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Com a entrada da serpente, a trama assume deliberadamente uma nova feição; o terceiro capítulo de Gênesis é um novo jogo com novas regras.
Até este momento cada elemento que a narrativa introduzia estava diretamente ligado, em termos dramáticos, ao anterior. Do caos Deus extraíra a terra, para aplainar o caos; da terra Deus extraíra o homem, para sujeitar a terra; do homem Deus extraíra a mulher, para acompanhar o homem.
A apresentação da serpente quebra de modo formidável este padrão de pétalas concêntricas que vão se desdobrando. Sua entrada em cena, como a de um deus ex machina descendo ao palco por meio de cordas bem visíveis, carece da naturalidade e da graça com que a narrativa nos havia habituado até agora.
Até agora, a história havia sido cuidadosamente estruturada de modo a estabelecer sem sombra de dúvida as relações internas entre os elementos da narrativa: Deus, terra, homem, mulher. Porém, quando a serpente coloca o pé no cenário, nada sabemos de certo sobre a relação dela com cada um desses elementos. O roteiro não havia nos preparado para essa nova personagem; não temos recursos para entender o que ela está fazendo ali.
A serpente é dessa forma uma intrusão e um enigma, e na própria estrutura da história. Nada, até agora, dera-nos a entender que a esta altura do conflito um novo personagem relevante poderia ser introduzido. Nada, até agora, dera-nos qualquer indicação de que o mundo que Deus criou não era em tudo idêntico ao nosso. Nada nos preparara para um universo em que serpentes têm pernas e pés, animais são dotados de inteligência e iniciativa e conversam livremente com as pessoas. Nada, absolutamente nada, nos preparara para um novo personagem menos esperto do que Deus mas mais esperto do que o homem.
Com a aparição da serpente, o narrador trapaceia, porque leva a história para rumos que não dava qualquer indicação que havia de tomar.
Este documento faz parte da série
Nasce um homem
- Era uma vez
- Adão era
- A teoria literária
- Para mim
- Se havia improvável graça
- O conflito que anima uma história
- A primeira blasfêmia
- Eu sentia ser minha obrigação
- Como demonstrado exemplarmente por Jesus
- De todos os detalhes
- A distinção mais antiga
- O homem em pé no centro
- Quando levantei-me do lugar
- Ele tinha o mundo natural aos seus pés
- Dois ou três personagens não bastam
- A proibição extrai seu poder
- Para caracterizar uma tragédia
- Pisei no andar térreo
- Você pode comer
- Um professor errante depara-se com um homem cego
- Nenhum outro elemento da trama
- Toda história sobre transgressão
- De todos os sonhos de que me recordo
- Não devemos deixar
- A chave, obviamente
- É curioso notar
- Para começar
- Neste ponto
- Com a entrada da serpente
- Dos enigmas da serpente
- Porém quando percebo
- A serpente é astuta
- A narrativa é límpida
- A serpente permanece um enigma
- Quando olho tempo suficiente
- O silêncio da história
- Outro resultado
- Individuação
- É o momento decisivo
- A ausência divina
- É uma pista falsa
- Não se trata
- Uma donzela encontra na floresta uma perigosa serpente
- A hora é agora


