças.

Ele já não me guia pela mão, mas como não parou de andar dois passos inquietos à minha frente, não parei de segui-lo. O homem ergue o indicador para chamar minha atenção, mas não se vira para me olhar nos olhos.

– Você não está com fome.

Não é uma pergunta. E não é verdade.

– Toda essa gente – faço um gesto com o braço que ele não tem como ver, mas não paro de caminhar atrás dele. – O que estão fazendo aqui?

– Oh, não apenas aqui, mas em muitos ashrams como este – ele volta o rosto apenas o tempo necessário para enfatizar a sua declaração com os olhos.

– Sim, pelo que ouvi dizer. Mas o que estão fazendo?

– Não está vendo? Estão morando aqui. Vivendo.

– Sim, como hippies. Mas isso não explica o seu plano. O que sei sobre Gandhi é que todas as suas posturas tinham uma função política.

Ele faz estacar a vara de caminhada e me olha com partes iguais de indignação e deleite.

– É evidente que sim. E penso que seja evidente qual seja a minha posição política.

Falo como quem está recitando, e minha sinceridade é meu presente e minha provocação.

– Você quer proteger os encarnados contra as injustiças do sistema. E pra isso angaria o apoio de gente normal. Sem ofensa.

– É evidente que não. Você estava por acaso na minha cerimônia de posse? Ouviu o meu discurso?

– Não, estava ocupado demais com outras coisas – E Deus, onde quer que esteja, sabe que é verdade. – O que eu perdi?

Pela minha cronologia, a posse de Gandhi deve ter acontecido hoje mesmo, talvez há poucas horas. O que quer dizer que em algum lugar Cortiano espera perplexo, e em vão, pelo seu infiltrado.

– Nada. Não houve posse – ele recomeça a caminhada, inteiramente compenetrado na sua explanação. – Mas se tivesse ouvido o discurso você saberia o que penso: que os encarnados, seus irmãos, são a única chance dessa gente que você chama de normal.

– Então esta é a sua causa? Salvar as almas dos celestiais através dos encarnados de bom coração?

– Minha causa – ele corrige imediatamente – é ver Deus. Minha causa é encontrar a verdade.

Penso em fazer uma observação, mas decido manter algum grau de auto-censura até estar de posse do que vim buscar.

Andamos agora numa região menos habitada do acampamento. Aqui o terreno é escavado em níveis regulares e planos, que alternam-se para cima e para baixo, precisamente como numa escavação arqueológica. Subimos escadas de madeira e descemos desníveis em saltos, mas o homenzinho é mais ágil do que eu.

– Só penso – arrisco prosseguir na linha de ataque – que é muito fácil pregar a não-violência num lugar em que ninguém pode morrer.

– Em primeiro lugar, você se engana em pensar que eu tenha pregado a não-violência estrita. É evidente que satyagraha é um método violento.

– Como assim? – minha surpresa é real, mas esqueço que os homens santos têm prazer em confundir quando poderiam simplesmente iluminar.

Ele pára na extremidade de uma longa rampa que desce, entre altas paredes de arenito, até a entrada quadrangular de uma caverna.

– É violento para os perseguidos. É violento para os que lutam pela verdade. É violento para os que, sem resistir, são torturados e mortos.

– Mas aqui ninguém morre – faço questão.

– Esta é parte essencial do problema – ele concede, e começamos a descer devagar a rampa. – Não quero explicar um mistério, mas em formas populares de hinduísmo também há modalidades de céu e inferno. A diferença, e é uma diferença importante, é que são estações temporárias. Naraka é um lugar de tormento, onde os maus expiam seus maus feitos; svarga é lugar de bem-aventurança, onde os bons desfrutam da companhia uns dos outros. Porém nos dois lugares é necessário aguardar por um período o momento da reencarnação seguinte.

– Um purgatório. Um que a pessoa tem de visitar dezenas de vezes.

– Milhões – ele completa. – Até, naturalmente, que a reencarnação não seja mais necessária, e a pessoa encontre plena identificação com a verdade. Neste preciso momento inferno e paraíso deixam de ser necessários.

– E você acha que estamos em qual dos dois?

– Não faço idéia de onde estamos – seus olhos cintilam com sinceridade, embora ele não esteja olhando para mim. – Mas penso que se pode dizer com segurança que a verdade não está aqui.

– Como você pode ter certeza? Você está aqui.

– É um dos modos pelos quais tenho certeza – ele conclui, circularmente, quando chegamos à entrada da caverna.

À nossa frente, iluminado por lâmpadas lá no fundo, abre-se um estreito e baixo corredor retangular, como a entrada de uma tumba egípcia num documentário. Ele faz sinal que eu vá na frente.



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