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Eu sentia ser minha obrigação crer que a cobra não era uma ameaça, já que meus amigos não demonstravam ter medo dela. Deve ter durado um segundo, mas cheguei a sentir-me culpado por imaginar que o animal, uma vez acolhido e aprovado pelo grupo, pudesse fazer-nos qualquer mal. Fui capaz desse ato de virtude, mas não de abandonar minha apreensão por completo. Permaneci de sobreaviso, vendo a serpente cobrir sem impedimento os espaços entre os pés dos meus amigos, um metro e meio adiante de mim.
Como se fosse capaz de farejar a minha falta de confiança, a cobra parou de repente, virou a cabeça e olhou – pela primeira vez – diretamente para mim.
Estremeci: sem nenhum intervalo e sem aviso a cobra já estava deslizando na minha direção, os olhos amarelos amarrados aos meus. Sentado com as costas contra a parede, não me ocorreu gritar ou fugir. Meu coração afundou no peito, tomado de puro desespero e terror. A sensação no entanto foi ao mesmo tempo liberadora: senti-me alerta e independente como nunca.
Quando a cobra estava a ponto de me alcançar estendi o braço de um golpe só e agarrei-a firmemente com os dedos na base da cabeça, como havia visto fazerem nos documentários da televisão, só que pela frente, não por trás como é evidentemente mais seguro fazer.
Então, como que quebrado um encanto, as pessoas na sala perceberam imediatamente o perigo. Todos olharam para mim e para minha presa, subitamente apavorados.
E senti o peso de uma terrível incumbência, porque entendi que se tinha sido eu a desvendar aquela ameaça cabia a mim livrar-me dela.
Este documento faz parte da série
Nasce um homem
- Era uma vez
- Adão era
- A teoria literária
- Para mim
- Se havia improvável graça
- O conflito que anima uma história
- A primeira blasfêmia
- Eu sentia ser minha obrigação
- Como demonstrado exemplarmente por Jesus
- De todos os detalhes
- A distinção mais antiga
- O homem em pé no centro
- Quando levantei-me do lugar
- Ele tinha o mundo natural aos seus pés
- Dois ou três personagens não bastam
- A proibição extrai seu poder
- Para caracterizar uma tragédia
- Pisei no andar térreo
- Você pode comer
- Um professor errante depara-se com um homem cego
- Nenhum outro elemento da trama
- Toda história sobre transgressão
- De todos os sonhos de que me recordo
- Não devemos deixar
- A chave, obviamente
- É curioso notar
- Para começar
- Neste ponto
- Com a entrada da serpente
- Dos enigmas da serpente
- Porém quando percebo
- A serpente é astuta
- A narrativa é límpida
- A serpente permanece um enigma
- Quando olho tempo suficiente
- O silêncio da história
- Outro resultado
- Individuação
- É o momento decisivo
- A ausência divina
- É uma pista falsa
- Não se trata
- Uma donzela encontra na floresta uma perigosa serpente
- A hora é agora


