09 de Abril de 2008

Macaco

Por   Paulo Brabo

 

Estocado em Manuscritos

Se Gandhi está de fato à minha espera eu não deveria me surpreender por ser procurado por quem quer que seja, mas este é Julien de la Mettrie, o filho e a lenda, com quem só estive uma vez e com quem não troquei mais de uma palavra, talvez nenhuma. A voz de De la Mettrie, por associação, me faz pensar em Cortiano, que vi pela última vez no mesmo dia em que conheci os De la Mettrie. Cortiano, que espera que eu esteja treinando a infiltrada que acabei perdendo não sei exatamente para quem porque estava tentando resolver ao mesmo tempo a questão da remessa, que está tão longe de ser resolvida quanto na última vez em que falei com Mia Dladla. No conjunto não está sendo uma semana boa, e tenho as cicatrizes para comprovar.

– Julien, não me leve a mal, mas essa sua advertência pode ter chegado muito tarde. Conversei com gente demais nesses últimos dias, não que tenha aprendido muita coisa. Foi o Cortiano que mandou você ligar?

– Não! – ele parece inteiramente repugnado pela idéia. – Onde você está?

Olho ao redor.

– Não sei exatamente. Figurativamente estou no centro de alguma coisa que não sei determinar o que é. Você deve saber mais do que eu, se não não teria ligado. Estou esperando alguma resposta, se não vou ter de desligar e procurar eu mesmo.

– Você está em pé em cima das respostas – ele diz.

Olho para os meus pés descalços, que repousam entre a terra exposta e uma relva minúscula que parece um musgo verde-alaranjado.

– Também estou cansado de charadas, meu amigo. Não é brincadeira quando digo que esperava mais de um cara como você. O grande De la Mettrie, um homem de mente prática e tal. Tenho mais o que fazer.

– Não, não – ele é enfático. – Não há metáfora nenhuma aqui.

Olho novamente para o chão. O musgo e a ausência de qualquer outra vegetação conferem à paisagem ondulada um aspecto desolado de tundra. Por um minuto me ocorre que este poderia ser o inferno e que Glenn me trouxe para cá enquanto eu estava dormindo, mas não: o sol da tarde está prestes a se pôr à minha esquerda e já vejo no leste o esplendor do seu substituto. Isso quer dizer, entre outras coisas, que as horas correm e o contêiner deve estar à minha espera em algum lugar; Mia Dladla deve ligar a qualquer momento para revelar o ponto de embarque e cobrar a sua remessa, e é provavelmente por isso que o celular encontrou seu caminho de volta até mim.

– Estou com alguma pressa, Julien. Você vai precisar falar mais claro para ganhar a minha atenção. Alguma coisa como contar quem está querendo me matar. E por quê.

Agacho-me e toco a terra vermelha e arenosa com a ponta dos dedos. Esta deve ser uma samsta, uma região não cultivada do céu, embora eu nunca tenha estado em uma. Consta que há uma enorme área dessas a quarenta minutos da capital Q, mas não é nessa direção que cresce a cidade. É notório que é nessas terras baldias, inférteis até que os celestias a adornem com seu paisagismo, que os encarnados costumam erguer os seus campos de refugiados. Isso deve me dar uma boa idéia de para onde Glenn está me levando.

– Está vendo? – digo, quando fica claro que De la Mettrie não vai dizer nada. – Tenho de ir agora.

– Aonde você está indo?

Olho na direção do Peugeot. Glenn não tirou as mãos do volante, mas acompanha cada movimento meu.

– Estou indo ver Gandhi – confesso, já perdendo a esperança de alguma retribuição.

– Excelente – opina De la Mettrie, com algum entusiasmo. – Então Glenn Miller está com você?

– Sim. Ele me salvou da morte certa nas mãos de quem você não quer me contar quem é.

– Peça que Glenn lhe fale sobre a balança de três pratos.

– Você – fico em pé, endurecendo o tom de voz enquanto limpo na calça a terra da ponta dos dedos. – há um minuto me disse para não falar com ninguém antes de falar com você, agora acha uma coisa boa eu falar com Gandhi, com Glenn e com o resto do mundo.

– Eu não tinha como saber se você não estava com as pessoas erradas. E você está falando primeiro comigo, afinal de contas.

– Pessoas erradas? – minha indignação é real. – Você quer então que eu conclua que você, que me liga do nada e não tem pra me contar, é uma das pessoas certas? Olhe, vá pro inferno.

– Eu já… Seu problema, Cirurgião – De la Mettrie passa finalmente a cuspir as palavras – é o de todos os homens, o de pensar de si mesmo além do que convém. Você há pouco disse que está no centro, “eu estou no centro”, mas você não é o centro de nada, meu amigo.

– Todo alvo está no centro por algum instante, De la Mettrie. Posso garantir que estão querendo me apagar, e se eu não descobrir por que, podem muito bem acabar conseguindo.

– Ninguém está querendo te matar, Cirurgião - ele zomba enfaticamente. – Não no sentido que você seja de alguma importância. A coisa é bem mais mecânica, meu caro: estão tentando impedir você de fazer o que pode fazer. Você é o macaco que aberta o botão.

– E o que há de tão ameaçador no que eu posso fazer, que mereça a atenção de tanta gente? Que mereça a sua atenção, Julien? O que um cara como eu pode fazer?

– O que você faz, naturalmente.

– E o que é que eu faço?

Ele hesita um instante e parece que vai continuar, mas ouço uma espirada de ar que deve ser um sorriso.

– Você deveria ver o que vou fazer agora – digo, e no momento seguinte já desliguei o celular e apertei-o com violência entre as mãos e debulhei com os dedos e semeei a samsta ao redor com os pedaços.

Caminho a passos largos até o Peugeut; como que desperto pela força da minha decisão, Glenn abre a porta do carro e anda um passo na minha direção.

– Vão conseguir rastrear você mesmo sem o celular, você sabe disso.

– Era De la Mettrie, o filho – ignoro o comentário, e caminho pelo acostamento áspero até estar em pé diante do meu amigo. – Ele prometeu revelações subterrâneas mas não respondeu as minhas perguntas, até que me ocorreu uma resposta que está diante dos meus olhos.

Glenn Miller empalidece imediatamente, ignoro devido a qual parte do que eu disse.

Mas já vou descobrir. Uso as duas mãos para tirar do rosto dele os óculos sem aros, dobro as hastes uma contra a outra e deixo gentilmente sobre o capô.

E dou-lhe com o punho fechado o murro mais poderoso que consigo trazer do fundo da minha indignação. E outro, muito antes que ele se recupere, e mais um. Sento de pernas cruzadas no acostamento diante de onde ele caiu, não antes de acusá-lo de traidor.



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