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Dois ou três personagens não bastam, o palco está vazio até que nasça o conflito; e de todos os conflitos o mais imediato, o mais cru e primal e o mais entranhado na carne narrativa da humanidade, do que dão testemunho as heranças folclóricas de todas as culturas, é a proibição.
Em termos literários, e portanto históricos, não há modo mais eficaz de fazer avançar a narrativa do que colocar o protagonista diante de uma interdição. João e Maria não devem entrar sozinhos na floresta escura, os puros de coração não devem usar o Anel do Poder, ser humano algum pode voar, o homem não pode chegar à Lua.
Mas não por muito tempo, blasfemam a Narrativa e a História, por que ninguém permanece indefinidamente em pé diante da atração irresistível da transgressão.
Era o dia ou a véspera de Natal de 1984 quando assisti a Gremlins, de Joe Dante, pela primeira vez. Desapareci no sacramento da escuridão, e dali vi o protagonista receber um presente de Natal extraordinário, uma maravilha, um animal de fábula invadindo o tecido do século XX. Porém, como todo herói, o protagonista é imediatamente lembrado de que nenhum presente é inequivocamente propício, porque vem embalado em responsabilidades que se mostrarão embaraçosas ou terríveis. O pequeno mogwai de Gremlins vinha acompanhado de três recomendações simples: o rapaz não deveria expor o animalzinho à luz intensa (especialmente a luz do sol), não deveria deixar que ele se molhasse e nunca – absolutamente nunca – deveria alimentá-lo depois da meia-noite.
É com irrestrito deleite que a audiência acompanha quando são proferidas e repetidas essas proibições, porque nós que acompanhamos a história sabemos – absolutamente sabemos – que cada uma delas será espetacularmente transgredida, e cada uma delas colaborará à sua maneira para a acentuação do conflito e (portanto) o desdobramento da história.
O conteúdo de toda proibição é necessariamente arbitrário; “nunca coma esta fruta” faz tanto sentido dramático quanto “nunca ande sozinho na floresta” ou “nunca visite a ala oeste do castelo”. O conteúdo da interdição tem pouca importância, porque sua função é mecânica: levar a engrenagem da história a conectar-se com o dente seguinte.
Não faz diferença se se passaram dez mil anos ou cinco minutos de bem-aventurança até o homem apertar o fruto proibido entre os lábios. A transgressão veio à luz, como sempre acontece, no exato momento em que nasceu a proibição. A Narrativa sabe disso, Deus não tinha como deixar de saber.
Este documento faz parte da série
Nasce um homem
- Era uma vez
- Adão era
- A teoria literária
- Para mim
- Se havia improvável graça
- O conflito que anima uma história
- A primeira blasfêmia
- Eu sentia ser minha obrigação
- Como demonstrado exemplarmente por Jesus
- De todos os detalhes
- A distinção mais antiga
- O homem em pé no centro
- Quando levantei-me do lugar
- Ele tinha o mundo natural aos seus pés
- Dois ou três personagens não bastam
- A proibição extrai seu poder
- Para caracterizar uma tragédia
- Pisei no andar térreo
- Você pode comer
- Um professor errante depara-se com um homem cego
- Nenhum outro elemento da trama
- Toda história sobre transgressão
- De todos os sonhos de que me recordo
- Não devemos deixar
- A chave, obviamente
- É curioso notar
- Para começar
- Neste ponto
- Com a entrada da serpente
- Dos enigmas da serpente
- Porém quando percebo
- A serpente é astuta
- A narrativa é límpida
- A serpente permanece um enigma
- Quando olho tempo suficiente
- O silêncio da história
- Outro resultado
- Individuação
- É o momento decisivo
- A ausência divina
- É uma pista falsa
- Não se trata
- Uma donzela encontra na floresta uma perigosa serpente
- A hora é agora


