25 de Fevereiro de 2008

Meu testamento literário

Investigado por   Paulo Brabo

 

Estocado em Goiabas Roubadas

Atletas e preparadores físicos não limitam sua atenção às questões do exercício e do condicionamento perfeito; afirmam que há também hora para relaxar – elemento que de fato apresentam como o mais importante do treinamento. Considero igualmente verdadeiro para homens de letras que após períodos severos de estudo devam alongar o intelecto, a fim de estarem devidamente preparados para sua próxima tarefa.

O descanso de que carecem será melhor encontrado num ramo da literatura que não oferece entretenimento puro e simples, dependendo de mera sagacidade ou felicidade de expressão, mas é capaz também de atiçar uma instruída curiosidade – de um modo que espero esteja representado nas páginas que seguem. A proposta é que elas se mostrem atraentes independentemente de qualquer originalidade de tema, felicidade de concepção geral ou verossimilhança na acumulação de ficções. Essa atração encontra-se na velada referência subjacente a todos os detalhes da minha narrativa, que parodiam as inverossímeis histórias dos antigos poetas, historiadores e filósofos. Abstive-me apenas de acrescentar uma chave porque posso confiar que você será capaz de reconhecê-la à medida em que lê.

Ctesias, filho de Ctesíoco de Cnido, em sua obra sobre a Índia e suas características, fornece detalhes dos quais não possui qualquer evidência de primeira ou de segunda mão. A Oceanica de Iâmbulo está cheia de maravilhas; a coisa toda é uma patente ficção, mas presta-se ao mesmo tempo a uma leitura agradável. Inúmeros outros autores adotaram o mesmo plano, alegando relatar suas próprias viagens e descrevendo animais monstruosos, nativos bárbaros e estranhos modos de vida. A fonte e inspiração do seu humor é o Odisseu homérico entretendo a corte de Alcino com seus ventos aprisionados, seus homens selvagens ou canibais ou de um olho só, seus animais de várias cabeças e seus camaradas metamorfoseados; os fenícios eram gente simples, e ele enganou-os ao máximo que podiam suportar.

Quando me deparo com um escritor dessa estirpe não me incomoda muito que ele esteja mentindo; a prática já está bem estabelecida demais para que eu reaja dessa forma, mesmo entre filósofos professos. Surpreende-me apenas ele esperar que não percebamos que está mentindo.

Ora, sou vaidoso o bastante para acalentar a esperança de deixar alguma herança para a posteridade, e não vejo motivo para abrir mão do direito à liberdade de criação de que outros desfrutam. Como não tenho verdade alguma para registrar, tendo vivido uma vida profundamente monótona, recorro à falsidade – porém uma falsidade de uma variedade mais consistente, pois proferirei agora a única declaração digna de crédito que se deve esperar de mim: sou um mentiroso. Esta confissão é, considero, defesa suficiente contra todas as acusações. Meu assunto, portanto, é o que jamais vi, experimentei ou me foi contado, o que não existe nem poderia concebivelmente existir. Solicito humildemente a incredulidade do leitor.

Luciano de Samósata em Uma História Verdadeira, escrevendo no segundo século da era cristã (125-180 d.C.)



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Versões digitais dos manuscritos da Biblioteca do Monastério de São Brabo, nas Índias Ocidentais.
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