01 de Agosto de 2008

Com a entrada da serpente

Por   Paulo Brabo

 

Estocado em Manuscritos

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Com a entrada da serpente, a trama assume deliberadamente uma nova feição; o terceiro capítulo de Gênesis é um novo jogo com novas regras.

Até este momento cada elemento que a narrativa introduzia estava diretamente ligado, em termos dramáticos, ao anterior. Do caos Deus extraíra a terra, para aplainar o caos; da terra Deus extraíra o homem, para sujeitar a terra; do homem Deus extraíra a mulher, para acompanhar o homem.

A apresentação da serpente quebra de modo formidável este padrão de pétalas concêntricas que vão se desdobrando. Sua entrada em cena, como a de um deus ex machina descendo ao palco por meio de cordas bem visíveis, carece da naturalidade e da graça com que a narrativa nos havia habituado até agora.

Até agora, a história havia sido cuidadosamente estruturada de modo a estabelecer sem sombra de dúvida as relações internas entre os elementos da narrativa: Deus, terra, homem, mulher. Porém, quando a serpente coloca o pé no cenário, nada sabemos de certo sobre a relação dela com cada um desses elementos. O roteiro não havia nos preparado para essa nova personagem; não temos recursos para entender o que ela está fazendo ali.

A serpente é dessa forma uma intrusão e um enigma, e na própria estrutura da história. Nada, até agora, dera-nos a entender que a esta altura do conflito um novo personagem relevante poderia ser introduzido. Nada, até agora, dera-nos qualquer indicação de que o mundo que Deus criou não era em tudo idêntico ao nosso. Nada nos preparara para um universo em que serpentes têm pernas e pés, animais são dotados de inteligência e iniciativa e conversam livremente com as pessoas. Nada, absolutamente nada, nos preparara para um novo personagem menos esperto do que Deus mas mais esperto do que o homem.

Com a aparição da serpente, o narrador trapaceia, porque leva a história para rumos que não dava qualquer indicação que havia de tomar.



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