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Ele tinha o mundo natural aos seus pés e Deus à sua mão esquerda, mas para o homem o processo da criação só completou-se depois dele mesmo, com o seu encontro com a mulher. Não é nem mesmo necessário examinar o antigo problema de interpretação que procura distinguir ou conciliar as duas narrativas da criação, a primeira em que homem e mulher são formados ao mesmo tempo (Gênesis 1) e a outra em que a mulher é moldada depois e a partir do homem (Gênesis 2). No que diz respeito ao problema do isolamento fundamental do ser humano, o momento importante é aquele em que Adão se defronta com a categoria distinta de uma companheira.
O primeiro homem tinha os pés fincados no mundo finito do Éden e o coração alçado ao mundo infinito de Deus, mas o universo é impossível de articular e de apreender sem que se tenha um verdadeiro interlocutor – isto é, a ilha só passa a existir quando Robinson Crusoé encontra Sexta-Feira.
Deus era o Manufaturador e portanto o Pai; permanecia essencialmente Outro, perpetuamente inacessível e auto-suficente e, portanto, perpetuamente insuficiente. Adão carecia de um Outro-que-fosse-ele-mesmo, alguém com quem pudesse compartilhar a experiência do mundo e dessa forma tornar o mundo compreensível para si mesmo. A sua exclamação inicial – “Agora sim! Esta é carne da minha carne e osso dos meus ossos!” – é emblema dessa sua entusiasmada percepção essencial. Antes da mulher Adão não tinha ferramentas para perceber sequer a sua condição de carne e de ossos. Eva é o espelho em que ele se vê pela primeira vez. É também o espelho que o levará a decifrar e codificar o mundo, pela mágica precária da interlocução e da linguagem.
Agora o homem pode sair pelo mundo e dizer “olhe aquilo!”, com a esperança de encontrar em outro coração a mesma maravilha que brotou no seu. A companheira tornava a maravilha concebível, e o universo pode ser mapeado.
Para o homem o mundo encontrou a completude com a entrada em cena da mulher. Para Deus ainda faltava uma coisa.
Este documento faz parte da série
Nasce um homem
- Era uma vez
- Adão era
- A teoria literária
- Para mim
- Se havia improvável graça
- O conflito que anima uma história
- A primeira blasfêmia
- Eu sentia ser minha obrigação
- Como demonstrado exemplarmente por Jesus
- De todos os detalhes
- A distinção mais antiga
- O homem em pé no centro
- Quando levantei-me do lugar
- Ele tinha o mundo natural aos seus pés
- Dois ou três personagens não bastam
- A proibição extrai seu poder
- Para caracterizar uma tragédia
- Pisei no andar térreo
- Você pode comer
- Um professor errante depara-se com um homem cego
- Nenhum outro elemento da trama
- Toda história sobre transgressão
- De todos os sonhos de que me recordo
- Não devemos deixar
- A chave, obviamente
- É curioso notar
- Para começar
- Neste ponto
- Com a entrada da serpente
- Dos enigmas da serpente
- Porém quando percebo
- A serpente é astuta
- A narrativa é límpida
- A serpente permanece um enigma

