05 de Setembro de 2008

A serpente permanece um enigma

Por   Paulo Brabo

 

Estocado em Manuscritos

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A serpente permanece um enigma também porque, embora conheçamos bastante sobre o seu crime, desconhecemos por completo os seus motivos. Dos personagens que a narrativa apresentou até agora acompanhamos algum desenvolvimento dramático. De Deus, Adão e Eva conhecemos os poderes, os limites, a missão.

Quando a serpente comparece na história tudo que está ali para nos receber é o mistério da sua presença, o enigma da sua necessidade. Sabemos como funcionam as narrativas (esta, mesmo sendo a história das primeiras coisas, não é a primeira história que ouvimos), e sabemos que a narrativa caminharia para o seu inevitável fim, com desdobramentos espetaculares para a relação entre Deus e o homem, sem a presença necessária de um vilão.

Mas já que somos premiados com um criminoso, a primeira coisa que exigimos conhecer são os seus motivos, isto é, a natureza da sua relação – sua tensão – com os demais personagens. Porém, quando descobrimos alguma coisa sobre os poderes e sobre a missão da serpente, é pelo que o proprio vilão faz e diz, não pelo que o narrador nos alerta ou confidencia sobre ele.

O narrador, que nos levara pela mão até aqui, deixa-nos de repente à mercê da serpente. Deixa-nos sozinhos inclusive para ponderar porque raios ele faria uma coisa dessas.



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