07 de Março de 2008

Eu sentia ser minha obrigação

Por   Paulo Brabo

 

Estocado em Manuscritos

8

Eu sentia ser minha obrigação crer que a cobra não era uma ameaça, já que meus amigos não demonstravam ter medo dela. Deve ter durado um segundo, mas cheguei a sentir-me culpado por imaginar que o animal, uma vez acolhido e aprovado pelo grupo, pudesse fazer-nos qualquer mal. Fui capaz desse ato de virtude, mas não de abandonar minha apreensão por completo. Permaneci de sobreaviso, vendo a serpente cobrir sem impedimento os espaços entre os pés dos meus amigos, um metro e meio adiante de mim.

Como se fosse capaz de farejar a minha falta de confiança, a cobra parou de repente, virou a cabeça e olhou – pela primeira vez – diretamente para mim.

Estremeci: sem nenhum intervalo e sem aviso a cobra já estava deslizando na minha direção, os olhos amarelos amarrados aos meus. Sentado com as costas contra a parede, não me ocorreu gritar ou fugir. Meu coração afundou no peito, tomado de puro desespero e terror. A sensação no entanto foi ao mesmo tempo liberadora: senti-me alerta e independente como nunca.

Quando a cobra estava a ponto de me alcançar estendi o braço de um golpe só e agarrei-a firmemente com os dedos na base da cabeça, como havia visto fazerem nos documentários da televisão, só que pela frente, não por trás como é evidentemente mais seguro fazer.

Então, como que quebrado um encanto, as pessoas na sala perceberam imediatamente o perigo. Todos olharam para mim e para minha presa, subitamente apavorados.

E senti o peso de uma terrível incumbência, porque entendi que se tinha sido eu a desvendar aquela ameaça cabia a mim livrar-me dela.



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