Ele espera que eu não faça nada, mas seu poder não se compara ao meu, porque é meu.
Abro o volume imediatamente e ele se reparte com facilidade no meio. No fulcro entre duas páginas que não saberei ler, dobrada uma única vez sobre si mesma, ergue-se debilmente uma folha timbrada dos blocos de notas do Conselho – idêntica em tudo às que aguardam solenemente sobre minha mesa na sala vazia do Bureau (onde estará o Cirurgião que não atende o celular), mas ostentando num dos lados meu próprio nome escrito nas maiúsculas de Sahid.
Aqui está, então, ao alcance da mão, o bilhete que Sahid deixou sobre a sua mesa, e não a minha, antes de ir para o inferno; que Cortiano encontrou e entregou à polícia antes que ele mesmo pudesse ler; que os brutamontes do Ermitão interceptaram na Avenida Radial e cujo conteúdo pode de alguma forma ter levado Cyril Crepsi à estremadura voluntária; que por alguma mão secreta acabou chegando ao Mahatma e sua biblioteca subterrânea e seu Oe eo circular. A mensagem que, sendo endereçada a mim, todos no vasto mundo leram antes de mim.
Ao homenzinho que está assistindo só consigo dizer:
– Preciso saber por que querem me matar.
– Você deseja uma reviravolta para redimir a sua história – ele responde, – mas só um escândalo pode fazer isso. A morte é escândalo suficiente; você não precisa do bilhete de Sahid para isso.
Mas o bilhete já está aberto entre meus dedos.
– Está em sânscrito – anuncio, olhando com algum rancor para o homenzinho.
– Só a porção central – ele corrige. – Estes sinais ao redor não sei o que querem dizer.
De fato, nas bordas do papel Sahid desenhou uma malha fechada de pontos e arcos de círculo que assemelham-se mais a um código ou faixa ornamental do que a escrita. No centro, acima da assinatura, três ou quatro palavras na caligrafia pontuada de descendentes da escrita devanagari.
– Eu não sabia que Sahid escrevia em sânscrito – observo.
– Ele não sabe. Escrevi e ele copiou. Sahid acha que não muita gente conhece sânscrito e isso poderia proteger o conteúdo do bilhete, mas ele pode estar errado tanto em uma coisa quanto em outra.
– Você pode traduzir para mim – estendo o bilhete na direção do homenzinho.
– Ciro, você é meu irmão – ele fala sem olhar para o papel. E em seguida, ficando em pé num único gesto ao redor da vara de caminhada: – Ciro, Sahid é seu irmão.
Não chego sequer a duvidar, porque a revelação explica tudo, muito mais do que posso compreender neste momento. Sahid, a personalidade notável, presidente do Bureau até alguns dias – até partir para o inferno, por razões que ninguém conhece – é meu irmão, o irmão de cuja existência eu havia por algum motivo aberto mão. Isto explica em parte por que querem me matar; explica toda a atenção que tenho recebido de gente que deveria me ignorar; explica porque sou o alvo e a esperança de tanta gente, mesmo sendo o “macaco” da definição de De la Mettrie. Acabei herdando uma série de complicações e expectativas que diziam respeito não a mim, mas a meu duplo secreto. E, antes de partir para onde ninguém volta, no último momento possível, ocorreu a Sahid me alertar. Deveria ter me ocorrido antes o quanto somos parecidos.
– Pronto – o homenzinho começa a dar as costas, na direção da abertura por onde entramos na biblioteca, – você tem a sua reviravolta. Tem a sua nova busca, e sua história se estreitou radicalmente.
– Não entendo – estou tremendo, mas agora sou eu a colocar-me de pé, deixando o livro aberto no chão. – Não entendo como você pode achar a ignorância uma coisa boa; como pode achar que eu não saber que Sahid é meu irmão me levaria mais para perto da verdade.
Ele se volta para responder.
– Você poderia chegar a entender se não tivesse lido o bilhete. Agora não pode mais.
Desvio o rosto um instante, procurando rápido um canal para minha indignação.
– E o que você esperava? Que eu vivesse na ignorância e abraçasse a sua causa?
– Eu esperava que você abraçasse a sua causa. Mas você deve ir, é tarde demais.
Não consegui ainda juntar as palavras para jogar contra ele e vem-me à mente outra necessidade, muitas vezes mais premente. Posso só ter este momento para fazer a pergunta.
– Você conhece Sahid. Vocês eram amigos, foram parceiros. O que pode me dizer dele?
Ele suspira.
– Temos poucas regras nos ashrams do paraíso, mas esta é uma delas: nunca falamos de uma pessoa que não esteja presente no momento da conversa.
Ando passos perplexos em alguma direção.
– É uma regra estúpida, é uma regra arbitrária. Você sabe muito bem que pode me facilitar a vida contando sobre Sahid.
– A regra do silêncio pode parecer arbitrária, mas foi concebida para que você possa se concentrar no seu interlocutor, ou seja, concentrar-se no aqui, no agora e em você. Mas está muito evidente que o Cirurgião não quer dar ouvidos a si mesmo.
E oferece-me as costas. Neste momento, antes que eu conjure uma solução para chamá-lo de volta, Glenn Miller aparece correndo por um dos corredores internos da biblioteca. É um homem com pressa, e traz um celular na mão.
– Mia Dladla acabou de ligar procurando você – ele fala antes de recuperar o fôlego.
Mordo o lábio inferior, instintivamente. Mia Dladla, a policial e a conspiradora, querendo mais uma vez estreitar minha história pelo celular.
– Ela mandou dizer que a sua encomenda está pronta – ele completa.
– O que quer que essa gente peça de você, não faça – o homenzinho está se afastando silenciosamente sobre os pés descalços.
– Você disse que estava comigo? – preciso saber.
– Não. Disse que não, mas não sei se ela acreditou.
– Eu não teria acreditado. Isso quer dizer que ela pode rastrear a ligação.
– Bapu, a polícia pode chegar a qualquer momento.
O homenzinho está de costas para a nossa conversa, diante da saída, mas ouve com atenção. Ele responde sem se virar.
– Leve seu amigo até a estação. Deixe que ele siga o seu caminho.
Glenn já adiantou-se dois passos corredor adentro.
– Vem comigo, Ciro, vou levá-lo de coche até a estação de Tochidepa’. Dali você pode tomar o trem até Dunedin, e dali para onde quiser. Temos um dos nossos aguardando na estação.
Guardei o bilhete no bolso da camisa e já estou correndo ao lado de Glenn pela biblioteca.
– Cassandre está com ele – Glenn faz questão de confessar.
Viro o rosto para lançar um olhar de reprovação contra o homenzinho, mas ele já sumiu pela abertura.
Este documento faz parte da série
A cor do encarnado
- O ingresso no Paraíso
- O luto
- Perfidia
- Dodó
- Entropia
- O esgotamento dos sentidos
- Heróis
- A farsa termina
- Bivalve
- Sherazade
- Precipitação
- Deducant
- A tempestade
- Turbilhão
- Preço
- Manifestação
- Meia-volta
- Brixianus
- O que pode dar errado
- Remissivo
- Perímetro
- Dor
- Malmequer
- Álibis
- Macaco
- Não é verdade
- Letes
- Véu
- Milhões
- A mesma sentença
- A resposta incompleta
- Fulcro
- Ciranda


