18 de Abril de 2008

Ele tinha o mundo natural aos seus pés

Por   Paulo Brabo

 

Estocado em Manuscritos

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Ele tinha o mundo natural aos seus pés e Deus à sua mão esquerda, mas para o homem o processo da criação só completou-se depois dele mesmo, com o seu encontro com a mulher. Não é nem mesmo necessário examinar o antigo problema de interpretação que procura distinguir ou conciliar as duas narrativas da criação, a primeira em que homem e mulher são formados ao mesmo tempo (Gênesis 1) e a outra em que a mulher é moldada depois e a partir do homem (Gênesis 2). No que diz respeito ao problema do isolamento fundamental do ser humano, o momento importante é aquele em que Adão se defronta com a categoria distinta de uma companheira.

O primeiro homem tinha os pés fincados no mundo finito do Éden e o coração alçado ao mundo infinito de Deus, mas o universo é impossível de articular e de apreender sem que se tenha um verdadeiro interlocutor – isto é, a ilha só passa a existir quando Robinson Crusoé encontra Sexta-Feira.

Deus era o Manufaturador e portanto o Pai; permanecia essencialmente Outro, perpetuamente inacessível e auto-suficente e, portanto, perpetuamente insuficiente. Adão carecia de um Outro-que-fosse-ele-mesmo, alguém com quem pudesse compartilhar a experiência do mundo e dessa forma tornar o mundo compreensível para si mesmo. A sua exclamação inicial – “Agora sim! Esta é carne da minha carne e osso dos meus ossos!” – é emblema dessa sua entusiasmada percepção essencial. Antes da mulher Adão não tinha ferramentas para perceber sequer a sua condição de carne e de ossos. Eva é o espelho em que ele se vê pela primeira vez. É também o espelho que o levará a decifrar e codificar o mundo, pela mágica precária da interlocução e da linguagem.

Agora o homem pode sair pelo mundo e dizer “olhe aquilo!”, com a esperança de encontrar em outro coração a mesma maravilha que brotou no seu. A companheira tornava a maravilha concebível, e o universo pode ser mapeado.

Para o homem o mundo encontrou a completude com a entrada em cena da mulher. Para Deus ainda faltava uma coisa.

Nasce um homem

  1. Era uma vez
  2. Adão era
  3. A teoria literária
  4. Para mim
  5. Se havia improvável graça
  6. O conflito que anima uma história
  7. A primeira blasfêmia
  8. Eu sentia ser minha obrigação
  9. Como demonstrado exemplarmente por Jesus
  10. De todos os detalhes
  11. A distinção mais antiga
  12. O homem em pé no centro
  13. Quando levantei-me do lugar
  14. Ele tinha o mundo natural aos seus pés
  15. Dois ou três personagens não bastam
  16. A proibição extrai seu poder
  17. Para caracterizar uma tragédia
  18. Pisei no andar térreo
  19. Você pode comer
  20. Um professor errante depara-se com um homem cego
  21. Nenhum outro elemento da trama
  22. Toda história sobre transgressão
  23. De todos os sonhos de que me recordo
  24. Não devemos deixar
  25. A chave, obviamente
  26. É curioso notar
  27. Para começar
  28. Neste ponto
  29. Com a entrada da serpente
  30. Dos enigmas da serpente
  31. Porém quando percebo
  32. A serpente é astuta
  33. A narrativa é límpida
  34. A serpente permanece um enigma
  35. Quando olho tempo suficiente
  36. O silêncio da história
  37. Outro resultado
  38. Individuação
  39. É o momento decisivo
  40. A ausência divina
  41. É uma pista falsa
  42. Não se trata
  43. Uma donzela encontra na floresta uma perigosa serpente
  44. A hora é agora
  45. Porque – e ignoro quantas vezes terei de voltar
  46. Alcançar a individuação
  47. Eva recua
  48. Deus sabe
  49. O motor do conflito
  50. A grande revelação
  51. Transgredir
  52. A obra da serpente
  53. Onde está a maldade
  54. O que me faz lembrar
  55. A transfiguração do conflito
  56. Que são a imitação e o jogo de espelhos
  57. O que esta história existe para mostrar
  58. É por isso
  59. É o último momento
  60. Quando volto à recordação
  61. O efeito imediato
  62. Como numa comédia de erros
  63. Minha primeira transgressão
  64. É só do lado de cá
  65. A esse princípio
  66. Não nos deverá
  67. A coisa boa
  68. Se o conflito é a graça
  69. A transgressão original
  70. Transgredir é escolher
  71. No espaço recém-aberto da minha transgressão
  72. Em si mesmo nada há de terrível
  73. O conceito teológico
  74. Bastaria a morte
  75. A ambivalência do poder
  76. A maldição do pó
  77. Há algo de terrível na autodeterminação
  78. Minha disciplina pessoal mais antiga
  79. Essa crueza
  80. Não é completa
  81. Essas histórias
  82. Na noite de ontem para hoje
  83. O outro símbolo universal
  84. A serpente é mentirosa
  85. O primeiro desdobramento
  86. Foi mais ou menos nessa época
  87. Todas as lendas
  88. Minha convicção

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Versões digitais dos manuscritos da Biblioteca do Monastério de São Brabo, nas Índias Ocidentais.
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