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A serpente é astuta e não revelará com facilidade o seu verdadeiro papel numa narrativa que, em termos estritos, não precisa dela para levar o seu conflito adiante. Requer-se-á uma outra forma de astúcia para entender o que a serpente está fazendo na história do Éden, e serão necessários dois mil anos para que Jesus contribua com uma interpretação esclarecedora.
Por enquanto deverá bastar contrapor a singeleza do texto às evasivas complexidades da nossa própria tradição. Para começar, é necessário contornar os rótulos que intérpretes e tradições dão ao que está acontecendo. Dar nomes é interpretar, e as interpretações acabam resvalando para dentro das histórias antes que cheguemos a elas pela primeira vez (e, precisamente da mesma forma que a história da Queda prescinde da serpente, o significado de uma narrativa prescinde das interpretações que lhe impõe a tradição).
Quem se aproxima do terceiro capítulo de Gênesis é invariavelmente guiado por um título que não faz parte do texto original. Estará, sem escapatória, na sua própria edição de Bíblia: “A tentação de Adão e Eva” – ou alguma variante desse mesmo preconceito. Este crédito de abertura, inserido pelos que tinham a boa intenção de catalogar em compartimentos estanques o inquieto fluido da narrativa bíblica, é pelo menos tão enganador quanto a serpente.
Pois a narrativa, incrivelmente, não usa a palavra tentação nem qualquer uma de suas variantes; não usa a palavra pecado, nem qualquer uma de suas variantes; não remete de forma direta (e quem sabe mesmo indireta) a qualquer um desses conceitos. Quando damos a este episódio o nome de “tentação de Adão e Eva” e à sua resolução o nome de “pecado original”, imprimimos à história uma interpretação retrospectiva que ela mesma procura evitar.
E por uma boa razão.
Este documento faz parte da série
Nasce um homem
- Era uma vez
- Adão era
- A teoria literária
- Para mim
- Se havia improvável graça
- O conflito que anima uma história
- A primeira blasfêmia
- Eu sentia ser minha obrigação
- Como demonstrado exemplarmente por Jesus
- De todos os detalhes
- A distinção mais antiga
- O homem em pé no centro
- Quando levantei-me do lugar
- Ele tinha o mundo natural aos seus pés
- Dois ou três personagens não bastam
- A proibição extrai seu poder
- Para caracterizar uma tragédia
- Pisei no andar térreo
- Você pode comer
- Um professor errante depara-se com um homem cego
- Nenhum outro elemento da trama
- Toda história sobre transgressão
- De todos os sonhos de que me recordo
- Não devemos deixar
- A chave, obviamente
- É curioso notar
- Para começar
- Neste ponto
- Com a entrada da serpente
- Dos enigmas da serpente
- Porém quando percebo
- A serpente é astuta
- A narrativa é límpida
- A serpente permanece um enigma
- Quando olho tempo suficiente
- O silêncio da história
- Outro resultado
- Individuação
- É o momento decisivo
- A ausência divina
- É uma pista falsa
- Não se trata
- Uma donzela encontra na floresta uma perigosa serpente
- A hora é agora


