31 de Dezembro de 2008

Happy New Year (1980)

Investigado por   Paulo Brabo

 

Estocado em Nostalgia

Este documento contém clipes de áudio que só podem ser ouvidos na página da Bacia na internet.

Nada é mais surreal, mais semelhante a vastas e lentíssimas cócegas cósmicas, do que experimentar a passagem do tempo.

A idéia de dividir o tempo, de forma semelhante ao que fazemos com o espaço, ocasiona toda espécie de dissonância cognitiva. É particularmente difícil apreender nossa relação com o passado. Para o futuro o espaço oferece uma metáfora mais ou menos adequada, já que o futuro é o que nos aguarda adiante, o que está além da próxima curva, no virar da esquina.

O passado, no entanto, é um espaço irretornável, e portanto inconcebível. Podemos levar um filho para conhecer uma paisagem da infância, mas a realidade crua aqueles dias está interditada para todos, inclusive para nós. A bagagem que trazemos do passado é ainda menor e mais imponderável do que a proverbial flor que o sonhador arranca no sonho e consegue trazer para a vigília. Não importa o que façamos: com o tempo ninguém vai acreditar no sonho, nem mesmo (e em primeiro lugar) nós mesmos.

* * *

À meia noite de 31 de dezembro de 1980, no preciso instante que inaugurou a década de 80 – a década do bom-mocismo, e portanto a minha – a tv sueca lançou o videoclipe da canção Happy New Year, do grupo ABBA.

Happy New Year é curiosamente pessimista, quase niilista, para uma canção de final de ano.

Oh yes, man is a fool/Ah, sim, o homem é um tolo
And he thinks he’ll be okay/E pensa que com ele vai dar tudo certo
Dragging on feet of clay/Arrastando pés de argila
Never knowing he’s astray/Sem jamais saber que está longe do caminho
Keeps on going anyway/Vai em frente mesmo assim

O que me fascina irresistivelmente na canção, no entanto, é a terceira e última estrofe, que pergunta – anacronicamente para nós, que vivemos literalmente na outra margem dessas especulações, – “quem sabe o que iremos encontrar [no fim desta nova década], ao final de 1989?”

Ao final de 1989. Não apenas o futuro dos que cantam é o nosso passado, mas nosso presente é um futuro que eles não ousavam sondar. Vivemos deste lado de 2001, da queda do Muro, da inconcebível internet, do encolhimento da terra, da onipresença de computadores pessoais – mas, semelhantes a todos em todo o tempo, acreditamos que conosco vai dar tudo certo.

Lembro com toda a clareza de 1980. Ah, sim, o homem é um tolo.

Clique o triângulo para ouvir o clipe

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A reflexão desconcertante de Happy New Year, ABBA, 1980

In another ten years time/Daqui a mais dez anos
Who can say what we’ll find/Quem sabe o que iremos encontrar
What lies waiting down the line/O que jaz aguardando no fim da linha
In the end of 89/Ao final de 1989



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