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É curioso notar que o homem que não teve infância, ao mesmo tempo forte e viril como um adulto e nu e vulnerável como um recém-nascido, é um referente adequado da nossa condição mesmo antes de dar o primeiro passo inequívoco em direção ao seu conflito.
Na contradição do homem que nasceu maduro tornamo-nos capazes de enxergar o papel da infância na nossa própria história; podemos intuir, se ainda não o fizemos, que a criança que fomos moldou em grande parte a pessoa que somos. Diante dos nossos próprios conflitos agimos segundo a instrução ou a criatividade dessa criança primordial, e o primeiro homem carece dessa referência.
Deve ficar claro que a geração fora do tempo de Adão e seu fracasso em gerenciar a abundância estão intimamente ligados; ambos são, ainda, emblemas de aspectos fundamentais da nossa própria condição. Neste sentido, a narrativa explica que descendemos todos de alguém que nunca chegou a se resolver emocionalmente.
Nós mesmos lutamos incessantemente para nos ajustarmos à circunstância que representou para o primeiro homem um problema. Para todos a idade adulta – o rótulo de adulto – chega antes que nos sintamos inteiramente preparados para ele. Sem a reconciliação da infância permanecerá para sempre presente impensável e ameaça desconcertante.
Essa lição da figura de Adão será de todas a mais evidente: quem não é criança jamais chegará à maturidade. Não é de admirar que Jesus dirá que para entrar no Reino é preciso ser como criança; o primeiro homem teve de demonstrar que ser homem não basta.
Este documento faz parte da série
Nasce um homem
- Era uma vez
- Adão era
- A teoria literária
- Para mim
- Se havia improvável graça
- O conflito que anima uma história
- A primeira blasfêmia
- Eu sentia ser minha obrigação
- Como demonstrado exemplarmente por Jesus
- De todos os detalhes
- A distinção mais antiga
- O homem em pé no centro
- Quando levantei-me do lugar
- Ele tinha o mundo natural aos seus pés
- Dois ou três personagens não bastam
- A proibição extrai seu poder
- Para caracterizar uma tragédia
- Pisei no andar térreo
- Você pode comer
- Um professor errante depara-se com um homem cego
- Nenhum outro elemento da trama
- Toda história sobre transgressão
- De todos os sonhos de que me recordo
- Não devemos deixar
- A chave, obviamente
- É curioso notar
- Para começar
- Neste ponto
- Com a entrada da serpente
- Dos enigmas da serpente
- Porém quando percebo
- A serpente é astuta
- A narrativa é límpida
- A serpente permanece um enigma

