12 de Março de 2008

Álibis

Por   Paulo Brabo

 

Estocado em Manuscritos

– Estou dormindo há quanto tempo? – pergunto, e estendo imediatamente a mão para avaliar a nuca que dói.

Estou no banco do passageiro, e o Peugeot azul-claro de Glenn desliza sem impedimento por uma rodovia que divide uma planura sem casas e sem árvores. Não conheço a paisagem e não tenho como calcular o nosso destino, mas posso estar seguro de que não é a Alameda Éden.

– Muito tempo. Você estava cicatrizando – ele explica, sem tirar os olhos da estrada.

E, de fato, quando abro dois botões da camisa para conferir, a pele do ombro está fechada numa fratura rosada que lembra uma cicatriz de queimadura. As próprias fibras da camisa, regidas pela entropia invertida do céu, estão se regenerando muito lentamente para reparar o sutil xadrez dos dois buracos que a bala abriu no tecido. Apenas as manchas escuras de sangue, imunes a toda essa ressurreição, permanecem.

– Alguém está se dando ao trabalho de tentar me matar – observo estoicamente, voltando a cobrir o ombro.

– Alguém está se dando ao trabalho de tentar te salvar – corrige Glenn, olhando-me por um instante enquanto faz o carro acompanhar uma curva ampla da estrada.

Pondero se ele está tentando angariar um agradecimento por me ter salvo a vida, agradecimento que não sei se estou pronto a oferecer. É certo que foi Glenn quem me içou da balsa e da mira do inferno pelo cabo da lanterna, mas – e posso estar errado – estar presente no local e na hora do crime não consiste no mais brilhante dos álibis. Preciso ter certeza de que seu plano original não era me salvar.

– O cabo que você trazia amarrado na cintura e que você disse ser de uma lanterna elétrica – conta Glenn, como que para dissipar a desconfiança que eu estava certo de não transparecer, – não é de lanterna coisíssima nenhuma. Pode olhar, está no banco de trás.

Ele faz um sinal com a cabeça, e viro o corpo para puxar um laço do cabo que aguarda no banco de trás, enrodilhado como uma cobra.

– Não há lâmpada no bocal – explica Glenn, enquanto examino para confirmar – nem fio de corrente dentro do cabo de borracha. A outra ponta estava enrolada na coluna de direção do seu Cabriolet, foi como a encontrei. Quem quer que tenha amarrado esse cabo na sua cintura queria que você tivesse uma chance de se arrastar de volta para a margem do céu. Só isso.

Ele está falando de De Pabodí, que em determinado momento deixara de me responder pelo rádio simplesmente porque não estava mais ali para responder. Quando surgira da trilha enlameada do rio, sangrando e coberto de hematomas e um minuto antes de desfalecer aos pés de Glenn Miller, eu andara ao redor com lucidez suficiente para notar que só nós dois estávamos por ali. Depois de deixar-me à mercê de uma armadilha que não tinha como ignorar, mas – agora tenho como saber – não antes de me oferecer alguma chance de sobreviver, o balseiro-mor de Dáun-Behri havia abandonado sua base com o seu pessoal.

Glenn estava certo. Que tentassem me matar era curioso; que tentassem me salvar era notável. Quase tão notável, na verdade, quanto a idéia de Gandhi querer me ver pessoalmente, mas esse era um trunfo que eu deveria reservar para outro momento da conversa. Queria ser capaz de usá-lo como alavanca para novas revelações, mas para isso tinha de ter sondado melhor o terreno. Eu havia sido displicente: pensava que conhecia meu amigo, mas suas águas eram mais profundas. Minha obrigação agora era reavaliar tudo, a começar da suposição de que éramos amigos.

– Você tem alguma idéia de quem está tentando te matar? – é Glenn quem começa, e me aborrece porque deveria ser eu a estar fazendo as perguntas.

– Achei que você iria me dizer – retruco, adotando de mau grado a defensiva. Chego o rosto mais para perto da janela aberta, tentando afastar uma sugestão de náusea.

– Penso que pode ser dito com segurança – observa Glenn, como quem está expondo sem presunção uma obviedade – que quem está tentando matar você é a mesma pessoa que o atraiu até Dáun-Behri. Ou pessoas.

Ele está certo de novo, e em algum recesso da consciência eu já havia pensando nisso. Mas não um pulha como Pjelelani Andu, que não falou em Dáun-Behri até eu mesmo mencionar o lugar. Não Mia Dadla e certamente não o Ermitão. Um peixe mais graúdo, que nessas águas turvas ainda não consigo localizar. O céu é um lugar estranho. Para matar alguém é preciso atraí-lo antes para o inferno, e há um número limitado de modos de fazer isso. Não que eu conheça todos.

Agora, quando penso na contâiner que tenho de fazer chegar ao inferno, não sei mais dizer se a remessa é o assunto ou a desculpa. A encomenda pode muito bem ser o Cirurgião.

– Você deve pensar nisso – Glenn aconselha, desnecessariamente.

– O que falta você me dizer – arrisco, decidido a atacar mais diretamente, – é o que estava fazendo em Dáun-Behri a tempo de me salvar. Não que eu não seja grato pela conveniência da coisa.

– Essa é fácil – ele bate com o punho na direção. – Você está sendo seguido. E evidentemente não só por nós.

Antes que eu possa perguntar a quem se refere esse “nós”, um celular toca dentro do carro e digno-me a silenciar. Glenn demora um instante antes de reagir.

– Não é o meu – ele me olha meio surpreso para explicar. Diante da minha própria expressão de perplexidade ele prossegue: – Deve ser o seu, coloquei numa sacola com tudo que tirei do seu carro. Está atrás do seu banco.

– Meu celular não está comigo desde… – prefiro não terminar. Puxo a sacola para o meu colo e retiro o celular de dentro. É sem dúvida o meu; deveria estar no fundo de um banho de espuma na minha casa, onde não teria como ofender ninguém, mas está aqui.

– Suas bivalves também estão na sacola. E também um exemplar do Manual do Ingressante no Céu – revela Glenn, erguendo as sobrancelhas. Seu tom de voz é apenas levemente condenatório.

– Glenn, isso é serio. Preciso saber: não foi você quem trouxe o celular da minha casa?

O telefone ainda está tocando. Não conheço o número na telinha, mas posso imaginar quem seja.

– Estou te falando, estava no seu novo Cabriolet. No banco do motorista.

Infinitamente irritado, trago o celular para junto da boca.

– Ciro – meu tom é intimidador, mas a voz que responde não é de quem eu estava pensando. Com tremenda seriedade e sem nenhum intervalo, ordeno a Glenn: – Pare o carro.

Ele freia, sem arriscar uma pergunta, e encosta o Peugeot no acostamento. Abro a porta e dou três passos na direção do deserto antes de voltar a falar ao telefone.

– De la Mettrie – digo, olhando para certificar-me que Glenn não saiu do carro para ouvir a conversa. – O que foi?

– Não fale com ninguém antes de falar comigo – ele diz.



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